Dirigido por Minos Papas, A Mãe Bruxa abraça o folclore e os mitos do Mediterrâneo para retratar alegoricamente a dor, o luto e a aceitação, porém, ao abraçar diferentes vertentes narrativas, acaba sem aprofundar nenhuma.
O uso de criaturas do folclore e dos contos de fadas em contextos contemporâneos sempre despertou meu interesse, e A Mãe Bruxa precisou de muito pouco para me convencer de que poderia ser um dos grandes destaques do Festival Filmes Incríveis, realizado no Cine Belas Artes, em São Paulo. Logo nos primeiros minutos, uma atmosfera lúdica toma conta da tela enquanto uma ventania percorre um campo idílico, apresentando uma mãe e seus três filhos. Não demora, entretanto, para que essa sensação de encantamento dê lugar a uma narrativa muito mais sombria.
Após perder os três filhos em um mesmo acidente, Eleni, uma pintora, encontra no jovem Michalakis alguém que compartilha uma dor semelhante. Unidos pelo luto, ambos embarcam em uma tentativa desesperada de trazer as crianças de volta à vida, mas acabam libertando uma entidade que inicia um processo de destruição pelo vilarejo, obrigando Eleni a confrontar a inevitabilidade da perda antes que seja tarde demais.
A produção utiliza principalmente a figura da Mater Lachrymarum, a Senhora das Lágrimas, como representação da dor do luto. A ideia é fascinante e encontra ecos em diferentes mitologias do Mediterrâneo, mas também evidencia o maior problema do filme. Em vez de aprofundar uma única linha dramática, Minos Papas distribui sua narrativa entre diferentes símbolos e alegorias que raramente evoluem além do campo da sugestão. O resultado é um hermetismo que mais distancia do que instiga, exigindo do espectador interpretações que a própria obra pouco se preocupa em construir.

Cena de “A Mãe Bruxa”- Divulgação Festival Filmes Incriveis
Essa espécie de “Chorona” cipriota, acompanhada por goblins que representam os filhos ressuscitados de Eleni, jamais se torna uma ameaça verdadeiramente memorável. Curiosamente, o terror funciona muito melhor quando permanece invisível. Os ruídos, os sons extracampo, as pequenas pegadas, as mãos surgindo na escuridão e a constante sensação de que algo observa os personagens despertam um desconforto muito mais eficaz do que a revelação das criaturas. Quando finalmente aparecem, os monstros dificilmente correspondem ao medo que a direção vinha construindo.
Paralelamente, o filme acompanha Michalakis, um garoto criativo que sofre abusos dentro de uma família conservadora e encontra na arte uma forma de lidar com o luto pela morte da irmã. Sua aproximação com Eleni nasce justamente dessa dor compartilhada, estabelecendo um interessante paralelo entre ambos. No entanto, assim como acontece com os demais temas da produção, essa relação nunca alcança todo o potencial dramático que promete.
Outro elemento que permanece superficial é o simbolismo da colonização britânica no Chipre. Os soldados vestidos de vermelho surgem repetidamente como representações da morte e da opressão, mas sua presença nunca ultrapassa a função alegórica.
O simbolismo deveria fortalecer a narrativa, oferecendo novas camadas de interpretação ao conflito principal. Em A Mãe Bruxa, porém, ele frequentemente assume o protagonismo, enquanto a história permanece em segundo plano, criando uma sensação de distanciamento que dificulta o envolvimento emocional do espectador.
Enquanto A Mãe Bruxa hesita em escolher um caminho, a cinematografia de Jack McDonald demonstra muito mais segurança. Utilizando predominantemente luz natural, o diretor de fotografia constrói imagens belíssimas que exploram tanto a amplitude das paisagens quanto a claustrofobia dos espaços fechados.

Margarita Zachariou e Sifis Katsoulakis em cena de “A Mãe Bruxa”- Divulgação Festival Filmes Incriveis
Movimentos lentos de câmera percorrem cenários silenciosos com enorme precisão, enquanto enquadramentos reduzidos revelam apenas fragmentos de corpos, unhas e movimentos discretos, alimentando uma sensação constante de inquietação. Somados ao silêncio quase absoluto e a uma trilha sonora meticulosa, esses elementos fazem com que a atmosfera seja muito mais assustadora do que os momentos em que o horror finalmente se manifesta.
As sequências noturnas iluminadas apenas por lampiões figuram entre os momentos visualmente mais marcantes do longa. Ainda assim, raramente culminam em acontecimentos que justifiquem toda a tensão construída. A morte do fazendeiro pelos goblins ilustra bem esse problema: em vez de explorar o horror físico ou psicológico da situação, a direção opta por cortes rápidos, mãos misteriosas e um enquadramento distante da vítima. A sugestão continua sendo mais poderosa do que a execução, frustrando justamente quando A Mãe Bruxa poderia entregar uma de suas cenas mais memoráveis.
Ao final, A Mãe Bruxa transmite diversas reflexões sobre aceitação do luto, família encontrada, trauma e a arte como instrumento de cura. Nenhuma delas, entretanto, recebe o desenvolvimento necessário para alcançar todo o seu potencial. Entre imagens de grande beleza, uma atmosfera cuidadosamente construída e um simbolismo excessivamente hermético, Minos Papas entrega uma obra visualmente fascinante, mas dramaticamente dispersa.
O terror permanece na promessa, enquanto suas inúmeras alegorias competem entre si, impedindo que qualquer uma delas encontre a força necessária para realmente marcar o espectador.
A Mãe Bruxa integra a programação do Festival Filmes Incríveis e terá mais duas exibições durante o evento, nos dias 7 e 10 de agosto.
A programação completa está disponível no site oficial do festival.
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