Dirigido por Fabrício Bittar, O Rei da Internet aposta em ritmo frenético e nostálgico para narrar uma história real brasileira com uma estética e uma energia profundamente estadunidenses.
Desde a época da faculdade, sempre me chamou atenção como pitchings de curtas-metragens frequentemente evocavam, quase de imediato, algum filme internacional já consolidado, em especial produções norte-americanas. Existe um certo imaginário dominante quando se trata do cinema do anti-herói, e, mesmo em um país com tradição cultural tão rica quanto o Brasil, nosso olhar ainda tende a buscar paralelos externos. Em O Rei da Internet, essa sensação de déjà-vu não só aparece como se torna parte estrutural da experiência.
Logo na abertura, com uma montagem rápida, quase alucinante, que combina textos na tela, música pop e narração em off, o filme remete diretamente a O Lobo de Wall Street (2014, Martin Scorsese). A trajetória de Daniel, um jovem hacker de 17 anos que acumula milhões e mergulha em uma vida de excessos, reforça ainda mais esse paralelo, que também dialoga com Os Bons Companheiros (1990, Martin Scorsese). A lógica é a mesma: ascensão meteórica, glamourização do crime e uma queda inevitável.

João Guilherme em cena de “O Rei da Internet”- Divulgação Vitrine Filmes
Essa herança estética e narrativa se manifesta não apenas na estrutura, mas também nos excessos. O sentimento de “família do crime” convive com uma representação recorrente de nudez e erotismo, majoritariamente feminino, auxiliando como símbolo de poder e ostentação de Daniel. Ainda que exagerado, esse recurso dialoga com o universo que o filme tenta construir. Em contrapartida, é na edição dinâmica, por vezes cartunesca, que O Rei da Internet encontra sua identidade mais interessante.
No entanto, quando se afasta da estética e tenta expandir seu universo dramático, O Rei da Internet perde força. Personagens secundários, como o “Poderoso Chefão” vivido por Marcelo Serrado, ou os próprios pais de Daniel, são reduzidos a arquétipos pouco desenvolvidos, ou a única mulher do grupo que é disputada por Daniel e um outro membro. Funcionam como peças narrativas reconhecíveis, mas carecem de profundidade, o que limita o impacto emocional da história.
Essa previsibilidade se estende à estrutura narrativa. Mesmo sendo baseada em fatos reais, a jornada segue beats bastante conhecidos: a ascensão, o romance com a “garota certa”, a relação ambígua com figuras de autoridade e, por fim, a queda. O uso de um narrador não confiável adiciona um interessante tom cômico e metalinguístico, especialmente com os easter eggs que fazem referência a figuras reais sem nomeá-las diretamente. Ainda assim, isso não é suficiente para romper completamente com a sensação de familiaridade excessiva.

João Guilherme em cena de “O Rei da Internet”- Divulgação Manequim Filmes
Com 135 minutos, O Rei da Internet também sofre com sua duração. Há um evidente inchaço em sequências de ostentação e momentos musicais que pouco acrescentam além de reforçar a energia jovem do protagonista. A trilha pop, embora coerente com o tom, acaba funcionando mais como um recurso de estilo do que como elemento narrativo. Curiosamente, quando a produção aposta em música clássica, encontra momentos mais intrigantes, ainda que raros.
A atuação de João Guilherme sustenta o filme com segurança, garantindo carisma suficiente para conduzir o espectador mesmo diante das fragilidades do roteiro. Ainda assim, o que realmente prende a atenção são os excessos: luxo, perigo, velocidade e o constante questionamento, quase sedutor, sobre se o crime compensa.
No fim, assim como Jordan Belfort, Daniel atinge o auge antes de sua queda inevitável. O Rei da Internet é, acima de tudo, um filme que compreende bem o poder da estética e a utiliza com inteligência, inclusive transformando suas limitações narrativas em ferramenta estilística. O resultado é uma obra ágil, visualmente envolvente e sintomática: se tornando um dos filmes mais “estadunidenses” do cinema brasileiro recente, para o bem e para o mal.
Distribuído pela Vitrine Filmes, O Rei da Internet estreia nos cinemas em 14 de maio.
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