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Jason Sudeikis e Tanya Reynolds em cena de "Ted Lasso"- Divulgação Apple+
Cinema e StreamingCrítica

Primeiras Impressões:’Ted Lasso’ volta sem pressa, relembrando o que a fez tão especial

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 5 de agosto de 2026
9 Min Leitura
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Jason Sudeikis e Tanya Reynolds em cena de "Ted Lasso"- Divulgação Apple+
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Criado por Jason Sudeikis, Brendan Hunt e Joe Kelly, Ted Lasso retorna com uma estreia que destoa do restante da série, mas reencontra sua essência para dar início a um novo ciclo.

Poucas séries dependeram tanto do momento em que foram lançadas quanto Ted Lasso. Estreando durante o auge da pandemia de Covid-19, quando o mundo parecia precisar desesperadamente de conforto e esperança, a produção apresentou um treinador de futebol americano extraordinariamente otimista que, inesperadamente, assume o comando de um tradicional clube de futebol inglês.

Dois fatores foram determinantes para transformar a série em um fenômeno. O primeiro são seus personagens, construídos com humanidade e carisma raramente vistos na televisão contemporânea. O segundo é sua visão de mundo: uma narrativa que abraça o otimismo sem cinismo, mostrando que gentileza e empatia ainda podem transformar pessoas, mesmo quando tudo parece perdido.

Após uma terceira temporada marcada por problemas de ritmo, o encerramento parecia definitivo. O arco de Ted estava completo: um homem que fugia do próprio passado finalmente o aceita e retorna ao Kansas transformado, em uma jornada que sempre remeteu ao clássico O Mágico de Oz.

Jason Sudeikis, Brendan Hunt e Tanya Reynolds em cena de "Ted Lasso"- Divulgação Apple+

Jason Sudeikis, Brendan Hunt e Tanya Reynolds em cena de “Ted Lasso”- Divulgação Apple TV+

Quando Jason Sudeikis anunciou uma quarta temporada, a reação foi inevitável. Eu mesmo imediatamente enviei uma mensagem para uma amiga que também acompanhava a série. Ambos compartilhávamos o mesmo sentimento: será que realmente havia mais uma história para contar?

Depois de assistir ao primeiro episódio, a resposta parece ser mais complexa do que um simples “sim” ou “não”.

Logo nos primeiros minutos, fica evidente que algo mudou. A fotografia ganha tons mais quentes, Richmond deixa de ser o centro da narrativa e a história passa a acompanhar Ted em um ensolarado Missouri, vivendo uma rotina muito menos glamourosa. Ainda assim, ele continua sendo exatamente quem sempre foi: um homem capaz de encontrar propósito até mesmo em um emprego frustrante, principalmente porque tudo agora gira em torno de Henry, seu maior motivo para seguir em frente.

Esse início discreto remete diretamente ao primeiro episódio da série. Vale lembrar que Ted Lasso nunca conquistou seu público com grandes acontecimentos. Os primeiros capítulos eram relativamente simples, e foi apenas quando personagens como Rebecca, Roy Kent e Trent Crimm começaram a revelar suas camadas que a série encontrou sua verdadeira identidade. A missão sempre foi quebrar as barreiras iniciais para, só então, conquistar nossa confiança.

Quando chegamos a momentos marcantes, como a inesquecível cena do jogo de dardos ou Rebecca finalmente se abrindo para Ted, já estávamos completamente envolvidos por aqueles personagens. A partir dali, Ted Lasso alcançou uma excelente segunda temporada e, apesar das oscilações, uma terceira que conseguiu encerrar satisfatoriamente praticamente todos os seus conflitos.

Jason Sudeikis, Juno Temple, Jeremy Swift e Hannah Waddingham em cena de "Ted Lasso"- Divulgação Apple+

Jason Sudeikis, Juno Temple, Jeremy Swift e Hannah Waddingham em cena de “Ted Lasso”- Divulgação Apple TV+

Então por que voltar?

Além dos inevitáveis interesses comerciais, existe uma justificativa narrativa que este primeiro episódio faz questão de apresentar. Em uma televisão cada vez mais dominada por produções cínicas, violentas ou pessimistas, Ted Lasso continua sendo uma das poucas séries que acredita sinceramente na bondade como força transformadora. Talvez esse seja justamente o motivo pelo qual sua existência ainda faça sentido.

Ainda assim, este primeiro episódio está longe de ser explosivo. Se fosse a estreia de uma série inédita, dificilmente despertaria grande interesse. Durante cerca de quarenta minutos, acompanhamos basicamente uma única questão: Ted aceitará ou não voltar para Richmond? O episódio se sustenta muito mais pelo carinho que o espectador já desenvolveu por aqueles personagens do que propriamente por seus acontecimentos.

E talvez essa seja justamente sua proposta.

Rebecca e Kelly na loja de roupas, Higgins no museu dos jogadores de baseball, Ted com sua mãe. São pequenas interações como a deste episódio, que construíram e fizeram a série tão marcante quanto é hoje. O começo pode parecer truncado e diferente, mas é necessário antes de tudo reapresentar estas pessoas, não somente para nós como audiência, mas também para eles mesmos.

A Apple TV+ parece compreender perfeitamente que o público não retorna por causa do campeonato, dos resultados em campo ou de grandes reviravoltas narrativas. Basta observar os trailers da temporada. Em vez de destacar partidas de futebol ou conflitos, a campanha aposta em reencontros, abraços, piadas e pequenas interações entre personagens que aprendemos a amar ao longo dos últimos anos. Roy reencontrando Ted, Rebecca conversando com Keeley, Mae recebendo os velhos conhecidos e o novo time feminino celebrando junto. A série vende pessoas, não acontecimentos.

A cena final do episódio, com Ted entrando no antigo escritório de seu pai segue exatamente essa lógica. Não é apenas um momento nostálgico, mas um símbolo claro de que esta nova temporada pretende olhar menos para o futuro e mais para aquilo que construiu o protagonista. Se antes acompanhávamos Ted tentando ser um bom pai para Henry, agora tudo indica que a narrativa investigará a relação dele com o próprio pai e como esse passado moldou seu otimismo quase inabalável.

Essa mudança de perspectiva pode representar o maior acerto da temporada.

Naturalmente, existem algumas preocupações. A trama envolvendo o novo time feminino parece abordar questões muito mais atuais e realistas do que aquelas com as quais Ted Lasso normalmente trabalha. A série já demonstrou, em temporadas anteriores, certa dificuldade para equilibrar discussões políticas ou sociais mais complexas, como aconteceu no arco de Sam Obisanya e sua campanha contra a Dubai Air, que acabou sendo resolvido de maneira excessivamente simplificada.

Jason Sudeikis, Juno Temple, Jeremy Swift e Hannah Waddingham em cena de "Ted Lasso"- Divulgação Apple+

Jason Sudeikis, Juno Temple, Jeremy Swift e Hannah Waddingham em cena de “Ted Lasso”- Divulgação Apple TV+

Ainda assim, existe um voto de confiança.

Mais do que reinventar a série, este primeiro episódio parece aceitar que o melhor caminho seja recomeçar do zero. Em vez de tentar superar imediatamente os grandes momentos das temporadas anteriores, prefere reconstruir sua relação com o espectador através das pequenas conversas, do humor cotidiano e das demonstrações de afeto que sempre definiram sua identidade.

Para quem esperava uma estreia grandiosa, talvez o episódio decepcione. Para quem conhece Ted Lasso, porém, ele transmite exatamente a sensação de reencontrar velhos amigos depois de muito tempo. Não existe a euforia de um grande acontecimento, mas o conforto de perceber que aquelas pessoas continuam ali.

Se as três primeiras temporadas mostravam Ted aprendendo a aceitar a si mesmo, esta quarta parece interessada em descobrir de onde nasceu toda essa capacidade de espalhar esperança. Se cumprir essa promessa, talvez Ted Lasso descubra que ainda havia uma história importante para contar.

Disponível na Apple TV+, a quarta temporada de Ted Lasso estreia em 5 de agosto, com episódios lançados semanalmente até o início de outubro.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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