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Isabelle Huppert em cena de "As Pessoas ao Lado"- Divulgação Imovision
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘As pessoas ao lado’ é um drama promissor liderado pelo carisma de Isabelle Huppert

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 16 de maio de 2026
5 Min Leitura
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Isabelle Huppert em cena de "As Pessoas ao Lado"- Divulgação Imovision
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Dirigido por André Téchiné, As pessoas ao lado tem boas intenções, mas…

Nem toda boa ideia sustenta um longa-metragem. Em As Pessoas ao Lado, o que poderia render um drama íntimo e potente se dilui em uma narrativa dispersa, repleta de cenas vazias e conflitos que nunca atingem a força prometida. Nem mesmo o enorme carisma de Isabelle Huppert consegue transformar a produção em algo realmente memorável.

A trama acompanha Lucie, uma policial solitária próxima da aposentadoria que reencontra um senso de pertencimento ao se aproximar dos novos vizinhos. Aos poucos, aquela convivência desperta nela sentimentos há muito esquecidos, especialmente após anos vivendo cercada apenas pelos fantasmas do passado e pela ausência do ex-marido. Existe uma base dramática interessante nessa construção: uma mulher fechada emocionalmente que redescobre a possibilidade de conexão humana através de pessoas completamente diferentes dela.

O problema é que As pessoas ao lado demora demais para desenvolver essa premissa. Em seus enxutos 82 minutos, a narrativa parece constantemente estagnada, presa em situações que pouco acrescentam ao desenvolvimento dos personagens ou ao avanço dramático. O primeiro ato se arrasta em cenas cotidianas que tentam reforçar a solidão de Lucie, mas raramente encontram um peso emocional capaz de envolver o espectador.

Isabelle Huppert, Hafsia Herzi e Nahuel Pérez Biscayart em cena de "As Pessoas ao Lado"- Divulgação Imovision

Isabelle Huppert, Hafsia Herzi e Nahuel Pérez Biscayart em cena de “As Pessoas ao Lado”- Divulgação Imovision

Essa sensação é agravada pelas escolhas técnicas de André Téchiné. A decupagem aposta em câmera tremida, desfoques e enquadramentos aparentemente aleatórios, criando um estranhamento que mais distancia do que aproxima. Em vez de transmitir intimidade ou desconforto psicológico, a direção visual frequentemente passa uma impressão de amadorismo. Falta intenção estética mais clara para justificar determinadas escolhas de fotografia e movimentação de câmera.

Ainda assim, o roteiro apresenta elementos interessantes. O embate ideológico entre Lucie e Yann talvez seja o aspecto mais promissor da obra. Ela, representante da lei e da ordem; ele, um idealista politicamente engajado. A relação entre os dois abre espaço para reflexões sobre empatia, escuta e convivência entre pessoas com visões de mundo opostas. Em diversos momentos, o filme parece caminhar para um conflito mais intenso entre essas perspectivas, mas nunca encontra a catarse necessária.

Ao invés de aprofundar essa tensão, a narrativa se dispersa em sequências que pouco contribuem para o conjunto. Cenas de dança, momentos descontraídos no boliche e outras interações cotidianas parecem existir apenas para preencher tempo de tela. O resultado é um filme que constantemente sugere profundidade, mas raramente a alcança.

A discussão sobre aprender a ouvir o outro não é novidade no cinema contemporâneo. Recentemente, Eu não te Ouço (2026, Caco Ciocler) também explorou essa ideia de maneira mais emocionalmente eficaz. Em As Pessoas ao Lado, porém, a sensação predominante é de vazio. Todos os elementos para um grande drama estão presentes, mas falta intensidade dramática para conectá-los.

Hafsia Herzi e Nahuel Pérez Biscayart em cena de "As Pessoas ao Lado"- Divulgação Imovision

Hafsia Herzi e Nahuel Pérez Biscayart em cena de “As Pessoas ao Lado”- Divulgação Imovision

Nem mesmo os conflitos internos de Lucie conseguem ganhar força suficiente. Sua trajetória é simples demais para provocar maior impacto, e o roteiro rapidamente elimina ambiguidades que poderiam enriquecer a narrativa. Quando o filme sugere que Yann talvez esconda comportamentos violentos ou contraditórios, logo abandona essa possibilidade para transformá-lo apenas em um idealista incompreendido. Com isso, o conflito perde complexidade e previsibilidade toma conta da trama.

Tecnicamente, a produção também pouco impressiona. A fotografia raramente encontra composições marcantes, enquanto a direção de arte aposta em um realismo sem personalidade visual. Falta refinamento para que o longa encontre identidade própria.

Ao final, o sentimento é de potencial desperdiçado. Com mais foco e maior concisão, As Pessoas ao Lado poderia funcionar como um estudo poderoso sobre incomunicabilidade, ideologia e afeto. Em vez disso, entrega uma experiência morna, dispersa e emocionalmente distante.

Distribuído pela Imovision, As Pessoas ao Lado estreia nos cinemas brasileiros em 14 de maio, exclusivamente nas salas do Reserva Cultural.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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