Dirigido por Suzana Garcia, Minha Melhor Amiga leva uma amizade real para as telas e entrega um humor já conhecido, porém eficiente dentro das comédias populares brasileiras
Quando os atores se divertem fazendo um filme, isso costuma transparecer na tela com muito mais facilidade. No caso da representação de duas grandes amigas, interpretadas por atrizes que são melhores amigas há mais de 30 anos, o sentimento que prevalece é o de que Minha Melhor Amiga é um projeto dos sonhos para ambas.
Não à toa, Ingrid Guimarães e Mônica Martelli abraçam um verdadeiro co-protagonismo, transformando a química entre as duas no principal elemento da produção e em um possível combustível para uma das maiores bilheterias nacionais de 2026. Ainda assim, o filme pouco apresenta de realmente novo.
Minha Melhor Amiga conta a história de Clara, Ingrid Guimarães, e Júlia, Mônica Martelli, duas grandes amigas que vivenciam as dificuldades femininas e maternais da vida após os 50 anos. Quando as filhas adolescentes de ambas vão estudar na Europa, Clara e Júlia também decidem viver uma aventura pelos cenários exuberantes do verão de Portugal e da Espanha. Entre muitos diálogos e reflexões sobre sexualidade, liberdade feminina, casamento, maternidade e outras questões, as duas redescobrem o amor-próprio e revisitam o próprio papel enquanto mulheres.

Mônica Martelli e Ingrid Guimarães nos bastidores de “Minha Melhor Amiga”- Divulgação Paris Filmes
Em diversos momentos, é engraçado imaginar que a câmera simplesmente ficou ligada enquanto Guimarães e Martelli se soltavam diante dela e conversavam sobre o que desse na telha. Afinal, o humor e as interações surgem de maneira tão natural que parece difícil imaginar outras duas atrizes transmitindo a mesma dinâmica.
Lembrar de outras produções de ambas neste momento é quase natural, mas lembrar do saudoso Paulo Gustavo e imaginar o quanto ele amaria este filme é uma questão bem mais profunda. A ausência do ator e comediante parece exalar em cada poro e situação, revelando mais uma vez a força de uma comédia popular brasileira que se retroalimenta de referências, afetos e de uma linguagem que atravessa gerações.
Quando experimentam lingeries, fofocam no quarto ou simplesmente saem andando pela Europa, há uma espontaneidade que funciona e proporciona momentos genuinamente divertidos. Porém, considerar o filme algo além de uma comédia popular brasileira feita para descontrair é esperar mais do que ele pretende oferecer.
Os momentos dramáticos, que discutem as dificuldades de ser uma mulher livre aos 50 anos, são pontuais. Apesar da dedicação das duas atrizes e da tentativa de transformar essas questões em momentos de reflexão, os conflitos parecem soltos dentro da narrativa, como se existissem apenas para cumprir uma função específica. A produção toca em situações relacionadas à sexualidade, à liberdade e aos comportamentos esperados de mulheres na meia-idade, mas raramente se aprofunda nelas.
A interação de Ingrid e Mônica com suas filhas, interpretadas por Giulia Benite e Gabi Amaral, é orgânica, e o arco em que as adolescentes passam a ensinar as mães provoca uma interessante inversão de hierarquia. É justamente nessa troca entre gerações que Minha Melhor Amiga encontra algumas de suas melhores possibilidades, ainda que não consiga explorá-las completamente. Mas existe algo de realmente memorável na produção?

Mônica Martelli e Ingrid Guimarães em cena de “Minha Melhor Amiga”- Divulgação Paris Filmes
Depende.
Como uma grande homenagem à amizade, Minha Melhor Amiga funciona como um exemplo de como um filme pode cativar o público a partir de um elenco carismático, paisagens bonitas e piadas direcionadas a um público muito específico. Mesmo quando as piadas não acertam tanto, existe uma identificação evidente com as personagens e com a dinâmica entre as protagonistas. E o fato de Ingrid Guimarães e Mônica Martelli também terem participado do roteiro não parece ser por acaso: há uma consciência muito clara sobre o público que o filme deseja alcançar.
Em contrapartida, tecnicamente, a produção aparenta ser plástica e branca demais, como se houvesse um receio de realmente ousar e transformá-la em algo maior do que uma comédia popular. Os riscos não estão presentes, as músicas são tradicionais demais, e depois de algum tempo, esse conforto começa a pesar. A audiência se vê diante de momentos soltos, reflexões pontuais e piadas que são consideravelmente menos engraçadas do que parecem ser em um primeiro momento.
A ousadia e a coragem para levar essas atrizes a novos patamares não estão presentes. É mais um filme tradicional, com cenas engraçadas, reflexões que raramente são aprofundadas e um momento histórico e pessoal para duas atrizes cuja amizade atravessa décadas. Nós, como audiência, podemos comemorar esse encontro na tela, mas jamais sentiremos exatamente o orgulho e o significado que ele representa para ambas.

Mônica Martelli e Ingrid Guimarães em cena de “Minha Melhor Amiga”- Divulgação Paris Filmes
Quando Minha Melhor Amiga começa com fotografias de Ingrid e Mônica crescendo juntas, existe uma beleza genuína na proposta e uma camada emocional que contextualiza aquela amizade. Porém, fica uma pergunta inevitável: isso diz mais sobre o filme ou sobre elas?
A mensagem sobre a solidão e sobre como o amor romântico não é a única forma de apoio que temos na vida é potente, ainda que esteja longe de ser original. No fim, talvez o que reste seja justamente isso: acompanhar duas amigas que carregam para as telas uma relação construída ao longo de décadas e desfrutar dessa jornada pelo que ela é, sem exigir dela uma profundidade que o filme nunca pareceu disposto a alcançar.
Distribuído pela Paris Filmes, Minha Melhor Amiga chega aos cinemas no dia 3 de setembro.
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