A rivalidade faz parte do esporte. Durante a Copa do Mundo, milhões de brasileiros vibram, sofrem e defendem suas seleções como uma extensão da própria identidade. Mas basta o torneio terminar para outro tipo de disputa ocupar o centro das conversas: a política. Com a aproximação das eleições, discussões nas redes sociais, grupos de mensagens e até reuniões de família voltam a ficar mais tensas.
Para a psicanalista Camila Camaratta, esses dois universos têm mais em comum do que parece. Segundo ela, tanto o futebol quanto a política evidenciam um comportamento profundamente humano: transformar quem pensa diferente em inimigo.
“Durante algumas semanas, assistimos a um espetáculo curioso. Pessoas vibram, sofrem, comemoram e, não raro, fazem do adversário alguém tão importante quanto aquele por quem torcem. O futebol apenas torna visível um mecanismo que atravessa toda a vida social.”
A especialista afirma que, terminado o campeonato, esse mecanismo não desaparece. Apenas muda de cenário.
“As rivalidades sobrevivem ao apito final porque cumprem uma função muito maior do que imaginamos.”
Segundo Camaratta, o conflito nem sempre nasce das diferenças em si, mas da necessidade que as pessoas têm de afirmar a própria identidade.
“Talvez não rivalizemos porque somos diferentes. Talvez precisemos das diferenças para sustentar quem acreditamos ser.”
A análise dialoga com um dos conceitos clássicos de Sigmund Freud, conhecido como “narcisismo das pequenas diferenças”. A teoria propõe que grupos muito parecidos costumam ampliar pequenas distinções justamente para reforçar seu sentimento de pertencimento.
Na prática, isso ajuda a explicar por que conflitos intensos muitas vezes surgem entre pessoas que compartilham valores, costumes ou histórias semelhantes.
“Nem sempre são os muito diferentes que despertam nossas maiores hostilidades. Muitas vezes, os conflitos mais intensos surgem justamente entre aqueles que mais se parecem.”
Outro conceito apresentado pela psicanalista é o da projeção, mecanismo pelo qual sentimentos difíceis de reconhecer em si mesmo acabam sendo atribuídos ao outro.
“Também é mais fácil localizar o mal fora de nós do que reconhecê-lo em nós. A agressividade, a ambição, a fragilidade, a insegurança ou o desejo de reconhecimento encontram um endereço conveniente: o outro.”
Segundo Camaratta, esse processo simplifica uma realidade que é naturalmente complexa. Em vez de aceitar nuances, as pessoas passam a dividir o mundo entre quem está do lado certo e quem representa tudo aquilo que deve ser combatido.
Embora as plataformas digitais ampliem esse comportamento, a psicanalista ressalta que elas não são sua origem.
Dados do Digital News Report 2025, do Reuters Institute, mostram que cresce a preocupação mundial com a polarização alimentada pelas redes sociais. O estudo aponta que 58% dos entrevistados demonstram preocupação com a dificuldade de distinguir informações verdadeiras de falsas no ambiente digital.
Já o relatório Digital 2025, da DataReportal, mostra que os brasileiros permanecem entre os povos que mais passam tempo conectados à internet, com média superior a nove horas por dia.
Para Camaratta, as redes apenas aceleram conflitos que já existiam.
O desafio é voltar a enxergar humanidade no outro
A especialista também recorre às ideias da psicanalista Melanie Klein, que defendia a importância de aceitar que todas as pessoas reúnem qualidades e defeitos ao mesmo tempo.
“O difícil é suportar a ambivalência: reconhecer que uma mesma pessoa reúne luz e sombra, qualidades e defeitos, generosidade e egoísmo, acertos e equívocos.”
Segundo Camaratta, é justamente quando essa capacidade falha que o adversário deixa de ser apenas alguém com opiniões diferentes e passa a ser tratado como inimigo.
“O problema começa quando o outro deixa de ser adversário para tornar-se inimigo; quando já não suportamos reconhecer nele qualquer traço de humanidade ou qualquer semelhança conosco.”
Para a psicanalista, essa lógica aparece diariamente nas redes sociais, no ambiente de trabalho, nos condomínios, nas torcidas esportivas e nas relações familiares. O período eleitoral apenas torna esse comportamento mais visível.
Ela conclui que a democracia depende justamente da capacidade de conviver com as diferenças sem transformar o outro em alguém cuja existência precisa ser rejeitada.
“Talvez o maior desafio de uma democracia não seja eliminar as rivalidades, mas cultivar a capacidade de integrar em vez de cindir. Afinal, o adversário é alguém com quem disputamos ideias; o inimigo é alguém cuja existência deixamos de tolerar.”
Em ano eleitoral, novo duelo Lula x Bolsonaro volta a testar a convivência democrática
A reflexão proposta por Camila Camaratta ganha ainda mais relevância em um momento em que o Brasil entra em mais um ciclo eleitoral. A disputa pela Presidência da República, pelos governos estaduais, pelo Congresso Nacional e pelas assembleias legislativas tende a intensificar debates que já ocupam diariamente as redes sociais.
Nos últimos anos, o cenário político brasileiro passou a ser marcado por uma forte polarização entre grupos identificados, principalmente, com a esquerda e a direita. Em muitos casos, a divergência sobre programas de governo, economia, segurança pública ou costumes deixa de ser apenas um debate de ideias e passa a afetar amizades, relações familiares e ambientes de trabalho.
Embora a divergência seja parte essencial da democracia, especialistas alertam que a radicalização pode transformar o adversário político em um inimigo, reduzindo a disposição para o diálogo e dificultando a construção de consensos em temas de interesse coletivo.
É justamente essa mudança de percepção que a psicanálise procura compreender.
Para Camaratta, a existência de opiniões diferentes não representa uma ameaça à democracia. Pelo contrário. O desafio está em preservar o respeito pelo outro mesmo diante de profundas divergências.
“Uma democracia saudável pressupõe conflito de ideias, mas também exige que reconheçamos a legitimidade de quem pensa diferente. Quando deixamos de enxergar humanidade no outro, deixamos de discutir argumentos para combater pessoas.”
A especialista lembra que nenhuma sociedade plural consegue funcionar sem a convivência entre visões distintas de mundo.
“O problema não é discordar. O problema é acreditar que apenas um lado merece existir ou ser ouvido.”
A dinâmica das redes sociais também contribui para esse cenário. Algoritmos tendem a mostrar conteúdos semelhantes aos interesses do usuário, criando ambientes em que opiniões parecidas se reforçam continuamente. Ao mesmo tempo, publicações mais polarizadas costumam gerar maior engajamento, aumentando sua circulação.
Para a psicanalista, reconhecer que pessoas honestas podem chegar a conclusões diferentes sobre os rumos do país é um exercício de maturidade individual e coletiva.
Em um período de intensificação do debate político, em especial entre Lula e Flávio Bolsonaro, a reflexão proposta pela especialista vai além das eleições. Ela convida a pensar sobre a qualidade das relações humanas em uma sociedade democrática, onde o direito de defender diferentes ideias deve caminhar lado a lado com o respeito ao próximo, à liberdade de expressão e às instituições.
Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!
Leia mais
- Crítica: ‘A Morte de Robin Hood’ desconstrói o mito, mas esquece de reinventá-lo
- Crítica: ‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’ entrega o Peter Parker que os fãs esperavam, mas pequenos tropeços são consideráveis
- Crítica: ‘A Mãe Bruxa’ promete um dos terrores mais intrigantes do ano, mas decepciona onde mais importa



