Dirigido por David Mackenzie, Golpe Explosivo é o típico filme de ação tradicional que provavelmente agradará aos seus avós
Existe um subgênero da ação que gosto de chamar carinhosamente de “filme de avô”. São produções feitas para desligarmos o cérebro e simplesmente acompanharmos a viagem: protagonistas masculinos e durões, somente uma personagem feminina, quando muito, explosões, perseguições de carro e uma narrativa mínima, apenas funcional o suficiente para impedir que tudo desande. Golpe Explosivo é a personificação exata dessa fórmula.
A produção se divide em duas narrativas aparentemente paralelas: de um lado, uma equipe do exército tenta desativar uma bomba da Segunda Guerra Mundial encontrada em um canteiro de obras; do outro, um grupo de ladrões aproveita a evacuação da área para executar um assalto a banco. O problema é que o roteiro constrói seu “grande mistério” de maneira tão evidente que o principal twist pode ser previsto logo nos primeiros minutos. Para o espectador mais atento, a dúvida deixa de ser o que acontecerá e passa a ser apenas quando acontecerá.
O protagonismo se reparte entre três figuras centrais: o militar estoico vivido por Aaron Taylor-Johnson, a investigadora interpretada por Gugu Mbatha-Raw e o líder dos criminosos vivido por Theo James. Nenhum deles, entretanto, recebe desenvolvimento suficiente para criar qualquer conexão emocional genuína. Falta passado, motivação e profundidade. O resultado é a sensação de acompanhar personagens vazios, correndo de um lado para o outro sem que realmente nos importemos com seus destinos.

Theo James em cena de “Golpe Explosivo”- Divulgação Diamond Pictures
Na transição do segundo para o terceiro ato, quando o roubo chega ao fim e as consequências começam a surgir, o filme tenta introduzir traições e reviravoltas. Ainda assim, tudo acontece sem a construção necessária para gerar impacto ou catarse. Nada soa orgânico. O cenário não é particularmente interessante, os personagens tampouco, e o ritmo força constantemente uma narrativa excessivamente convencional.
Talvez o momento mais inspirado da produção esteja no uso de Dies Irae, de Wolfgang Amadeus Mozart. É um raro instante de personalidade em meio a uma trilha sonora pouco memorável, especialmente após a escolha questionável da música presente na introdução, que, junto aos créditos iniciais, destoa completamente do tom que o filme tenta estabelecer.
Golpe Explosivo certamente encontrará público entre aqueles que procuram apenas uma sessão descompromissada de ação. O problema é que suas conveniências narrativas são tão exageradas que frequentemente subestimam a inteligência do espectador. Em vários momentos, o filme parece mais interessado em cumprir tabela do que em envolver quem está assistindo.

Gugu Mbatha-Raw em cena de “Golpe Explosivo”- Divulgação Diamond Pictures
Sem grandes arcos dramáticos, sem humor marcante e com um trailer que praticamente entrega toda a trama, a produção opta sempre pelo caminho mais seguro e previsível. Isso se agrava em um epílogo desnecessário, que parece pertencer a outro filme e apenas enfraquece ainda mais um encerramento que já havia terminado de forma apenas razoável.
No fim, Golpe Explosivo sofre justamente por não possuir nenhum elemento realmente memorável. Fotografia, direção, montagem, trilha sonora e roteiro permanecem em um nível tão burocrático que nada parece digno de destaque. Até temas clássicos do gênero, como a ideia de que “o crime não compensa” ou uma investigação policial mais incisiva, como visto em Os Suspeitos (1995, Bryan Singer), são deixados de lado, abrindo espaço apenas para um vazio narrativo que rapidamente domina a experiência.
Distribuído pela Diamond Films, Golpe Explosivo estreia nos cinemas brasileiros em 28 de maio.
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