Dirigido por Tim Kamps, Champagne – Uma Viagem de Pai e Filho entrega uma jornada emocionante e simbólica sobre a relação entre pai e filho, mas prefere o conforto quando poderia explorar caminhos mais complexos.
Viagens de reconexão são comuns nas narrativas cinematográficas. De Pateta: O Filme (1995, Kevin Lima) e Faz de Conta que É Paris (2025, Leonardo Pieraccioni) até Antes de Partir (2007, Rob Reiner), são inúmeras as produções que, cada uma à sua maneira, levam o espectador por uma jornada emocional que intercala momentos de comédia e drama, entregando situações capazes de nos fazer relembrar nossas próprias vivências com aqueles que mais amamos.
No caso de Champagne – Uma Viagem de Pai e Filho, temos talvez a mais pura declaração de amor que um filho poderia fazer ao pai. Isso ganha ainda mais força quando consideramos que o filme retrata uma viagem que Tim Kamps nunca conseguiu realizar com o próprio pai e que sua experiência solitária posteriormente contribuiu para a criação da obra. Por conta disso, a produção entra em um terreno mais próximo da homenagem do que da composição dramática, resultando em momentos sinceros e interessantes, mas também mornos demais.
O atrito inicial entre Maarten e Hans existe, porém permanece sempre nas entrelinhas e nunca se transforma em um conflito propriamente dito. Ambos apresentam uma relação saudável, embora distante, algo evidenciado quando finalmente partem em sua viagem de carro e percebem que praticamente não têm assunto. À medida que o tempo passa, os dois começam a se abrir de maneira orgânica e contida, sem que a narrativa busque grandes momentos catárticos.

Huub Stapel e Leo Alkemade em cena de “Champagne- uma viagem de pai e filho”- Divulgação Autoral Filmes
Essa escolha possui seus méritos, principalmente pela naturalidade da relação, mas também evidencia uma das principais limitações do longa. Como o atrito inicial é praticamente inexistente, a jornada se torna menos uma reconciliação e mais uma reaproximação. Nesse contexto, as belas paisagens do interior da França se tornam o cenário ideal para a fotografia contemplativa da produção. Ainda assim, mesmo com todas as peças disponíveis, é difícil não pensar em como Champagne – Uma Viagem de Pai e Filho poderia abraçar um pouco mais seu território ficcional e se desprender da reverência biográfica, permitindo novas camadas aos personagens.
Em determinado momento, Hans desaparece, mas rapidamente é encontrado em uma festa, conversando com um homem de idade semelhante. O desconhecido elogia Maarten e a viagem dos dois antes de deixá-los sozinhos. A situação poderia servir como ponto de partida para um conflito: Maarten poderia confrontar o pai pelo desaparecimento ou demonstrar a preocupação com a quantidade de remédios que ele toma, assunto discutido com sua esposa na cena anterior. Em vez disso, simplesmente se senta e bebe com Hans.
Algo semelhante acontece dentro de uma igreja. Enquanto Maarten assume o papel de turista, Hans procura um pouco de paz. Quando os dois se separam, Maarten observa de longe o que parece ser um policial abordando seu pai e, preocupado, corre para ajudá-lo, apenas para descobrir que não havia problema algum.

Huub Stapel e Leo Alkemade em cena de “Champagne- uma viagem de pai e filho”- Divulgação Autoral Filmes
Champagne – Uma Viagem de Pai e Filho está repleto desses pequenos conflitos em potencial, situações que poderiam conduzir seus personagens a lugares inesperados e criar sequências mais marcantes. Entretanto, o longa constantemente opta pelo conforto e por uma sensação agradável, sem abraçar completamente nem o humor, nem o drama.
Não existe uma grande ruptura durante a jornada. Não há dúvidas sobre continuar a viagem, receios como “precisamos voltar” ou “abandonei meu trabalho para estar aqui”, tampouco conflitos mais intensos entre pai e filho, algo perfeitamente natural dentro de qualquer família, principalmente quando falamos de parentes emocionalmente distantes. Assim, o filme estrutura sequência após sequência até alcançar seu desfecho derradeiro, genuinamente emocionante, mas também bastante previsível.
A trilha sonora leve e melancólica contribui para essa atmosfera, enquanto as paisagens transformam a produção, em determinados momentos, quase em um convite turístico para conhecer Champagne. Tudo é bonito, agradável e envolvente, e existe uma sinceridade evidente na maneira como Tim Kamps olha para essa relação.
Talvez seja justamente essa sinceridade que torne tão difícil exigir do filme conflitos que seu diretor parece não querer criar artificialmente. Ao mesmo tempo, o cinema permite transformar experiências pessoais em algo maior do que aquilo que realmente aconteceu.
Quando Champagne – Uma Viagem de Pai e Filho termina, existe emoção. Existe carinho por aqueles personagens e, principalmente, pela história pessoal que inspirou sua criação. O problema surge depois, quando lembramos de tantas outras produções que partiram de premissas semelhantes e encontraram nelas conflitos, humor e emoções muito mais intensos. Com o passar do tempo, resta então a pergunta: lembraremos dessa viagem ou apenas da sensação agradável que tivemos enquanto ela acontecia?
Distribuído pela Autoral Filmes, Champagne – Uma Viagem de Pai e Filho estreia nos cinemas em 6 de agosto.
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