Dirigido por Michael Sarnoski, A Morte de Robin Hood promete subversão violenta do herói épico, mas entrega uma jornada melancólica que pouco acrescenta ao mito
Vivemos uma época de revisitações e desconstruções dos grandes heróis da literatura e do cinema. Se antes Robin Hood simbolizava justiça, aventura e heroísmo, Michael Sarnoski abandona completamente essa imagem para apresentar um homem consumido pela culpa, pela violência e pelo peso de suas próprias lendas.
Amargo, sombrio e traumatizado, Hugh Jackman incorpora esse novo Robin Hood com enorme convicção. Sua postura curvada, o olhar constantemente abatido e a voz cansada fazem acreditar que aquele homem realmente carrega décadas de sangue e arrependimento. O problema nunca está na atuação do ator, mas no fato de que o roteiro transforma esse estado emocional em praticamente sua única característica durante quase duas horas.
Logo nos primeiros minutos, Robin é retirado de seu isolamento por João Pequeno, e A Morte de Robin Hood deixa evidente sua principal intenção. A fotografia fria, nebulosa e desaturada, somada aos diálogos do próprio arqueiro, desmonta rapidamente o imaginário construído ao longo de séculos. As aventuras glorificadas não passam de histórias exageradas, e o lendário herói não passa de um homem quebrado. É, sem dúvida, um dos momentos mais interessantes do filme.
Após uma batalha, a narrativa muda de direção e até altera a janela de projeção, aproximando visualmente o espectador dos personagens. Ferido, Robin encontra abrigo em um convento rural, onde passa a confrontar as consequências de sua própria trajetória como ladrão e assassino. Nesse momento, a violência do primeiro ato dá lugar a uma narrativa muito mais introspectiva, contemplativa e silenciosa.
O problema é que Michael Sarnoski demora demais para desenvolver essa proposta. As discussões sobre culpa, o ciclo da violência, a desconstrução dos mitos e o desejo de Robin de finalmente encontrar descanso retornam continuamente sem novos desdobramentos, e sempre muito longas e enfadonhas. Em vez de aprofundar esses conflitos, A Morte de Robin Hood frequentemente os reafirma, criando uma sensação de estagnação que inevitavelmente afeta o ritmo.
Essa abordagem lembra bastante o excelente Pig (2021), também dirigido por Sarnoski. Ambos discutem personagens marcados por um passado sombrio que precisam aceitar suas cicatrizes para seguir em frente. A diferença é que Pig encontra um equilíbrio muito maior entre contemplação e progressão dramática, culminando em um terceiro ato emocionalmente devastador. Já A Morte de Robin Hood permanece preso ao mesmo estado de espírito durante praticamente toda a projeção, fazendo com que seu desfecho pareça menos impactante do que deveria.
A relação entre Robin e a jovem Margaret acaba sendo um dos aspectos mais interessantes da narrativa. Embora utilize o conhecido arquétipo do guerreiro marcado pela violência que encontra algum tipo de redenção na inocência de uma criança, a dinâmica entre os dois oferece os poucos momentos em que o protagonista demonstra alguma transformação emocional.
Visualmente, porém, o filme impressiona. A fotografia cria imagens belíssimas e reforça constantemente a decadência daquele universo. Ainda assim, conforme a narrativa avança, até mesmo essa construção estética passa a reforçar uma única sensação: a melancolia permanente. Em determinado momento, a direção parece tão interessada em lembrar que este não é o Robin Hood das lendas que esquece de tornar essa nova versão dramaticamente fascinante.
A subversão nunca foi o problema. Grandes releituras sobrevivem justamente por encontrarem novos significados para personagens que julgávamos conhecer. Em A Morte de Robin Hood, porém, a desconstrução termina antes da reconstrução começar. Michael Sarnoski desmonta um dos maiores heróis da cultura popular, mas não consegue transformá-lo em algo igualmente memorável, conduzindo o espectador por uma jornada marcada por belas imagens, boas atuações e reflexões pertinentes, porém excessivamente uniformes em sua tonalidade.
Distribuído pela Imagem Filmes, A Morte de Robin Hood estreia nos cinemas no dia 13 de agosto.

Hugh Jackman e Jodie Comer em cena de “A Morte de Robin Hood”- Divulgação Imagem Filmes

Hugh Jackman em cena de “A Morte de Robin Hood”- Divulgação Imagem Filmes
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