Dirigido por Carlos Saldanha, 100 Dias retrata a jornada de Amyr Klink por meio de uma construção grandiosa e extremamente limitada, colocando o aventureiro sob uma luz que está longe de ser necessariamente positiva
Amyr Klink é um dos nomes mais reconhecidos da navegação brasileira e mundial. Sua jornada pelo Atlântico, sozinho em um barco a remo, tornou-se uma inspiração para atletas e aventureiros até os dias de hoje. Na época, somente o próprio navegador poderia dimensionar o caráter histórico daquele feito; décadas depois, seria apenas uma questão de tempo até que essa jornada surreal chegasse aos cinemas.
Essa missão coube a Carlos Saldanha. Segundo o próprio Amyr Klink relatou em conversa antes da sessão de imprensa, o diretor de A Era do Gelo (2002, Chris Wedge e Carlos Saldanha) foi minucioso ao reconstruir sua trajetória, buscando reproduzir situações e detalhes da preparação e da travessia. O problema é que tanta atenção aos pormenores acaba evidenciando uma questão fundamental: quanto tempo uma audiência consegue assistir a Filipe Bragança remando, sofrendo e sendo teimoso antes de começar a se perguntar quanto falta para essa jornada terminar?
O que poderia ser uma odisseia particular nos níveis de A Vida de Pi (2012, Ang Lee) transforma-se em uma experiência tediosa, quase sisífica e, sobretudo, repetitiva. Existe um ciclo bastante evidente na maneira como Amyr Klink encara sua jornada em 100 Dias. Ele possui uma relação complicada com o pai, que nunca é realmente aprofundada; uma relação próxima com a mãe e o irmão, que acabam reduzidos a pouco mais do que cascas de pessoas importantes para ele; e uma série de indivíduos que tentam ajudá-lo, mas são rapidamente afastados pelo ego do jovem navegador.
Enquanto os livros de Klink se tornaram quase bíblias de autoconfiança, persistência e superação, 100 Dias apresenta um jovem constantemente imaturo, que rejeita as pessoas dispostas a ajudá-lo para, pouco depois, perceber que estava errado. O homem responsável pela construção do barco, a mulher que prepara as comidas desidratadas para a viagem, o capitão que indica o melhor caminho: todos são desacreditados por Klink porque, em sua convicção, ele acredita saber mais do que todos ao seu redor.

Filipe Bragança em cena de “100 Dias”- Divulgação Buena Vista International
Até mesmo a almofada preparada por sua mãe para o assento do remo é utilizada apenas uma vez, justamente depois que Klink sente as consequências físicas de passar o dia inteiro remando. Entre o presente da travessia oceânica e as memórias da preparação para a viagem, tudo parece grandioso e espetacular. O problema é que a sensação de tensão é praticamente inexiste por uma razão bastante simples: nós sabemos que ele chegou ao destino.
Sem essa tensão básica, 100 Dias não consegue tornar sua jornada suficientemente interessante. Há belas sequências de fotografia ao lado de momentos que denunciam claramente sua construção em estúdio, como a sequência da baleia. E, depois de mais de uma hora e meia acompanhando o navegador remando e cometendo essencialmente os mesmos erros, o desgaste deixa de ser uma consequência da própria viagem e passa a ser uma consequência da estrutura do filme.
No livro, temos as reflexões em primeira pessoa e momentos genuinamente íntimos que permitem compreender o homem por trás da aventura. No longa, porém, essa interioridade desaparece. Não chegamos a simpatizar com aquele jovem, mas ele é praticamente a única pessoa que temos para acompanhar durante a travessia, e por consequência, somos obrigados a permanecer ao seu lado, mesmo quando o filme não oferece razões suficientes para isso.
E existe uma história potencialmente muito mais interessante escondida em 100 Dias. Antes da sessão de imprensa, o próprio Klink contou sobre a noite anterior à viagem, marcada por uma sucessão de desavenças que poderia render uma espécie de Depois de Horas (1985, Martin Scorsese) brasileiro.

Filipe Bragança em cena de “100 Dias”- Divulgação Buena Vista International
É difícil não pensar em por que 100 Dias não escolheu explorar esse momento, em vez de investir tanto tempo na repetição de acontecimentos que não são particularmente intrigantes, potentes ou inovadores. E, infelizmente, nenhuma dessas três palavras parece adequada para definir a maneira como o filme transforma a verdadeira jornada de Klink em cinema.
À medida que o longa avança, a travessia simplesmente não se torna suficientemente envolvente. Klink enfrenta problemas físicos, tubarões, o peso adicional causado pelas cracas no barco e outras adversidades, mas nada disso consegue produzir uma catarse realmente grandiosa. As melhores sequências pertencem justamente às animações que representam visualmente os diferentes momentos da jornada, mas nem mesmo elas são suficientes para oferecer ao filme a fluidez necessária.
Uma história tão inspiradora acaba perdendo sua essência quando não conseguimos acompanhar de verdade suas dores, seus medos e seus conflitos interiores. Resta o aspecto externo da aventura como principal guia narrativo, e esse exterior, por mais espetacular que seja, não consegue carregar sozinho o peso dramático de uma história como essa.
Ao final, 100 Dias possui elementos que podem explicar sua presença na shortlist brasileira para uma possível indicação ao Oscar de 2027, mas isso não significa que o filme consiga transformar sua matéria-prima extraordinária em uma experiência cinematográfica igualmente marcante.
Falta fluidez, falta tensão e, principalmente, falta uma perspectiva capaz de transformar a jornada de Amyr Klink em algo mais do que uma sucessão de acontecimentos grandiosos. Uma história que já nasceu extraordinária merecia encontrar no cinema uma forma igualmente extraordinária de ser contada.
Distribuído pela Buena Vista International, 100 Dias foi selecionado para a Gala de Encerramento Brasileira do 28º Festival do Rio e chega aos cinemas brasileiros em 29 de outubro de 2026.
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