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Bárbara Lennie e Vicky Luengo em cena de "Natal Amargo"- Divulgação Warner Bros
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Natal Amargo’ – entre crise criativa, melodrama e autoficção

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 21 de maio de 2026
5 Min Leitura
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Bárbara Lennie e Vicky Luengo em cena de "Natal Amargo"- Divulgação Warner Bros
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Dirigido por Pedro Almodóvar, Natal Amargo reúne as marcas registradas do diretor espanhol em retrato com forte carga metalinguística.

Poucos diretores apresentam uma estética tão bem reconhecida quanto Pedro Almodóvar. Cores saturadas, diálogos afiados, melodrama novelesco, erotismo, personagens femininas complexas e, em sua cinematografia recente, uma forte carga metalinguística. Se Dor e Glória (2019, Pedro Almodóvar) colocava um diretor no centro da narrativa, aqui Almodóvar volta seu olhar para um roteirista em crise criativa, construindo uma história sobre memória, luto e criação artística.

A trama transita entre a relação de Raúl, um roteirista em crise, com sua ex-assistente Mônica, e a história que ele escreve em tempo real, centrada na juventude de Elsa e em seu relacionamento com Bonifácio. A produção alterna momentos de grande encanto e sensualidade, como a longa e divertida sequência de striptease de Bonifácio, com o melodrama característico do diretor espanhol. É justamente nessa mistura que o filme encontra sua maior força, mas também suas limitações.

Desde o início, compreendemos que acompanhamos uma narrativa incompleta. Nem mesmo Raúl sabe exatamente onde deseja chegar com sua história, e o filme utiliza essa indecisão como reflexo do próprio processo criativo. Nesse aspecto, existem ecos claros do cinema recente de Almodóvar: histórias usadas como ferramenta para expurgar traumas, inseguranças e memórias pessoais.

Patrick Criado em cena de "Natal Amargo"- Divulgação Warner Bros

Patrick Criado em cena de “Natal Amargo”- Divulgação Warner Bros

Visualmente, Natal Amargo apresenta um dos trabalhos mais belos da fase moderna do diretor. Cada plano é preenchido por vivacidade, paixão e melancolia. Sequências como a de Elsa e Patrícia chorando ao som de “La Llorona” sintetizam perfeitamente esse sentimento de vazio emocional que atravessa toda a obra. Além disso, as paisagens das Ilhas Canárias ajudam a reforçar o isolamento emocional das personagens, contribuindo para a atmosfera contemplativa do longa.

Porém, à medida que acompanhamos a história escrita por Raúl, os problemas estruturais começam a se tornar evidentes. Personagens surgem abruptamente, Bonifácio desaparece por grande parte da narrativa e diversas sequências transmitem a sensação de repetição. Embora o próprio filme posteriormente reconheça essas falhas em diálogos entre Raúl e Mônica, permanece a impressão de que certos problemas foram propositalmente inseridos apenas para serem comentados depois. A autoconsciência não elimina completamente o impacto desses tropeços narrativos.

O próprio título Natal Amargo carrega o principal arco simbólico da produção. Inicialmente, representa a obra escrita por Raúl, marcada por separações, crises de ansiedade e personagens tentando salvar os outros enquanto lidam com os próprios vazios emocionais. Aos poucos, percebemos como a ficção espelha diretamente a vida de seu autor e seus conflitos pessoais. Essa relação entre autor e personagem poderia ter sido explorada ainda mais profundamente, mas Almodóvar opta por um caminho mais contemplativo, poético e melodramático.

Bárbara Lennie e Milena Smit em cena de "Natal Amargo"- Divulgação Warner Bros

Bárbara Lennie e Milena Smit em cena de “Natal Amargo”- Divulgação Warner Bros

Curiosamente, o trailer vende uma experiência quase opressiva, próxima do terror psicológico. O filme, porém, abraça um tom muito mais novelesco. Ainda que a narrativa de Elsa demore para encontrar um propósito claro, a estética exuberante e a sensibilidade visual sustentam boa parte do interesse do espectador. Mesmo assim, fica a sensação de que Raúl deveria ocupar um espaço mais central dentro da própria história que cria.

Ao final, Natal Amargo se firma como um dos trabalhos mais interessantes da cinematografia recente de Almodóvar. Ainda distante da intensidade emocional de suas obras mais marcantes, o longa encontra força em sua estética impecável e em sua reflexão sobre criação artística, luto e memória. É um filme que prefere a contemplação à urgência narrativa, utilizando suas histórias e simbolismos como ferramentas de sobrevivência emocional.

Distribuído pela Warner Bros. Pictures, Natal Amargo estreia nos cinemas brasileiros em 28 de maio.

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Tags:CinemacríticaDestaque no ViventePedro Almodóvar
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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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