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Literatura e HQCiência e Educação

“Os algoritmos controlam sua atenção”, diz Ronaldo Lemos durante Rio Innovation Week

Pesquisador, um dos idealizadores do Marco Civil da Internet, afirma que brasileiros passam mais de nove horas por dia no celular e alerta para os impactos da economia da atenção sobre corpo, mente e emoções

Por Alvaro Tallarico
Última Atualização 4 de agosto de 2026
10 Min Leitura
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foto: Alvaro Tallarico
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O advogado, pesquisador e professor Ronaldo Lemos abriu a programação da Plenária RIW, principal palco do Rio Innovation Week 2026, nesta terça-feira (4), com o lançamento do livro O monge, o iogue e o faquir: corpo, coração e mente no tempo das máquinas. Conhecido por ser um dos idealizadores do Marco Civil da Internet, Lemos apresentou uma reflexão sobre os efeitos da tecnologia e dos algoritmos na vida cotidiana e defendeu que é preciso recuperar a autonomia diante das plataformas digitais.

Em conversa mediada pela psicóloga Iona Szkurnik, mestre em Tecnologia e Educação pela Universidade Stanford, o pesquisador explicou que, após décadas dedicadas a estudar o funcionamento da internet e das plataformas digitais, decidiu voltar seu olhar para os impactos que essas tecnologias provocam nos seres humanos.

Segundo Ronaldo Lemos, a proposta da obra é oferecer ferramentas para que as pessoas retomem o controle sobre a própria atenção em um cenário cada vez mais dominado por algoritmos.

O título faz referência a três figuras simbólicas: o monge representa o coração e as emoções; o iogue simboliza a mente; e o faquir, o corpo. Para o autor, esses três elementos precisam voltar a funcionar em equilíbrio para enfrentar os desafios impostos pela tecnologia.

Durante a palestra, Lemos explicou que a internet mudou profundamente nas últimas duas décadas. Se antes os usuários escolhiam ativamente o que acessar por meio de links, hoje são os algoritmos que determinam grande parte do conteúdo consumido.

“Antigamente, a tecnologia era associada a esperanças. A grande novidade era o link, e quem decidia quem entrava no link éramos nós. Hoje, trabalhamos com o feed, e o que aparece nele não é uma decisão nossa”, afirmou.

Brasileiros estão entre os povos que mais usam celular no mundo

Um dos dados que mais chamou atenção durante a palestra foi o tempo médio que os brasileiros passam diante da tela do celular.

Segundo Ronaldo Lemos, o brasileiro utiliza o smartphone, em média, por 9 horas e 13 minutos diariamente, índice superior à média mundial, de 6 horas e 50 minutos. Apenas a África do Sul registra um tempo médio maior, com 9 horas e 38 minutos.

Para o pesquisador, esses números refletem o funcionamento da chamada economia da atenção.

“O algoritmo quer que você fique nove horas por dia no celular, porque a sua atenção é vendida para marcas e anúncios. E a atenção é a coisa mais preciosa que nós temos para dar ao outro”, destacou.

Segundo ele, muitas pessoas sentem uma sensação de vazio após permanecerem longos períodos nas redes sociais justamente porque percebem que perderam algo que não pode ser recuperado: o próprio tempo e a própria atenção.

Um dos conceitos centrais apresentados no livro é inspirado na tradição filosófica indiana.

Lemos utiliza a metáfora de uma carruagem para representar a condição humana. O corpo corresponde ao veículo; as emoções, aos cavalos; a mente assume o papel das rédeas e do cocheiro. No entanto, para que todos esses elementos funcionem em harmonia, é necessário existir um mestre responsável por decidir o caminho.

Segundo o pesquisador, esse “mestre” desaparece quando as decisões passam a ser conduzidas pelos algoritmos das redes sociais.

“A proposta do livro é trazer o mestre da carruagem de volta. Ou seja, trazer cada um de nós de volta, para que tenhamos o controle sobre nossas vidas”, explicou.

Durante o encontro, Ronaldo Lemos revelou que o livro também nasce de uma experiência pessoal.

Ele contou que, durante muitos anos, concentrou toda a sua energia no desenvolvimento intelectual, negligenciando o corpo e as emoções. Essa rotina acabou desencadeando crises recorrentes de síndrome do pânico, das quais levou cerca de seis anos para se recuperar completamente.

Segundo o autor, foi justamente esse processo que o fez compreender a necessidade de equilibrar mente, corpo e coração — conceito que se tornou a base da nova publicação.

Outro tema abordado foi o crescimento da inteligência artificial.

Para Ronaldo Lemos, a tecnologia representa uma ferramenta poderosa quando utilizada para solucionar problemas concretos do cotidiano. No entanto, ele demonstrou preocupação com o uso crescente da IA para substituir relações humanas.

“A IA chega em um momento em que estamos exaustos e esgotados. Quando ela é bem utilizada, resolve muitos problemas. Mas hoje muita gente usa a inteligência artificial como terapeuta, amigo ou namorado”, afirmou.

Segundo o pesquisador, esse movimento reforça a importância de compreender os impactos emocionais da tecnologia e de preservar os vínculos humanos em uma sociedade cada vez mais mediada por algoritmos.

Reconhecido internacionalmente por sua atuação na área de direitos digitais e inovação, Ronaldo Lemos afirma que esta é sua obra mais voltada à experiência humana.

Depois de anos dedicados a explicar o funcionamento da internet e das plataformas tecnológicas, o pesquisador passa a discutir como essas ferramentas modificam emoções, hábitos e comportamentos, propondo um caminho para recuperar a autonomia diante da hiperconectividade.

O lançamento aconteceu durante o primeiro dia do Rio Innovation Week 2026, que segue até 7 de agosto no Pier Mauá, reunindo especialistas nacionais e internacionais para debater inovação, inteligência artificial, ciência, sustentabilidade e transformação digital.

Logo após Ronaldo Lemos, Marcelo Gleiser falou sobre a formação do planeta Terra. Assisti e segui caminhando em busca de novidades.

Especialistas discutem alfabetização em IA e o papel dos criadores de conteúdo

Então encontrei um painel muito bom onde a inteligência artificial também foi tema. No Palco Kobra, o painel “Quem Explica a Máquina? Influência digital, letramento em IA e o papel dos criadores de conteúdo na era da automação” reuniu especialistas para discutir como tornar a tecnologia mais compreensível para a sociedade e combater a desinformação.

tempos de máquinas e algoritmos no Rio Innovation Week
foto: Alvaro Tallarico

Entre os convidados esteve a AI Ethicist Catharina Doria, do The AI Survival Club, que destacou a importância do letramento em inteligência artificial em um momento em que ferramentas baseadas em IA passam a fazer parte da rotina de milhões de pessoas. Ao lado do colunista da revista Veja Alvaro Leme e do editor-chefe da MIT Technology Review Brasil, Rafael Coimbra, a especialista debateu a responsabilidade de comunicadores e criadores de conteúdo na tradução de conceitos complexos sobre algoritmos, automação e inteligência artificial para o público em geral.

O painel também abordou questões ligadas à ética, à comunicação científica e ao papel da informação de qualidade na preparação da sociedade para os impactos da nova revolução tecnológica. Foi bastante elucidativo e com boas dicas, em especial da Catharina Doria.

Cultura pop e universo geek entram no debate sobre inovação e educação

A programação do segundo dia do Rio Innovation Week também abre espaço para discutir como a cultura pop e as comunidades geeks podem se tornar ferramentas de transformação social. No dia 5 de agosto, o Palco 12, no Armazém 3, recebe o painel “Como a cultura pop e as comunidades geeks transformam o aprendizado e geram impacto social”.

Um dos destaques da mesa é o analista de Arte, Ciência e Tecnologia do Sesc, Leandro Ferra, que aborda como o entretenimento, a criatividade e as experiências imersivas vêm sendo utilizados para aproximar diferentes públicos da educação e da produção de conhecimento. Ao lado do dublador Fred Mascarenhas, do CEO da BeCo’splay, Mario Vinicius Sant’Anna, e do diretor da Level Up Eventos, Henrique Cauper de Lima Granado, Ferra discute de que forma comunidades formadas em torno dos games, quadrinhos, cosplay, cinema e outras expressões da cultura pop ajudam a estimular o aprendizado colaborativo, fortalecer redes de pertencimento e ampliar o impacto social da inovação.

O painel também analisa como essas linguagens, antes vistas apenas como entretenimento, passaram a ocupar um papel estratégico na educação e na construção de novos modelos de engajamento.

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PorAlvaro Tallarico
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Jornalista especializado em Jornalismo Cultural pela UERJ.

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