Dirigido por Curry Barker, Obsessão transforma uma premissa simples em um terror agonizante e fisicamente desconfortável
Se andarmos pelo centro de São Paulo, veremos diversos cartazes com frases como “Trago seu amor de volta”, seguidas apenas de um número de telefone. Desde pequeno, toda vez que vejo algo assim, fico fascinado. Afinal, o quão absurdo, e assustador, seria se isso realmente funcionasse? Você liga para um número, faz um pagamento e, poucos dias depois, a pessoa que ama, ou acha que ama, importante fazer essa distinção, aparece na sua porta completamente apaixonada.
O relacionamento começa, mas logo percebemos que há algo errado. Não é ela. O que se inicia como uma fantasia romântica rapidamente se transforma em horror. Durante a faculdade de cinema, eu sempre quis desenvolver uma história baseada nessa premissa, mas depois de assistir a Obsessão, sinto que cheguei tarde demais, e parte de mim agradece por isso. Eu jamais conseguiria transformar essa ideia em algo tão chocante, visceral e desconfortável.
A premissa do filme é simples: um jovem romântico e idealista deseja que sua eterna paixão o ame acima de qualquer coisa. Rapidamente, o pedido é concedido da maneira mais clássica possível, como uma verdadeira “Pata do Macaco”. Mais do que apenas uma história de advertência sobre desejos egoístas, Obsessão constrói uma atmosfera sufocante, agonizante e fisicamente desconfortável do início ao fim.
A proporção de tela 3:2 imediatamente remete a um romance indie, mas os primeiros minutos deixam claro que estamos diante de algo muito diferente. Uma declaração de amor estranhamente artificial, um gato morto salivando no chão e um protagonista sozinho na escuridão observando fotos de sua paixão estabelecem o verdadeiro tom da obra. Não existe romance aqui, apenas estranheza. E é justamente essa incongruência que mantém o espectador em constante agonia.

Inde Navarrette em cena de “Obsessão”- Divulgação Universal
Então conhecemos Nikki.
Inde Navarrette entrega uma performance avassaladora, talvez até mais intensa do que Mia Goth em Pearl (2022, Ti West). Sabemos pouco sobre quem Nikki realmente é, e isso parece completamente intencional. A enxergamos sempre através do olhar de Bear, o protagonista, que a transforma em uma espécie de “Manic Pixie Dream Girl”: alguém bonita, perfeita, gentil e praticamente irreal.
No momento em que o desejo é realizado, Nikki, uma garota com quem Bear nunca sequer teve um encontro, torna-se completamente obcecada por ele. E o filme nunca tenta convencer o público de que isso poderia dar certo. Desde o início, Obsessão deixa claro que existe algo profundamente perturbador naquela relação.
A cinematografia trabalha constantemente com jogos de foco e desfoque em segundo plano, tons pastéis apagados e ambientes mergulhados em escuridão ou iluminados apenas por fontes fracas, artificiais e desagradáveis. Existe apenas um momento genuinamente acolhedor: uma breve montagem mostrando os melhores momentos do casal, pouco antes de tudo desmoronar.

Inde Navarrette e Michael Johnston em cena de “Obsessão”- Divulgação Universal
Conhecido por seus curtas e produções de terror no YouTube, Curry Barker encontra aqui espaço para explorar obsessão romântica, solidão masculina, desejo e até elementos ligados à cultura incel. Seria fácil para o filme se perder em meio a tantas ideias, mas o roteiro permanece surpreendentemente coeso. O horror surge menos de grandes sustos e mais de pequenos detalhes que criam um desconforto constante, como a sequência em que Bear acorda no meio da noite e encontra Nikki apenas observando-o, imóvel, na escuridão.
Conforme a narrativa avança, os gritos guturais de Inde Navarrette se misturam a olhares de dor extrema escondidos sob um sorriso artificial. A sensação é de que a verdadeira Nikki ainda existe dentro daquele corpo moldado exclusivamente pelo desejo de um homem solitário. A sensação é que Bear não queria amor. Ele queria Nikki. Sempre quis Nikki. E agora precisa lidar com o sonho que rapidamente virou um pesadelo.
Sem medo de ser grotesco, escatológico ou genuinamente angustiante, Obsessão exige estômago forte e mente aberta. A sensação de imprevisibilidade nunca desaparece. Bear não é tratado como um herói romântico ou um jovem apaixonado, mas como alguém incapaz de compreender os próprios desejos. Existe aqui uma aproximação interessante com Ruby Sparks – A Namorada Perfeita (2012, Jonathan Dayton, Valerie Faris), outro filme que transforma a fantasia masculina de controle amoroso em algo profundamente perturbador.

Inde Navarrette e Michael Johnston em cena de “Obsessão”- Divulgação Universal
O mais impressionante é que, apesar da tensão constante, o filme nunca parece arrastado. Pelo contrário: o desconforto é tão intenso que o tempo simplesmente desaparece. Quando percebemos, a situação já tomou proporções absurdas, em um cenário que poderia ter sido interrompido diversas vezes, mas que continua justamente porque os personagens insistem em ignorar o inevitável.
No fim, Obsessão deixa uma impressão curiosa: talvez seja o melhor e o pior filme possível para um primeiro encontro. O melhor porque, se um casal sobreviver a essa experiência, provavelmente consegue sobreviver a qualquer coisa. E o pior porque o filme nos lembra constantemente de algo desconfortável.
Em um mundo no qual as pessoas perderam a noção básica de socialização. Se existisse mesmo um “one wish willow”, ou se aqueles cartazes prometendo trazer amores de volta realmente funcionassem, o mundo estaria repleto de pessoas egoístas brincando com sentimentos, desejos e consequências que jamais seriam capazes de controlar.
Distribuído pela Universal Pictures, Obsessão estreia nos cinemas brasileiros em 14 de maio.
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