Em tempos onde grandes marcas investem milhões para associar suas imagens à Copa do Mundo, uma pequena rua da Tijuca vem chamando atenção justamente pelo caminho oposto. Sem patrocínio, sem estrutura profissional e movida apenas pela força da comunidade, a pintura realizada no fim da Rua Doutor Aníbal Moreira, na esquina com a Rua Carvalho Alvim, em frente à Pedreira, resgatou uma das tradições mais afetivas do futebol brasileiro: colorir as ruas para torcer pela Seleção.
A iniciativa reuniu crianças, adolescentes, adultos e idosos em uma verdadeira força-tarefa comunitária. Munidos de tintas, pincéis e muita criatividade, os moradores transformaram o asfalto em uma galeria a céu aberto que celebra não apenas a paixão nacional pelo futebol, mas também a identidade do próprio bairro.
Uma das pinturas presta homenagem a Mario Jorge Lobo Zagallo, único tetracampeão mundial como jogador e treinador e figura eternamente ligada à história da Seleção Brasileira. Outra obra destaca símbolos e referências da Tijuca, reforçando o orgulho dos moradores pela região.

O cenário ganhou ainda mais significado pelo local onde foi realizado. A área é cada vez mais conhecida pelos praticantes de escalada esportiva, atraídos pelas várias vias existentes na Pedreira da Tijuca. Além disso, o espaço também vem sendo utilizado para cursos e treinamentos da Defesa Civil, consolidando-se como um importante ponto de encontro voltado ao esporte e à capacitação.
Agora, durante a Copa do Mundo, o endereço ganhou uma nova vocação: a de palco para encontros entre vizinhos e visitantes interessados em registrar as pinturas e conhecer a história por trás da mobilização coletiva.
A iniciativa reforça uma tradição que, ao longo das décadas, marcou a paisagem urbana do Rio de Janeiro. Muito antes das redes sociais e das ativações de marca, eram os próprios moradores que transformavam ruas e vielas em espaços de celebração, fortalecendo vínculos comunitários e criando memórias que atravessavam gerações.

Da Tijuca para Ipanema: diferentes formas de viver a Copa
Enquanto a Tijuca preserva o espírito espontâneo das antigas Copas, outro ponto da cidade decidiu resgatar essa tradição por meio de uma ação inédita. Pela primeira vez, a Rua Garcia d’Ávila, em Ipanema, recebeu pinturas temáticas em seu asfalto durante o Mundial de 2026.
Idealizado pela Panô Resortwear, em parceria com a Associação Comercial da Rua Garcia d’Ávila, o projeto reuniu artistas visuais para criar intervenções inspiradas no futebol, na cultura brasileira e na atmosfera carioca.
As obras foram produzidas na madrugada entre os dias 11 e 12 de junho pelos artistas Yuri Martins, Rodrigo DGO, Julia Pina e MC Ilustrada, transformando um dos endereços mais sofisticados da cidade em uma galeria urbana temporária.

“Pintar as ruas durante a Copa sempre fez parte da memória afetiva dos brasileiros. É uma tradição que une vizinhos, cria pertencimento e celebra nossa identidade de forma espontânea. Com esse projeto, quisemos resgatar esse espírito e levá-lo para um dos endereços mais simbólicos do Rio”, afirmou Tainah Lopes, diretora criativa da Panô Resortwear.
Apesar das diferenças entre as duas iniciativas, uma nascida do engajamento espontâneo dos moradores e outra estruturada a partir da união entre artistas, comerciantes e apoiadores culturais, ambas demonstram que o futebol continua sendo uma poderosa ferramenta de ocupação afetiva dos espaços urbanos.
Na Tijuca, o protagonismo é da comunidade. Em Ipanema, da arte contemporânea aplicada ao espaço público. Em comum, permanece a tentativa de manter viva uma tradição genuinamente brasileira: a de transformar as ruas em extensão da torcida.
Em uma Copa marcada pela tecnologia, pelas transmissões digitais e pelas experiências imersivas, as pinturas espalhadas pelo Rio lembram que a essência da festa ainda está nos encontros presenciais, no trabalho coletivo e na capacidade de a cidade reinventar suas próprias formas de celebrar o futebol.
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