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Carolina Dieckmmann e Caco Ciocler em cena de 'Pequenas Criaturas'- Divulgação Filmes do Estação
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Pequenas Criaturas’ é sinfonia da solidão com encerramento de amor

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 13 de julho de 2026
8 Min Leitura
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Carolina Dieckmmann e Caco Ciocler em cena de 'Pequenas Criaturas'- Divulgação Filmes do Estação
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Dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, Pequenas Criaturas enfatiza a força de uma boa narrativa dramática quando existe cuidado e amor envolvidos.

A primeira vez que assisti a Pequenas Criaturas foi em uma cabine de imprensa durante a última edição do Festival do Rio. Entrei sem grandes expectativas, imaginando assistir a mais um drama convencional. No entanto, a produção rapidamente me conquistou por sua sutileza, poesia e pela forma como retrata a solidão sem jamais tentar ser maior do que realmente é: uma crônica delicada sobre uma família em crise.

Dentro dessa escala intimista, em uma Brasília de 1986 que realmente parece uma cidade alienígena, Pequenas Criaturas não demonstra pressa ao longo de seus 100 minutos. Anne Pinheiro Guimarães permite que a narrativa respire, contemplando cenários vazios e personagens que parecem minúsculos diante da arquitetura monumental da capital. Eles são pequenas criaturas diante da cidade, que por sua vez é pequena diante do país, que também é insignificante perante a imensidão do universo.

Ao revê-lo esta semana, com a cabeça mais fresca e muitas críticas escritas desde aquela sessão em outubro, o filme cresceu em praticamente todos os aspectos. Mais do que isso, permitiu que eu percebesse com ainda mais clareza o eixo que sustenta toda a narrativa: a solidão.

Carolina Dieckmmann em cena de 'Pequenas Criaturas'- Divulgação Festival do Rio

Carolina Dieckmmann em cena de ‘Pequenas Criaturas’- Divulgação Festival do Rio

Embora acompanhe principalmente Helena, André e o pequeno Dudu, o filme nunca limita esse sentimento aos protagonistas. Todos os habitantes daquele Distrito Federal vazio parecem carregar algum tipo de isolamento ou vazio existencial. Ao longo de poucos dias, essas pessoas encontram afeto onde menos esperam, e é justamente a maneira como Anne Pinheiro Guimarães constrói essas conexões que reside a maior força da obra.

Antes de tudo, Brasília pode ser vista como a verdadeira protagonista do filme. Seu céu com um sol cinza e frio contrasta diretamente com o concreto rígido e sem vida que domina a cidade e, consequentemente, a existência daqueles personagens. Não por acaso, os insetos aparecem constantemente ao longo da narrativa. Em meio a uma capital futurista, um garoto fascinado pelo espaço e por Planeta dos Macacos, essas pequenas criaturas assumem contornos de alienígenas ou seres fantásticos, reforçando a ideia de quão diminutos realmente somos.

Há também uma grande quantidade de personagens secundários. De Milton, o velho solitário que mora no mesmo prédio, a Angela, a vizinha expansiva que compreende a dor de Helena. Em determinados momentos, o roteiro até se alonga além do necessário, especialmente em diálogos quase Tarantinescos que inicialmente parecem não conduzir a lugar algum. No entanto, é justamente nesses desvios que o filme encontra sua essência.

Pequenas Criaturas se afunda em simbolismos diversos: a constante referência ao irmão falecido do amigo de André amplia ainda mais o papel de Dudu como elo entre o presente e aquilo que já se foi. Helena, por sua vez, insiste em salvar uma cachorra encontrada na rua, numa metáfora delicada para tudo aquilo que ela já perdeu e não consegue mais segurar, precisando enfim deixar partir. O fascínio pelo espaço e pelo desconhecido, inserido naquela Brasília futurista e deserta, fortalece ainda mais a fala de André: “Se este for o futuro, o futuro é uma merda.”

Cena de 'Pequenas Criaturas'- Divulgação Filmes do Estação

Cena de ‘Pequenas Criaturas’- Divulgação Filmes do Estação

Existe uma diferença profunda entre estar sozinho e sentir-se sozinho. Helena tem filhos, uma amiga e um marido emocionalmente distante, mas ainda assim experimenta uma solidão devastadora. É justamente nos momentos de silêncio e contemplação que a personagem revela toda a sua potência. Apenas ao lado de Carlos, interpretado por Caco Ciocler, ela encontra uma breve sensação de paz, mesmo sabendo que aquele encontro é apenas passageiro.

Pequenas Criaturas é um filme que exige uma mente aberta e um coração disposto a sentir. No instante em que passamos a enxergar segundas intenções ou maldade nas pequenas atitudes de seus personagens, perdemos toda a delicadeza que sustenta a obra. É justamente aí que reside sua maior virtude, e também sua maior limitação.

Como a narrativa se organiza em torno de encontros, pequenos gestos e interações, sem buscar um clímax convencional, parte do público pode enxergar essas sequências como episódios isolados. Dentro da proposta do cinema de arte, porém, Anne Pinheiro Guimarães oferece ao espectador exatamente aquilo de que seus personagens mais precisam: tempo.

Inicialmente, sentimos a mesma insignificância que domina aqueles personagens. Os enquadramentos reforçam constantemente essa percepção, colocando-os sob enormes porções de céu ou reduzidos a pequenos pontos diante da arquitetura e da paisagem. Até mesmo a trilha sonora evita protagonismo, funcionando como um complemento sutil para essa sensação de pequenez.

Carolina Dieckmmann e Letícia Sabatella em cena de 'Pequenas Criaturas'- Divulgação Filmes do Estação

Carolina Dieckmmann e Letícia Sabatella em cena de ‘Pequenas Criaturas’- Divulgação Filmes do Estação

À medida que os personagens se aproximam e evoluem: Helena encontra acolhimento, André atravessa os inevitáveis ritos da adolescência e Dudu se transforma na chave para uma despedida lúdica do apego e do crescimento, o espectador também encontra conforto.

Se observarmos atentamente, os arcos dramáticos estão presentes. Mas Pequenas Criaturas nunca parece preocupado em evidenciá-los. Seu verdadeiro interesse está em celebrar o encontro, o afeto e a importância de sermos vistos e ouvidos. É uma ode ao carinho e à conexão humana, lembrando que são justamente esses pequenos gestos que sustentam nossa existência.

Ao final, quando surge a reflexão de que Brasília talvez não seja perfeita, mas aprendemos a amá-la, o filme amplia seu significado. A cidade deixa de ser apenas um cenário para se tornar uma metáfora da própria vida: o presente nunca será perfeito, mas, através dos afetos, das reconstruções e das pessoas que cruzam nosso caminho, aprendemos a seguir em frente.

Talvez nunca deixemos completamente de nos sentir sozinhos, mas seguimos buscando carinho, acolhimento e pequenos encontros que nos deem força para viver o dia seguinte de cabeça erguida, e é neste terreno que Pequenas Criaturas encontra um pequeno espaço para chamar de seu.

Distribuído pela Filmes do Estação, Pequenas Criaturas estreia nos cinemas em 23 de julho.

Veja também a primeira crítica da produção datada de Outubro de 2015: Crítica Festival do Rio: ‘Pequenas Criaturas’ retrata solidão e afetos na Brasília dos anos 1980

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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