Dirigido por Akinola Davies, A Sombra do Meu Pai constrói um olhar sensível e juvenil não apenas sobre o fim do Apartheid, mas também sobre a tentativa de reconexão entre um pai e seus filhos.
É inevitável traçar um paralelo entre O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006, Cao Hamburger) e A Sombra do Meu Pai. Ambos os filmes se passam na segunda metade do século XX e utilizam o olhar inocente da juventude para atravessar períodos politicamente conturbados. No entanto, mais do que apenas contextualizar eventos históricos, essas obras encontram força na delicadeza com que traduzem o amadurecimento emocional de seus protagonistas. Há, nas duas narrativas, um sentimento de descoberta que mistura nostalgia, confusão e encantamento diante de um mundo em transformação.
Ambientado em 1993, quando o regime do Apartheid se aproximava de um fim turbulento, o filme acompanha dois irmãos que viajam até Lagos ao lado do pai distante. Ao longo de um único dia, eles exploram a cidade e, simultaneamente, confrontam as tensões familiares e sociais que os cercam. A escolha de condensar a narrativa nesse curto espaço de tempo intensifica a experiência, transformando Lagos quase em um personagem: vibrante, caótica e profundamente contraditória.

Sope Dirisu, Godwin Egbo e Chibuike Marvellous Egbo em cena de “A Sombra do Meu Pai”- Divulgação Filmes da Mostra
Tecnicamente, A Sombra do Meu Pai se destaca por uma cinematografia que privilegia movimentos de câmera controlados e composições precisas. Essa estabilidade visual, no entanto, é rompida nos momentos de maior tensão, quando a câmera tremida transmite a urgência e o desconforto da instabilidade política. Essa alternância reforça o paralelo entre o caos externo e o conflito interno do pai, que revisita suas próprias decisões, especialmente o distanciamento da família em nome do sustento.
As interações entre pai e filhos são o coração emocional do filme. Há uma constante sensação de ausência, intensificada pela figura da mãe, que nunca aparece fisicamente, existindo apenas através das memórias e preocupações dos personagens. Essa escolha narrativa amplia a empatia do espectador, preenchendo o vazio com afeto e saudade. Ao mesmo tempo, os diálogos frequentemente provocam reflexões sobre responsabilidade, pertencimento e as difíceis escolhas impostas por contextos sociais adversos.

Sope Dirisu em cena de “A Sombra do Meu Pai”- Divulgação Filmes da Mostra
O ritmo contemplativo, centrado em diálogos e observações cotidianas, reforça a proposta intimista da obra. No entanto, essa abordagem também se torna um de seus pontos mais frágeis. Com menos de 90 minutos, A Sombra do Meu Pai ocasionalmente se alonga em cenas que reiteram ideias já estabelecidas, sem necessariamente aprofundá-las. Ainda que a fotografia em 16mm contribua para uma atmosfera nostálgica e tátil, nem mesmo sua beleza constante consegue sustentar totalmente esses momentos de repetição.
Narrativamente, o título revela sua própria metáfora: os filhos orbitam o pai, absorvendo suas contradições enquanto tentam compreender o mundo ao redor. Esse processo culmina em um terceiro ato que concentra as decisões mais importantes, especialmente para Folarin, dividido entre a vida construída em Lagos e o vínculo familiar. Embora esse desfecho tenha força temática, há uma sensação de transição abrupta, como se faltasse uma conexão mais clara entre os eventos finais.
Como estreia em longa-metragem, o trabalho de Akinola Davies demonstra uma voz autoral promissora, ainda que careça de maior lapidação. Há uma honestidade evidente na forma como o diretor constrói seus personagens e seus silêncios, mesmo quando a narrativa parece hesitar. O resultado é um filme que, apesar de suas imperfeições, carrega potência emocional e uma sensibilidade rara ao capturar o impacto das grandes mudanças históricas na esfera íntima.
Distribuído pela Filmes da Mostra, A Sombra do Meu Pai estreia nos cinemas brasileiros em 30 de abril, consolidando-se como uma obra que convida à contemplação e, acima de tudo, à escuta.
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