A realidade que cada pessoa acredita enxergar é, na verdade, uma construção do cérebro. A afirmação, que parece saída de um filme de ficção científica, abriu uma das palestras mais concorridas desta quarta-feira (5) no Rio Innovation Week 2026. Em conversa com o físico e astrônomo Marcelo Gleiser, o neurocientista norte-americano David Eagleman explicou como o cérebro interpreta o mundo e mostrou tecnologias que podem ampliar os sentidos humanos.
Autor do livro Incógnito – A Vida Secreta do Cérebro, Eagleman lembrou que o cérebro nunca entra em contato direto com a realidade externa. Isolado dentro do crânio, ele recebe apenas impulsos elétricos enviados pelos órgãos dos sentidos e, a partir dessas informações, cria um modelo do mundo.
“Em cada um de nós existe um outro que não reconhecemos. É a nossa voz interior”, afirmou o pesquisador.
Segundo Eagleman, esse “outro eu” é responsável por uma enorme quantidade de decisões tomadas sem que a pessoa perceba. Desde reconhecer instantaneamente o rosto de alguém conhecido até se apaixonar, praticamente tudo passa por processos inconscientes.
Durante a conversa, Eagleman explicou que o cérebro não funciona como uma única unidade. Na prática, ele reúne diversos sistemas que frequentemente entram em conflito.
Cada decisão representa uma espécie de negociação entre impulsos, desejos, emoções e interpretações diferentes. É justamente essa disputa permanente que torna o comportamento humano tão complexo.
Marcelo Gleiser conduziu a discussão explorando a relação entre consciência e percepção, destacando como o ser humano consegue refletir sobre os próprios pensamentos e modificar comportamentos ao longo da vida.
Um dos momentos que mais chamou a atenção do público foi a apresentação de uma tecnologia desenvolvida por Eagleman para ampliar a percepção humana.
O pesquisador mostrou um colete que converte sons em vibrações na pele. Depois de um período de adaptação, o cérebro passa a interpretar esses estímulos táteis como informação sonora.
A tecnologia foi criada inicialmente para pessoas com deficiência auditiva, mas pode ter aplicações muito mais amplas.
Segundo Eagleman, o cérebro não está limitado aos cinco sentidos tradicionais. Qualquer informação pode ser transformada em padrões que ele aprenda a interpretar.
Essa capacidade abre caminho para o desenvolvimento de novos sentidos artificiais e para formas inéditas de interação entre seres humanos e tecnologia.
O segredo para manter o cérebro saudável
Além da ciência, Eagleman também deixou um conselho prático para quem deseja preservar a saúde cerebral.
Para ele, o cérebro precisa ser constantemente desafiado.
“É preciso sair do caminho de menor resistência. A fórmula mais simples é buscar coisas novas e fazer algo diferente.”
Entre as sugestões apresentadas pelo neurocientista estão atitudes simples do cotidiano, como escovar os dentes com a mão não dominante, trocar o relógio de braço ou alterar o caminho percorrido até o trabalho.
Embora pareçam pequenas mudanças, elas obrigam o cérebro a sair do piloto automático e estimulam a criação de novas conexões neurais.
Outro conceito destacado por Eagleman foi a plasticidade cerebral, capacidade que permite ao cérebro reorganizar suas conexões durante toda a vida.
Segundo ele, experiências, aprendizagem, relações sociais e até o contato físico modificam continuamente a estrutura cerebral. Da mesma forma, a ausência de estímulos e vínculos pode comprometer o desenvolvimento cognitivo.
O pesquisador também explicou que o cérebro mantém um “mapa” do próprio corpo e consegue reorganizar esse sistema quando ocorre a perda de uma função ou de um membro, característica que torna possíveis tecnologias como próteses inteligentes e sistemas de substituição sensorial.
A palestra integrou a programação da conferência Ciência para Todos, uma das atrações do Rio Innovation Week 2026, que segue até sexta-feira (7), no Píer Mauá, reunindo pesquisadores, empresários e especialistas para discutir ciência, tecnologia, inovação e o futuro.
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