Mais de dois séculos depois de sua publicação, Frankenstein ou o Prometeu Moderno continua despertando reflexões sobre os limites da ciência e da criação humana. Agora, em um mundo marcado pelo avanço acelerado da Inteligência Artificial, o romance de Mary Shelley ganha uma nova leitura no espetáculo “Frankenstein de Mary Shelley”, que estreia no dia 6 de agosto, no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB RJ).
A montagem marca os 15 anos do Grupo Liquidificador, coletivo teatral de Brasília reconhecido por desenvolver pesquisas cênicas voltadas para questões contemporâneas. Após temporada de sucesso na capital federal, o espetáculo chega ao Rio propondo uma aproximação entre o clássico publicado em 1818 e dilemas que atravessam o século XXI, como o desenvolvimento das inteligências artificiais, a responsabilidade ética diante da tecnologia e os limites da criação humana.
Em cartaz até 30 de agosto, sempre de quinta a sábado, às 19h, e domingos, às 18h, a peça é dirigida por Fernanda Alpino, com dramaturgia de Fernando de Carvalho, e busca recuperar a essência filosófica da obra original, muitas vezes obscurecida pelas adaptações cinematográficas que transformaram Frankenstein em um dos maiores ícones da cultura pop.
Em vez de apenas recontar a história do cientista Victor Frankenstein e do ser que criou, a encenação coloca a própria Mary Shelley no centro da narrativa.
Interpretada pelas atrizes Ana Quintas e Larissa Souza, que alternam papéis e embaralham constantemente as fronteiras entre criadora e criatura, a autora inglesa surge como personagem de sua própria obra, sendo confrontada por seu mais famoso “filho”.
A dramaturgia parte de dois mitos paralelos: o da criatura construída a partir de fragmentos de corpos e o da jovem escritora que, aos 18 anos, revolucionou a literatura ao criar aquele que muitos consideram o primeiro romance de ficção científica da história.
Nesse encontro imaginário entre autora e criatura, o espetáculo discute como cada época reinterpretou Frankenstein, questionando também o processo de apropriação da obra ao longo de mais de duzentos anos.
Se no romance original Mary Shelley refletia sobre os impactos do desenvolvimento científico durante a Revolução Industrial, a montagem atualiza esse debate para uma sociedade cada vez mais dependente de algoritmos, plataformas digitais e Inteligência Artificial.
Na peça, Mary Shelley viaja no tempo para enfrentar uma nova ameaça: uma espécie de seita dedicada ao “Prometheísmo”, metáfora que aproxima o mito grego da atual corrida tecnológica.
Ao longo da narrativa, a Criatura passa a defender sua própria existência diante da ascensão das máquinas, afirmando possuir aquilo que nenhuma inteligência artificial pode reproduzir plenamente: corpo, memória, afetos, solidão e experiência humana.
Segundo a diretora Fernanda Alpino, a proposta não é demonizar a tecnologia, mas provocar uma reflexão sobre a crescente transferência de decisões, relações e experiências humanas para sistemas automatizados.
Ao aproximar o romance do universo contemporâneo, o espetáculo evidencia como questões levantadas por Mary Shelley em 1818 permanecem surpreendentemente atuais, especialmente diante da expansão das inteligências artificiais generativas.
Visualmente, o espetáculo evita o realismo e aposta em uma linguagem híbrida.
A combinação entre trilha sonora original, iluminação, cenografia e construção sonora transforma o palco em um grande laboratório ficcional, onde convivem elementos de horror, comédia, palestra performática, aventura e ficção científica.
Em vez de reproduzir o imaginário clássico associado aos filmes de Frankenstein, a encenação propõe um diálogo com o teatro contemporâneo, utilizando diferentes linguagens para aproximar o público da obra original e de seus conflitos filosóficos.
Ao mesmo tempo, brinca com o fato de que a figura de Frankenstein está presente em praticamente toda a cultura popular — dos filmes de terror aos quadrinhos, do Halloween às revistas da Turma da Mônica — enquanto a trajetória da autora permanece pouco conhecida pelo grande público.
Além das apresentações, o Grupo Liquidificador promoverá no CCBB a residência artística gratuita “Monstros Generativos”, voltada a artistas interessados em processos de criação contemporânea.
Conduzida por Fernanda Alpino e Fernando de Carvalho, a atividade utiliza o processo criativo do espetáculo como ponto de partida para investigar temas como Inteligência Artificial, identidade, autoria, ética e a relação entre criador e criatura.
Serão seis encontros, realizados entre os dias 17 e 26 de agosto, culminando em uma apresentação pública desenvolvida pelos participantes no Teatro III do CCBB.
A proposta amplia o debate iniciado no espetáculo, permitindo que artistas experimentem diferentes procedimentos dramatúrgicos e performáticos relacionados às transformações tecnológicas que atravessam o fazer artístico contemporâneo.
Agosto reúne clássicos, cultura popular e grandes exposições no CCBB Rio
A estreia de Frankenstein de Mary Shelley integra uma programação intensa preparada pelo CCBB Rio para o mês de agosto.
No Teatro II, a Armazém Companhia de Teatro apresenta uma nova leitura de “A Gaivota”, clássico de Anton Tchekhov, explorando os conflitos entre tradição e renovação artística.
Já o Teatro I segue recebendo “Tudo Preto: uma re_vista”, espetáculo que revisita a primeira montagem da histórica Companhia Negra de Revistas, celebrando o centenário da produção original.
Entre os destaques da programação também estão a volta da tradicional Feira das Yabás, no dia 15 de agosto, reunindo gastronomia e samba comandado por Marquinhos de Oswaldo Cruz; o Clube de Leitura CCBB, que recebe a escritora angolana Djaimilia Pereira de Almeida; a celebração do Dia Nacional do Folclore com a Companhia Folclórica do Rio (UFRJ); além da prorrogação da exposição “Vik Muniz – A Olho Nu”, que permanece em cartaz até outubro após ultrapassar a marca de 200 mil visitantes.
Com isso, o CCBB reafirma sua vocação como um dos principais centros culturais do país, reunindo em um mesmo mês teatro, literatura, música, cinema, artes visuais e manifestações da cultura popular.
Serviço – Frankenstein de Mary Shelley
Local: Teatro III – Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro
Endereço: Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – Rio de Janeiro
Temporada: 6 a 30 de agosto de 2026
Dias e horários: Quinta a sábado, às 19h; domingos, às 18h
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação: 14 anos
Duração: 100 minutos
Residência Artística “Monstros Generativos”
Local: Sala de Ensaio do CCBB RJ
Datas: 17, 18, 19, 24, 25 e 26 de agosto
Horário: das 15h às 19h
Encerramento: apresentação pública no Teatro III, em 26 de agosto, às 19h
Participação: gratuita, voltada a artistas interessados em criação cênica contemporânea.
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