Quarteto carioca transforma o repertório de um dos maiores compositores brasileiros em um exercício de escuta, pesquisa e renovação artística
Poucos compositores da música brasileira possuem uma obra tão revisitada quanto a de Chico Buarque. Ainda assim, encontrar um novo caminho para canções que atravessaram gerações é um desafio raro. É justamente essa proposta que move os Escafandristas, quarteto carioca que lança seu primeiro álbum dedicado integralmente ao compositor e apresenta o trabalho nos dias 31 de julho e 1º de agosto, na Acaso Cultural, em Botafogo.
Formado por Alice Passos, Luisa Lacerda, Renato Frazão e Thiago Amud, o grupo não pretende reproduzir versões consagradas. Em vez disso, mergulha profundamente na arquitetura musical de Chico para revelar nuances pouco exploradas por meio de novos arranjos vocais e instrumentais. A proposta rapidamente chamou atenção do público e do próprio homenageado, que aprovou o projeto após uma apresentação privada para ele e sua família.
Um mergulho na obra de Chico
O nome Escafandristas não foi escolhido por acaso. Ele nasce de um dos versos de “Futuros Amantes”, canção lançada por Chico Buarque em 1993:
“…os escafandristas virão explorar sua casa…”
A metáfora sintetiza perfeitamente a identidade do grupo. Assim como os mergulhadores que exploram ruínas submersas, os quatro músicos revisitam uma obra que parece inesgotável, buscando significados escondidos em harmonias, letras e melodias que fazem parte da memória afetiva do Brasil.
De homenagem a projeto autoral
Os Escafandristas surgiram em 2024, durante as comemorações pelos 80 anos de Chico Buarque. O que seria inicialmente uma série de apresentações rapidamente ganhou outra dimensão.
A estreia, realizada na Casa do Choro, no Rio de Janeiro, teve sessões esgotadas. A repercussão levou o quarteto a realizar uma audição especial para Chico Buarque, que recebeu o projeto com entusiasmo. A partir desse encontro, nasceu a ideia de registrar o trabalho em estúdio.
O resultado é um álbum de 15 faixas gravado pela Biscoito Fino, reunindo clássicos conhecidos e canções menos populares do compositor. Entre os convidados estão o próprio Chico Buarque, que participa de “A Volta do Malandro”, o cineasta Ruy Guerra e um coro formado por filhas, irmãs e netas do compositor, aproximando ainda mais o projeto do universo familiar e afetivo de sua obra.
Um tributo que prefere interpretar a imitar
Tributos musicais frequentemente apostam na nostalgia e na fidelidade às gravações originais. Os Escafandristas seguem um caminho diferente.
A formação enxuta — violões, baixo, flauta, vozes e pequenas intervenções percussivas — cria espaço para que os arranjos revelem novas texturas sem descaracterizar as composições. Canções emblemáticas como “Construção”, “Cotidiano” e “Futuros Amantes” convivem com obras menos lembradas pelo grande público, como “Frevodiabo”, “Morro Dois Irmãos”, “A Ostra e o Vento” e “Assentamento”.
Mais do que atualizar o repertório, o grupo propõe uma escuta contemporânea de Chico Buarque, evidenciando a permanência de temas como desigualdade, memória, identidade, amor e transformação social.
Por que esse projeto importa?
Em um momento em que parte da indústria musical privilegia lançamentos rápidos e consumo imediato, iniciativas como a dos Escafandristas reforçam o valor da pesquisa artística.
Ao invés de tratar a obra de Chico Buarque como um patrimônio intocável, o quarteto demonstra que grandes composições permanecem vivas justamente porque permitem novas leituras. A aprovação do próprio compositor reforça essa ideia: preservar não significa repetir, mas criar novos diálogos entre diferentes gerações de artistas e ouvintes.
Serviço – Escafandristas cantam Buarque
Datas: 31 de julho e 1º de agosto de 2026
Horário: 20h
Local: Acaso Cultural – Rua Vicente de Sousa, 16 – Botafogo, Rio de Janeiro
Ingressos: a partir de R$ 55 (Sympla)
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