A ancestralidade afro-brasileira chega ao palco do Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, em uma noite que reúne música, dança, teatro, Capoeira Angola e memória. No dia 9 de setembro de 2026, às 19h30, o público poderá assistir gratuitamente ao espetáculo Gungas, Marimbas e Urucungos em Encantorias Ancestrais, protagonizado por jovens de cinco comunidades quilombolas do Maranhão.
A apresentação marca o encerramento de uma turnê que passou por Parnaíba, no Piauí; São Luís e Itapecuru-Mirim, no Maranhão; e Belém, no Pará. No Rio, mais de 50 artistas sobem ao palco para apresentar uma criação que transforma saberes ancestrais em uma experiência cênica contemporânea.
Realizado pelo Centro Cultural e Educacional Mandingueiros do Amanhã, o espetáculo coloca a juventude quilombola no centro da narrativa. Capoeiristas, músicos, atores, bailarinos e integrantes da tradicional Orquestra de Berimbaus participam da montagem.
O resultado é uma celebração da cultura afro-brasileira a partir de quem vive, aprende e mantém essas tradições.
Capoeira Angola como memória e resistência
Em Gungas, Marimbas e Urucungos em Encantorias Ancestrais, a Capoeira Angola aparece muito além de sua dimensão corporal.
A montagem apresenta os ritos, cantos, instrumentos e musicalidade da capoeira em diálogo com outras manifestações culturais de matriz africana. Entre elas estão o tambor de crioula, o bumba meu boi e o samba.
Essa combinação permite ao espetáculo apresentar uma cultura que não permanece congelada no passado. Pelo contrário, os jovens participantes ressignificam esses conhecimentos e demonstram como eles continuam presentes na formação cultural brasileira.
A Capoeira Angola torna-se, assim, uma linguagem para falar de identidade, espiritualidade, resistência e pertencimento.
A montagem também reforça a importância da transmissão dos saberes entre gerações. Mestres e comunidades tradicionais preservam conhecimentos que chegam aos jovens, que passam a ocupar o papel de novos agentes dessa história.
É justamente essa continuidade que dá força ao espetáculo.
O elenco reúne jovens das comunidades quilombolas Vila da Fé em Deus, em Santa Rita, e Santa Luzia, Santa Joana, Santa Rosa e Oiteiro dos Nogueiras, em Itapecuru-Mirim.
Para esses artistas, viajar por diferentes estados e apresentar sua produção cultural em grandes espaços representa uma experiência que ultrapassa o palco.
A circulação permite que a juventude quilombola apresente suas próprias referências culturais para públicos de diferentes regiões, enquanto amplia suas possibilidades de formação e atuação artística.
Um dos exemplos é Josielma da Conceição Rodrigues, de 21 anos, moradora do Quilombo Santa Joana, em Itapecuru-Mirim.
A jovem destaca a capacidade da capoeira de transformar trajetórias e abrir novos caminhos. Sua própria história traduz esse processo: a prática contribuiu para que conquistasse oportunidades educacionais, incluindo seu ingresso na Universidade Federal do Maranhão.
Esse protagonismo é um dos aspectos mais importantes do projeto.
Em vez de transformar comunidades tradicionais em objeto de representação, o espetáculo coloca seus próprios jovens como artistas e narradores de uma experiência cultural que lhes pertence.
A apresentação no Rio também simboliza quase três décadas de trabalho do Centro Cultural e Educacional Mandingueiros do Amanhã.
A instituição foi fundada em 1997 e desenvolve ações socioculturais voltadas para crianças, adolescentes e jovens em São Luís, no Maranhão.
Nos últimos dez anos, ampliou sua atuação para comunidades quilombolas do estado, desenvolvendo oficinas de capoeira, música, dança e outras manifestações afro-brasileiras.
O trabalho combina formação cultural e formação cidadã, utilizando a arte como ferramenta para fortalecer a identidade e a autoestima de jovens negros.
Para Mestre Bamba, fundador do Centro Cultural Mandingueiros do Amanhã e diretor artístico do espetáculo, ver esses jovens ocupando o protagonismo representa a concretização de um projeto construído durante décadas.
A proposta não é apenas ensinar cultura. É permitir que os participantes se tornem fazedores de cultura.
A trajetória também conta com a participação de Mestra Valdira Barros, fundadora da instituição e cocriadora do espetáculo. Seu trabalho reforça a dimensão de continuidade da iniciativa, especialmente na preservação da Capoeira Angola e na valorização da juventude negra.
Dividido em oito atos, o espetáculo conduz o público por diferentes momentos em que linguagens artísticas se encontram.
A Orquestra de Berimbaus ocupa um papel central na montagem. Tambores e pandeirão também integram a sonoridade, criando uma atmosfera em que a música conduz o diálogo entre capoeira, dança e teatro.
A própria escolha do título — Gungas, Marimbas e Urucungos em Encantorias Ancestrais — remete ao universo dos instrumentos, dos sons e dos saberes que atravessam a tradição.
A montagem utiliza essa dimensão musical para contar uma história de resistência do povo negro.
Não se trata apenas de apresentar uma sequência de manifestações culturais. O espetáculo constrói uma experiência em que os diferentes elementos se relacionam para evidenciar a permanência da ancestralidade africana na cultura brasileira.
A Capoeira ocupa um lugar singular entre as manifestações culturais brasileiras.
Reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, ela reúne elementos que normalmente seriam classificados em diferentes campos: luta, dança, música, filosofia, ritual e transmissão de conhecimento.
Sua importância está justamente nessa combinação.
Ao levar a Capoeira Angola ao Teatro Carlos Gomes pelas mãos de jovens quilombolas, Gungas, Marimbas e Urucungos em Encantorias Ancestrais apresenta ao público uma tradição que continua sendo construída no presente.
A ancestralidade, nesse caso, não aparece como algo distante.
Ela está no corpo dos artistas, nos instrumentos, nos cantos, nos movimentos e nas histórias transmitidas entre gerações.
O espetáculo evidencia ainda como as comunidades quilombolas continuam exercendo papel fundamental na preservação e renovação de saberes afro-brasileiros.
A chegada ao Rio de Janeiro encerra uma circulação que atravessou quatro estados e aproximou diferentes públicos de uma produção construída a partir da juventude quilombola maranhense.
A iniciativa é realizada pelo Centro Cultural e Educacional Mandingueiros do Amanhã e pelo Ministério da Cultura, com patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Rouanet.
No Teatro Carlos Gomes, a apresentação ganha uma dimensão simbólica: o palco carioca se transforma em espaço para uma expressão cultural construída nas comunidades quilombolas do Maranhão.
E o público poderá conhecer essa produção gratuitamente.
Mais do que assistir a uma apresentação de capoeira, o espetáculo propõe um encontro com histórias, sons, movimentos e memórias que ajudam a compreender a formação cultural brasileira.
Gungas, Marimbas e Urucungos em Encantorias Ancestrais chega ao Rio como uma celebração da juventude que recebe a herança de seus ancestrais e, ao mesmo tempo, encontra novas maneiras de mantê-la viva.
Serviço
Espetáculo: Gungas, Marimbas e Urucungos em Encantorias Ancestrais
Data: 9 de setembro de 2026, quarta-feira
Horário: 19h30
Local: Teatro Carlos Gomes – Rio de Janeiro (RJ)
Entrada: Gratuita
Ingressos: retirada gratuita pela Sympla
Acessibilidade: audiodescrição e intérprete de Libras
Informações: @mandingasemandingueiros
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