O Flamengo decidiu acionar a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF) para pedir uma análise sobre a situação financeira do Vasco. A justificativa é conhecida: o clube cruz-maltino está em recuperação judicial, busca um empréstimo emergencial de R$ 150 milhões e, ao mesmo tempo, tenta se movimentar no mercado para reforçar o elenco. O jornalista Venê Casagrande classificou o movimento como uma “contribuição para o bem do futebol brasileiro”. É justamente essa conclusão que merece ser discutida.
Não porque o Vasco deva ficar acima das regras. Muito pelo contrário. Um clube em recuperação judicial precisa ter responsabilidade, transparência e capacidade de demonstrar que seus compromissos podem ser honrados. Se houver irregularidade, que seja investigada. Se houver descumprimento das regras, que exista punição. O que não parece razoável é transformar uma iniciativa de um concorrente direto em uma espécie de ato altruísta em defesa do futebol nacional.
Chama atenção o papel de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, presidente do Flamengo, nessa discussão. Ao levar o caso do Vasco à ANRESF, o dirigente coloca o clube rubro-negro como fiscal de uma situação financeira que envolve diretamente um de seus principais rivais.
Mas existe uma pergunta bastante simples nessa história: o que seria melhor para o futebol brasileiro e, principalmente, para o próprio Flamengo? Um Vasco quebrado e incapaz de competir ou um Vasco forte, organizado e novamente disputando títulos?
A resposta, para mim, é bastante óbvia.
O Vasco não é simplesmente mais um clube brasileiro. É uma das instituições mais importantes da história do futebol nacional. Sua trajetória está ligada à luta contra o racismo e à democratização do esporte, sua torcida ultrapassa as fronteiras do Brasil e seus grandes jogadores ajudaram a construir a memória do futebol brasileiro.
Roberto Dinamite, Romário, Edmundo, Juninho Pernambucano, Bebeto e tantos outros passaram por São Januário. O clube revelou talentos, ganhou títulos nacionais e internacionais e protagonizou durante décadas uma das maiores rivalidades do país.
O próprio nome “Clássico dos Milhões” explica parte dessa dimensão.
Flamengo e Vasco não precisam de um dos dois em crise para que a rivalidade exista.

Na verdade, acontece justamente o contrário. Quando os dois estão fortes, o clássico ganha importância, audiência, público e repercussão. Quando os dois disputam títulos, o futebol carioca ganha força.
E isso interessa ao Flamengo. Ou deveria interessar.
Um Flamengo forte contra um Vasco forte é muito mais interessante do que um Flamengo forte contra um Vasco que passa anos tentando simplesmente sobreviver.
O Vasco está em recuperação judicial e pretende contratar. É uma situação que naturalmente exige atenção.
O clube pediu autorização para um novo empréstimo de R$ 150 milhões, que seria utilizado para manter o fluxo de caixa até o final do ano e permitir a contratação de jogadores. A Justiça, porém, determinou diligências antes de analisar o pedido, incluindo uma auditoria.
Portanto, não existe simplesmente um cenário em que o Vasco recebeu R$ 150 milhões e saiu às compras.
Existe um processo judicial em andamento.
O clube também avalia recorrer da decisão e, diante da demora, já considera alternativas no mercado. Jogadores livres e empréstimos podem ganhar prioridade, enquanto contratações mais caras, como as de Brian Rodríguez e John Mercado, podem ficar em segundo plano.
É uma situação delicada, mas que faz parte da tentativa de reconstrução de uma instituição que passou por anos de problemas financeiros e administrativos.
E aqui aparece uma diferença importante: questionar o Vasco é legítimo; tratar sua reconstrução como uma ameaça ao futebol brasileiro é outra coisa.
A gestão de Pedrinho já gastou perto de R$ 200 milhões em atacantes, segundo os números divulgados. Entre as contratações estão Emerson Rodríguez, Maxime Domínguez, Jean David, Garré, Nuno Moreira, Loide Augusto, Andrés Gómez, Hinestroza, Spinelli, Brenner e Facundo Colidio, além de Alex Teixeira, contratado sem custos, e outros movimentos por empréstimo.
O investimento não resolveu todos os problemas. O Vasco continua procurando um meio-campista e atravessa uma sequência de três partidas sem marcar gols.
Mas existe uma diferença fundamental entre isso e simplesmente jogar dinheiro fora.
O clube está tentando reconstruir um elenco competitivo enquanto reorganiza suas finanças. Pode errar em contratações, pode acertar, pode precisar mudar sua estratégia. Isso faz parte do futebol.

O que não se pode fazer é pressupor que um clube em recuperação judicial deva permanecer eternamente condenado à mediocridade esportiva.
A recuperação judicial deveria servir justamente para que o Vasco possa reorganizar suas obrigações e voltar a funcionar de maneira saudável.
E aqui entra a curiosa memória seletiva do futebol
A discussão sobre fair play financeiro seria muito mais convincente se fosse tratada sempre da mesma maneira, independentemente do tamanho do clube.
O Flamengo de hoje é uma potência financeira. Isso é inegável e precisa ser reconhecido. O clube aumentou receitas, profissionalizou sua administração e construiu uma estrutura econômica muito superior àquela que possuía em períodos anteriores.
Mas também é importante lembrar que o Flamengo não nasceu como a potência financeira atual.
Houve um longo processo de reorganização das contas rubro-negras até que o clube chegasse ao patamar de hoje. E isso deveria servir de argumento a favor da recuperação de outros gigantes, não contra ela.
Mais do que isso: o Flamengo também fez investimentos gigantescos no mercado.
Somente na gestão atual, os gastos com contratações ultrapassaram R$ 900 milhões, considerando direitos econômicos, luvas e comissões. Lucas Paquetá sozinho representou uma operação que chegou a mais de R$ 315 milhões.
Novamente: isso não significa que o Flamengo tenha feito algo errado.
Se está dentro das regras, deve contratar.
Mas exatamente a mesma lógica precisa valer para o Vasco.
O valor de uma contratação não determina sozinho se existe fair play ou não. O contexto financeiro, a origem dos recursos, as garantias e o cumprimento das regras é que precisam ser analisados.
Existe ainda outra ironia nessa discussão…
O Flamengo possui uma capacidade financeira muito maior que a do Vasco, mas dinheiro não elimina todos os problemas. O clube também fechou o primeiro semestre de 2026 com déficit, enquanto os custos relacionados aos contratos de jogadores cresceram.
Isso não coloca Flamengo e Vasco no mesmo patamar. Seria absurdo fazer essa comparação.
O Flamengo tem uma estrutura financeira muito mais sólida e não está vivendo a mesma situação jurídica complicada do Vasco.
Mas serve para lembrar que o futebol não funciona apenas com grandes receitas e grandes contratações. Até os clubes mais ricos precisam controlar fluxo de caixa, salários, amortizações, luvas, comissões e compromissos futuros.
Por isso, se a discussão é realmente sobre responsabilidade financeira, ela precisa ser técnica.
Não deveria ser uma arma utilizada contra um adversário.
Talvez esse seja o ponto que mais incomode na atual discussão.
Um Vasco forte não representa necessariamente um problema para o Flamengo. Representa uma oportunidade.
Um Vasco competitivo significa clássicos mais importantes. Significa mais audiência. Significa mais interesse nacional. Significa estádios cheios. Significa maior valor comercial para o futebol carioca.

Imagine Flamengo e Vasco disputando um jogo de Libertadores.
Imagine os dois brigando pelo título do Campeonato Brasileiro.
Imagine outra final de Copa do Brasil entre os dois.
Isso não diminui o Flamengo.
Pelo contrário.
Vencer um Vasco forte vale mais esportivamente do que vencer um rival enfraquecido por anos de crise.
Um gigante não fica menor porque outro gigante volta a crescer.
A história do Vasco deveria ser tratada como patrimônio do futebol brasileiro
Há uma razão para o Vasco despertar tanta paixão mesmo depois de tantos anos difíceis.
Não é apenas futebol. É história. É identidade. É uma torcida espalhada pelo Brasil. É a camisa que carrega a cruz de malta. É São Januário. É a memória de Dinamite. É a Resposta Histórica.
É a luta contra o racismo no futebol.
É uma instituição que ajudou a transformar o esporte brasileiro.
Por isso, a recuperação do Vasco interessa ao próprio futebol brasileiro.
O país não ganha nada quando seus grandes clubes desaparecem da disputa. O que o futebol brasileiro precisa é de mais clubes fortes, profissionalizados e financeiramente responsáveis.
O Vasco precisa voltar a ser um deles.
Existe uma preocupação legítima com a possibilidade de clubes gastarem dinheiro que não possuem. Se isso acontecer, as regras precisam ser aplicadas.
O problema surge quando o discurso de responsabilidade financeira começa a produzir outro efeito: impedir que clubes tradicionais recuperem sua capacidade competitiva enquanto aqueles que já possuem enormes receitas continuam ampliando sua vantagem.
Isso seria péssimo para o Brasil.
O fair play financeiro deveria criar equilíbrio e sustentabilidade, não congelar a hierarquia atual do futebol.
Se o Vasco encontrar financiamento legal, aumentar suas receitas, cumprir seu plano de recuperação, pagar suas dívidas e respeitar as regras para contratar, não há razão para que seja impedido de voltar a disputar títulos.
É justamente esse o objetivo de uma reconstrução.
O Flamengo não precisa defender o Vasco.
Não precisa emprestar dinheiro ao Vasco.
Não precisa ajudar a contratar jogadores.
Não precisa abrir mão de nenhuma vantagem competitiva.
Mas deveria entender uma coisa que parece bastante simples: o futebol brasileiro fica melhor quando seus gigantes estão fortes.
O Flamengo já provou que é possível sair de uma situação financeira complicada, reorganizar a administração e transformar o clube em uma potência.
O Vasco está tentando fazer algo semelhante, embora parta de uma situação muito mais complicada.
É natural que existam críticas. É necessário fiscalizar. É fundamental cobrar responsabilidade.
Mas torcer é, pior que isso, se esforçar para que o Vasco não consiga se reconstruir é outra história.
E é aí que a tese de que o movimento do Flamengo seria automaticamente “pelo bem do futebol brasileiro” fica difícil de sustentar.
O Vasco não precisa de privilégio. Precisa de oportunidade para se reconstruir dentro das regras.
Precisa pagar suas dívidas, organizar suas contas, aumentar receitas, profissionalizar processos e montar um elenco que caiba no orçamento.
Mas também precisa voltar a competir.
Porque o futebol brasileiro já tem clubes demais vivendo crises intermináveis. O que falta não é mais um gigante enfraquecido. Falta justamente recuperar aqueles que deveriam estar brigando na parte de cima da tabela.
O Vasco tem torcida, história, marca, estádio, tradição e um dos maiores patrimônios culturais do futebol brasileiro. Tem tudo para voltar a ser o Gigante que disputa e vence vários títulos.
E, quando isso acontecer, o Flamengo continuará sendo Flamengo.
Só que terá novamente um adversário à altura.
No fim das contas, talvez essa seja a maior ironia de toda a história: um Vasco forte não é uma ameaça ao Flamengo. É uma das melhores coisas que poderiam acontecer ao próprio Flamengo e ao futebol brasileiro.
O fair play deve ser respeitado por todos. As regras precisam valer para todos. Mas a grandeza do futebol brasileiro também depende de permitir que seus grandes clubes voltem a ser grandes.

E o Vasco, gostem ou não seus adversários, é grande demais para ser tratado apenas como um problema financeiro.
A posição de Venê transforma uma disputa regulatória em narrativa moral
É justamente nesse ponto que a declaração de Venê Casagrande merece ser contestada.
Dizer que a iniciativa é uma “contribuição para o bem do futebol brasileiro” pressupõe que o Flamengo esteja agindo principalmente em defesa do coletivo.
Os fatos permitem uma interpretação mais simples: o Flamengo está defendendo uma posição regulatória que considera correta e que também protege seus interesses competitivos.
Não há nada de errado nisso.
Clubes defendem seus interesses.
O Vasco faz isso.
O Flamengo faz isso.
O Palmeiras faz isso.
O Corinthians faz isso.
O Botafogo faz isso.
O que não parece razoável é exigir que o público aceite uma ação de um dos concorrentes como se ela fosse equivalente à atuação de um órgão regulador independente.
A ANRESF existe justamente para isso.
A questão decisiva do fair play brasileiro não será saber se o Vasco poderá contratar.
Será descobrir se o sistema terá coragem de impor limites também aos clubes mais poderosos.
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