Dirigido por Emmanuel Poulain-Arnaud, Olhe o Mar entrega jornada simples e sensível sobre despedidas e reencontros, mas a sensação de que algo está faltando permanece constante
O conceito da viagem como forma de cura ou reconexão é antigo dentro das narrativas. Um novo cenário sempre proporciona novas interações e possibilidades para seus personagens. Quando penso em filmes que utilizam esse recurso, o primeiro que me vem à mente é Antes de Partir (2007, Rob Reiner), não apenas por sua qualidade, mas por ser uma obra que sempre me trouxe conforto e um calor especial no coração. Olhe o Mar também possui esse poder.
A premissa é simples. Após descobrir que seu filho, Milo, possui uma condição ocular que está gradualmente o deixando cego, Chris se reúne ao ex-marido, Antoine, para proporcionar uma última viagem em família antes que a perda da visão se torne definitiva. Rapidamente somos apresentados a esse cenário e às belezas naturais de Hossegor, uma das praias mais tradicionais da França, além de dinâmicas e comportamentos que, embora não sejam exclusivos da produção, são essenciais para uma história com essa proposta.
Há o avô que reencontra um propósito para superar o luto ao testemunhar a força do neto; os pais divorciados que deixam suas diferenças de lado em prol de um objetivo maior; a experiência do primeiro amor; o surfe como um exemplo de liberade e tantos outros acontecimentos cotidianos que ganham força graças à cuidadosa fotografia de Nicolas Gaurin. O diretor de fotografia sabe valorizar a imensidão das praias e a presença constante do mar, transformando a paisagem em um elemento fundamental da narrativa.

Dany Boon e Nicolas Marié em cena de “Olhe o Mar”- Divulgação Autoral Filmes
Olhe o Mar se estende por pouco menos de 90 minutos e, embora a jornada de Milo seja o eixo central da trama, o roteiro também busca desenvolver os arcos de Chris, Antoine e Papichou, o avô do garoto. O problema surge quando essas trajetórias paralelas se mostram frágeis em comparação à do protagonista, como se determinadas situações fossem inseridas apenas para prolongar a duração do filme ou provocar emoção sem o devido desenvolvimento.
O exemplo mais evidente é a história envolvendo Antoine e Isabelle. Desde as primeiras cenas, compreendemos que Chris leva uma vida marcada por relações superficiais e diretas, enquanto Antoine está envolvido em um novo relacionamento. Isabelle, por sua vez, tem como principal característica seu excesso de cuidado e entusiasmo. No entanto, a forma como a personagem é tratada pelo roteiro é questionável.
A narrativa tenta colocar Isabelle sob uma luz negativa, mesmo sem que ela tenha feito algo realmente condenável. Em contrapartida, Antoine e Chris, cujas atitudes são muito mais discutíveis, recebem um tratamento significativamente mais complacente. Quando o conflito finalmente encontra uma resolução, tudo acontece de maneira excessivamente simples e sem a catarse necessária para justificar o investimento emocional da trama.

Audrey Fleurot em cena de “Olhe o Mar”- Divulgação Autoral Filmes
Apesar desse ocasional desvio de foco, a sensação predominante ao final da sessão é a de conforto. Quando Milo e Nina conversam deitados na cama e ele, em vez de fechar os olhos, a observa atentamente, somos remetidos à delicadeza do primeiro amor. Quando Papichou finalmente admite a dor do luto que carregava em silêncio, o momento é genuinamente emocionante. E quando a família grita para libertar suas dores e frustrações, é difícil não sentir vontade de fazer o mesmo.
Olhe o Mar é eficiente ao construir uma experiência acolhedora e emocionalmente sincera. No entanto, sua maior limitação talvez seja seguir à risca demais o manual das histórias de redescoberta pessoal. Ao optar pelo caminho mais seguro, o filme se torna menos memorável do que poderia ser, resultando em competente filme de conforto, quando havia potencial para algo muito maior.
Distribuído pela Autoral Filmes, Olhe o Mar chega aos cinemas brasileiros em 4 de junho.
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