Dirigido por Lírio Ferreira, Baile Perfumado é revisto em mostra especial e continua com tanta força quanto na época de seu lançamento
Antes da abertura da Mostra Comemorativa do Cinema Pernambucano, realizada na última terça-feira, 11/08, em São Paulo, eu nunca tinha assistido ao clássico nacional Baile Perfumado. Coincidentemente, antes da sessão, estava discutindo com um colega sobre as diferentes representações do cangaço dentro do audiovisual e, quando a produção de Lírio Ferreira teve início, essa discussão ganhou ainda mais força, principalmente pela maneira como o filme constrói uma visão completamente distinta daquela eternizada pelo Cinema Novo de Glauber Rocha.
Baile Perfumado se tornou um filme emblemático por diversas razões. Não somente por sua trilha sonora regada a manguebeat, Chico Science e Fred Zero Quatro, que permite uma leitura contemporânea dessa representação nordestina, mas também por adotar uma linguagem ágil e dinâmica, afastando-se da abordagem alegórica, política e árida que marcou parte do Cinema Novo. Em poucas palavras, a representação de Lírio Ferreira é, acima de tudo: pop.
Com estilo e movimento, a produção foi essencial para o Cinema da Retomada, após o governo de Fernando Collor de Mello, que, ao extinguir a Embrafilme, aprofundou uma grave crise na produção audiovisual brasileira, superada somente anos depois. Dentro desse contexto, Baile Perfumado se torna ainda mais importante por fugir do eixo Rio-São Paulo e apresentar as diferentes nuances de uma cultura nordestina que, acima de tudo, é potente, vibrante e cinematograficamente rica.

Cena de “Baile Perfumado”- Divulgação
Lampião não é simplesmente o monstro que tantas representações anteriores ajudaram a construir. Aqui, é um homem extremamente orgulhoso, vaidoso e regido por seu próprio código de ética, querendo ser um cavalheiro de outrora, mas condenado à vida de banditismo. Apesar de sua extrema violência, permitiu que o fotógrafo libanês-brasileiro Benjamin Abrahão registrasse seu bando, transformando aquelas imagens em documentos históricos e levando o fotógrafo à notoriedade, até sua misteriosa morte durante o Estado Novo.
Dentro de uma produção focada em Abrahão e em Lampião, demais personagens caem em uma narrativa subdesenvolvida, seja o arco do Tenente Lindalvo e sua busca pelo cangaceiro, caindo quase em um alívio cômico, mas principalmente no trato para com as personagens femininas que muitas vezes somente estão lá, bem diferente de outras representações de Maria Bonita, por exemplo, que já vimos em outras mídias.
Em quesito técnico, um dos maiores pontos fortes de Baile Perfumado está em sua linguagem popular e na maneira como ela aproxima a produção do público. Apesar de sua narrativa permanecer cercada de mistérios e de alguns diálogos serem difíceis de compreender devido à oralidade, aos regionalismos e até mesmo ao desenho sonoro, seu objetivo é muito maior do que simplesmente narrar os acontecimentos de maneira didática.
Ao retratar a história de Benjamin Abrahão, o filme também registra simbolicamente o fim do cangaço e o avanço da modernidade sobre aquele universo. Estradas, automóveis, câmeras, cidades e novas formas de circulação começam a ocupar um espaço anteriormente associado ao sertão e aos cangaceiros. Existe, portanto, algo particularmente fascinante nessa relação: Baile Perfumado retrata um mundo atravessado por transformações justamente em um período no qual o próprio cinema brasileiro necessitava passar por uma profunda reforma estrutural e narrativa.

Cena de “Baile Perfumado”- Divulgação
É justamente aí que passado e presente se encontram.
Ao final, Baile Perfumado carrega marcas evidentes do período em que foi realizado, assim como Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995, Carla Camurati). Porém, dentro de seus respectivos contextos, ambos se tornaram grandes faróis para um cinema brasileiro que precisou praticamente se reconstruir. São filmes cuja importância não está somente no resultado apresentado em tela, mas nos caminhos que ajudaram a abrir para tudo aquilo que viria depois.
Especificamente no caso da produção de Lírio Ferreira, é essa união entre antigo e novo que permanece tão fascinante quase três décadas depois. Ao misturar imagens em preto e branco, registros históricos, dinamismo cinematográfico, manguebeat e uma nova perspectiva sobre o cangaço, Baile Perfumado olha para o passado brasileiro enquanto sua linguagem aponta para o futuro.
E talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois, sua força ainda seja tão difícil de desconsiderar.
Baile Perfumado faz parte da Mostra Comemorativa do Cinema Pernambucano. O evento celebra os aniversários de quatro marcos do cinema pernambucano: além de Baile Perfumado, Baixio das Bestas (2006, Cláudio Assis) e Cinema, Aspirinas e Urubus (2005, Marcelo Gomes) chegam aos 20 anos, e Boi Neon completa a primeira década.
Depois da abertura oficial no Recife, no dia 6, no Cinema São Luiz, e da passagem por São Paulo, a mostra segue em circuito nacional entre esta quinta-feira (13) e o dia 19 de agosto, com sessões dos quatro filmes em cerca de 30 salas por todo o país, incluindo Salvador, Natal, Fortaleza, Maceió, Aracaju, Belém, Manaus, Palmas, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e Florianópolis.
Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!
Leia mais
- Primeiras Impressões:’Ted Lasso’ volta sem pressa, relembrando o que a fez tão especial
- Crítica: ‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’ entrega o Peter Parker que os fãs esperavam, mas pequenos tropeços são consideráveis
- Crítica: ‘Desejo em Manhattan’ transforma clássico de Amiri Baraka em adaptação ambiciosa, porém confusa



