Dirigido por Jorge Furtado, Muito Prazer encontra no absurdo das relações humanas uma comédia leve, irônica e genuinamente divertida
Quando Jorge Furtado anuncia um novo filme, existe uma expectativa natural em torno de sua capacidade de transformar ideias aparentemente simples em narrativas inventivas. Ao longo da carreira, o diretor construiu uma marca autoral baseada em diálogos afiados, personagens comuns colocados diante de situações absurdas, humor irônico e uma constante subversão das expectativas.
Furtado demonstra compreender como extrair comicidade de situações que, nas mãos de um cineasta menos experiente, ou mais interessado em ridicularizar seus personagens, poderiam facilmente se tornar constrangedoras. Muito Prazer funciona justamente porque encontra humanidade onde seria fácil encontrar apenas o absurdo.
A princípio, Muito Prazer poderia ser definido simplesmente como uma comédia sobre sexo. O curioso, porém, é que Furtado fala sobre o tema sem depender da nudez explícita ou da vulgaridade. Sexo aparece como algo natural, mas também como espaço de insegurança, desejo, fantasia, intimidade e exposição.

Luisa Arraes, Samantha Jones e Daniel de Oliveira em cena de “Muito Prazer”- Credito Fabio Rebelo
Questões relacionadas a orgasmo, pornografia, privacidade e fetiches nunca precisam ser transformadas em grandes discursos para que estejam presentes. Elas surgem nas entrelinhas, incorporadas às relações entre os personagens e às situações cada vez mais improváveis que envolvem o motel Pérola. É justamente essa naturalidade que torna a abordagem mais madura: o filme não trata o sexo como tabu, mas também não precisa banalizá-lo para fazer graça.
A estrutura narrativa acompanha essa proposta. Grace, Rubem e Nalva são colocados diante de uma situação que começa relativamente simples e, aos poucos, ganha proporções maiores, criando uma espécie de efeito dominó. Enquanto os três tentam transformar um motel decadente em um negócio lucrativo, cada nova decisão gera outra consequência, permitindo que o roteiro explore o humor a partir da escalada do absurdo. A interação entre o trio é um dos principais motores da produção, especialmente porque Furtado não precisa transformar seus protagonistas em caricaturas para encontrar graça neles.
Ainda assim, os personagens poderiam receber um desenvolvimento maior. Nenhum dos três passa por uma transformação particularmente profunda, e algumas decisões parecem acelerar acontecimentos que poderiam ser melhor trabalhados. Essa característica fica ainda mais evidente entre os personagens secundários, principalmente nas “vilãs” do motel localizado em frente ao Pérola.
Introduzidas como figuras capazes de provocar um conflito muito maior, elas aparecem relativamente tarde e desaparecem antes que o filme consiga explorar todo o potencial dessas personagens. Há nelas um exagero quase cartunesco, que poderia remeter ao humor de produções como Castelo Rá-Tim-Bum, mas a narrativa não lhes concede tempo suficiente para que essa possibilidade seja plenamente aproveitada.

Luisa Arraes em cena de “Muito Prazer”- Credito Fabio Rebelo
É justamente aí que Muito Prazer revela um potencial que talvez ultrapasse os limites de seu próprio longa-metragem. A quantidade de personagens, situações e possibilidades cômicas presentes naquele universo faz imaginar como essa história poderia funcionar em um formato seriado. Não porque o filme seja incompleto, mas porque Furtado constrói um pequeno ecossistema ao redor do motel, onde diferentes tipos de personagens poderiam protagonizar histórias próprias. A estrutura lembra, nesse sentido, a capacidade que produções como Cine Holliúdy (2019, Halder Gomes) encontraram de expandir um universo cômico para além de sua história original.
Visualmente, Muito Prazer também carrega algumas escolhas que dialogam com essa transformação. A fotografia dominada por tons pastéis e acinzentados cria inicialmente uma sensação de decadência adequada ao motel e à situação dos protagonistas. Na medida que o trio passa a acreditar mais no empreendimento, entretanto, essa estética poderia acompanhar de maneira mais evidente a mudança de espírito dos personagens e daquele espaço. Cores mais exuberantes, maior contraste e uma direção de arte mais inventiva poderiam tornar visualmente perceptível essa transformação.
A utilização das câmeras de vigilância e a alternância entre diferentes linguagens audiovisuais, por outro lado, funcionam como ferramentas narrativas eficientes e dialogam com uma característica recorrente do cinema de Furtado: a capacidade de incorporar diferentes formas de representação à própria estrutura da história.

Luisa Arraes, Samantha Jones e Daniel de Oliveira em cena de “Muito Prazer”- Distribuição Elo Studios
Mas é no roteiro que Muito Prazer encontra sua maior força. Furtado entende que o humor não precisa nascer apenas da piada, mas também da maneira como uma situação aparentemente comum é levada ao seu limite. Rubem se vestir de mulher para proteger a identidade de Grace, por exemplo, funciona menos pela premissa em si do que pela combinação entre absurdo, quebra de expectativa e a humanidade com que a situação é conduzida. O mesmo vale para as discussões sobre suítes temáticas brasileiras, camisas de times de futebol e diferentes formas de consumir ou imaginar o sexo. Nem tudo necessariamente movimenta a narrativa, mas quase tudo acrescenta alguma camada ao universo do filme.
Essa é uma característica que aproxima Muito Prazer de outras obras de Furtado, inclusive de sua produção televisiva, como Todas as Mulheres do Mundo: a necessidade de manter a narrativa em movimento por meio de ideias, personagens e situações constantemente inventivas. Nem sempre essas escolhas precisam cumprir uma função dramática convencional. Algumas existem simplesmente porque são curiosas, engraçadas ou capazes de provocar uma nova associação no espectador.
Em uma realidade na qual praticamente qualquer situação pode ser transformada em meme ou motivo de escárnio, Jorge Furtado prefere encontrar humor sem abandonar a empatia. É uma comédia simples, por vezes irregular e com potencial narrativo maior do que consegue explorar, mas conduzida por um cineasta que sabe transformar situações banais em algo genuinamente curioso.
Muito Prazer não precisa reinventar a comédia brasileira para funcionar: basta uma premissa simples, diálogos leves e interessantes, personagens comuns e espaço suficiente para deixar o absurdo tomar conta da situação.
Distribuído pela Elo Studios, Muito Prazer chega aos cinemas em 27 de agosto de 2026.
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