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Encontro da SAF com o Pedrinho novo presidente do Club de Regatas Vasco da Gama em 12 de Novembro de 2023. Foto: Matheus Lima/Vasco.
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Nova Lei das SAFs muda o futebol brasileiro e pode influenciar futuro do Vasco

Atualização da legislação amplia exigências de transparência, fortalece a proteção da identidade dos clubes e abre novas possibilidades de investimento; no Vasco, discussões sobre a venda da SAF colocam o tema no centro do debate esportivo

Por Alvaro Tallarico
Última Atualização 11 de junho de 2026
10 Min Leitura
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Foto: Matheus Lima/Vasco.
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Cinco anos após a criação das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs), o modelo que prometia revolucionar a gestão dos clubes brasileiros entra em uma nova fase. Sancionada recentemente, a Lei nº 15.427/2026 atualiza as regras das SAFs, amplia exigências de governança, fortalece mecanismos de transparência e estabelece novas diretrizes voltadas à responsabilidade social e à preservação da identidade histórica dos clubes.

As mudanças chegam em um momento emblemático. Se, de um lado, o futebol brasileiro busca consolidar um ambiente mais seguro para investidores, do outro, clubes como o Vasco da Gama vivem um período de expectativa, rumores e intensos debates sobre o futuro de suas estruturas societárias.

Para Victor Amado, advogado especializado em Direito Desportivo e ex-presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB-GO, a nova legislação representa um amadurecimento natural do modelo implantado em 2021.

“Mais do que uma simples atualização normativa, a lei consolida uma nova etapa na profissionalização do futebol brasileiro ao combinar proteção institucional, transparência, responsabilidade social e segurança para investidores”, afirma.

Mais transparência e fiscalização

Entre as principais mudanças está o reforço das práticas de governança corporativa. A partir de agora, as SAFs passam a adotar mecanismos semelhantes aos exigidos de companhias abertas, incluindo a presença obrigatória de conselheiros independentes.

Segundo Victor Amado, a medida busca reduzir conflitos de interesse e aumentar a fiscalização sobre a atuação dos gestores.

“Agora as empresas passam a seguir regras semelhantes às adotadas por companhias de capital aberto. A ideia é fortalecer os mecanismos de fiscalização interna e evitar conflitos de interesse que possam prejudicar sócios minoritários ou comprometer a sustentabilidade do negócio”, explica.

Outra inovação relevante diz respeito à obrigatoriedade de divulgação dos beneficiários finais das sociedades. Na prática, isso significa que investidores precisarão deixar clara a estrutura de controle das empresas envolvidas nas operações.

“As SAFs deverão divulgar seus beneficiários finais, impedindo a utilização de estruturas complexas destinadas a ocultar quem efetivamente exerce o controle da empresa”, observa o especialista.

Futebol feminino ganha espaço

A nova legislação também amplia o alcance do modelo SAF ao permitir que projetos ligados ao futebol feminino e às ligas de clubes possam se estruturar formalmente nesse formato societário.

A expectativa é que a medida ajude a atrair novos investimentos para modalidades que vêm ampliando sua relevância esportiva e comercial.

“O futebol feminino vem conquistando espaço entre os torcedores e ampliando seu potencial para captar patrocínios e ganhar visibilidade. Agora os clubes poderão captar recursos de forma mais eficiente e desenvolver projetos de longo prazo voltados à profissionalização”, destaca Victor Amado.

A proteção da identidade dos clubes

Uma das maiores preocupações dos torcedores sempre esteve relacionada ao risco de descaracterização dos clubes após a entrada de investidores privados.

A nova lei procura responder a esse temor ao assegurar que as chamadas ações de Classe A permaneçam sob controle das associações civis originais.

Vasco x Fluminense pelo jogo de volta da Semifinal da Copa do Brasil realizado no Estádio do Maracanã em 14 de Dezembro de 2025. Fotos: Matheus Lima/Vasco.
Vasco da Gama x Fluminense pelo jogo de volta da Semifinal da Copa do Brasil realizado no Estádio do Maracanã em 14 de Dezembro de 2025. Fotos: Matheus Lima/Vasco.

Isso garante poder de veto sobre mudanças envolvendo nome, escudo, cores e sede.

“São poderes que passaram a ser intransferíveis em qualquer circunstância. Essa medida busca evitar que processos de venda ou reestruturação resultem na descaracterização de instituições que têm relevância histórica e social para suas comunidades”, afirma o advogado.

O Vasco no centro das atenções

Se há um clube que simboliza os desafios e as complexidades do modelo SAF no Brasil, esse clube é o Vasco da Gama.

Nos últimos meses, o cruz-maltino voltou ao centro das discussões envolvendo investidores, reestruturação financeira e perspectivas para o futuro da SAF.

Enquanto parte dos influenciadores e setores ligados ao clube apontam que uma venda estaria próxima de acontecer, informações oficiais permanecem escassas, alimentando dúvidas entre os torcedores.

A situação gera um paradoxo curioso. Ao mesmo tempo em que surgem especulações sobre uma negociação bilionária envolvendo a SAF vascaína, o clube segue adotando uma postura considerada conservadora no mercado de transferências, com consultas relacionadas a atletas de menor investimento.

nike vasco
divulgação/Nike

Para muitos torcedores, a aparente falta de sintonia entre o discurso otimista e os movimentos práticos aumenta a sensação de incerteza.

Investimentos e perspectivas

Apesar das dúvidas envolvendo a venda da SAF, o Vasco tem anunciado avanços importantes em diferentes frentes.

Entre os movimentos recentes estão a formalização de projetos via leis de incentivo com apoio do empresário Marcos Lamacchia, estimados em cerca de R$ 15 milhões, a expansão do Centro de Treinamento com aquisição de novos terrenos e investimentos previstos na ordem de R$ 150 milhões, além da implantação de um elevador panorâmico na sede da Lagoa.

As iniciativas sinalizam uma tentativa de modernização da infraestrutura do clube, independentemente da definição sobre o futuro societário.

Ao mesmo tempo, especulações de mercado apontam que uma eventual negociação envolvendo a SAF poderia alcançar cifras bilionárias, refletindo o potencial econômico associado à marca Vasco.

O que diz o estatuto do Vasco

Em meio aos rumores, uma discussão jurídica ganhou destaque entre sócios e torcedores: afinal, uma eventual venda do controle da SAF poderia ocorrer sem passar pelo Conselho Deliberativo?

A interpretação predominante aponta que não.

De acordo com dispositivos previstos no estatuto do clube, especialmente os artigos 136 e 137, operações que envolvam transferência de controle exigiriam pareceres dos Conselhos de Beneméritos e Fiscal, além de aprovação do Conselho Deliberativo com quórum qualificado.

A exigência incluiria análises relacionadas à capacidade financeira, reputação e integridade do potencial investidor.

Por outro lado, o artigo 138 estabelece uma alternativa importante: caso o Conselho Deliberativo rejeite a proposta ou deixe de deliberar após tentativas sucessivas, a Diretoria poderá convocar uma Assembleia Geral Extraordinária para que os sócios decidam sobre o tema.

Nesse cenário, a aprovação dependeria de maioria simples entre os presentes.

Judicialização como fator de risco

Outro elemento que contribui para o ambiente de incerteza envolve disputas judiciais relacionadas à SAF.

Questões envolvendo a empresa Matix, que obteve decisões judiciais relacionadas à negociação de participações societárias, demonstram como conflitos jurídicos podem afetar a previsibilidade dos processos.

Embora acusações divulgadas recentemente envolvendo a empresa e outros agentes do mercado esportivo ainda dependam de esclarecimentos e eventual apuração pelas autoridades competentes, o episódio reforça um dos principais objetivos da nova legislação: ampliar a segurança jurídica para investidores e instituições.

Além das mudanças relacionadas à governança, a nova lei estabelece que as SAFs deverão implementar programas voltados à educação e à inclusão social para permanecerem enquadradas no Regime Tributário Específico do Futebol.

Para Victor Amado, a medida reforça o papel social exercido pelos clubes.

“A nova legislação deixa claro que os incentivos fiscais concedidos devem ser acompanhados de benefícios concretos para a sociedade. O futebol vai além da geração de receitas e do entretenimento. Também assume um papel relevante na promoção de oportunidades, cidadania e transformação social”, afirma.

Um novo capítulo para o futebol brasileiro

A atualização das regras das SAFs evidencia que o futebol brasileiro vive um processo contínuo de transformação.

Vasco da Gama x Cruzeiro Fotos Matheus Lima Vasco
Fotos: Matheus Lima/Vasco.

Se os primeiros anos foram marcados pela busca por investidores e pela necessidade de reorganização financeira, o momento atual aponta para um estágio de maior sofisticação regulatória.

Ao combinar transparência, proteção institucional, responsabilidade social e mecanismos de controle, a nova legislação tenta equilibrar interesses econômicos e preservar o patrimônio histórico e afetivo representado pelos clubes.

No caso do Vasco, a discussão sobre uma eventual venda da SAF expõe os desafios dessa nova realidade: conciliar urgências financeiras, expectativas esportivas, exigências legais e a participação ativa de uma torcida que acompanha cada movimento com atenção.

Mais do que definir o futuro de uma única instituição, o debate em torno das SAFs ajuda a desenhar os próximos capítulos do futebol brasileiro — um esporte que movimenta bilhões, mas que continua sendo, acima de tudo, uma expressão da identidade e da paixão de milhões de pessoas.

“Está fora”: Vasco inicia limpa no elenco e já tem primeiras saídas definidas

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PorAlvaro Tallarico
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Jornalista especializado em Jornalismo Cultural pela UERJ.

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