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N. T. Rama Rao Jr. e Ram Charan em cena de 'RRR'- Divulgação Netflix
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘RRR’ transforma história de amizade em pura catarse emocional

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 23 de outubro de 2026
6 Min Leitura
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N. T. Rama Rao Jr. e Ram Charan em cena de 'RRR'- Divulgação Netflix
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Dirigido por S. S. Rajamouli, RRR entrega um espetáculo grandioso, sustentado por uma combinação de planos mirabolantes, energia contagiante e muito coração.

Embora tenha chegado à Netflix em 2022, só tive o prazer de assistir a RRR durante uma sessão especial da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Em uma sala praticamente lotada, aplausos, gritos e reações emocionadas dominaram o ambiente. Quando percebi, as três horas e sete minutos de duração haviam passado em um piscar de olhos. Minha dúvida era inevitável: por que nunca havia assistido a esse filme antes?

Apesar de se inspirar em dois personagens históricos, a produção de Rajamouli passa longe de uma representação realista dos acontecimentos. Quando seus protagonistas derrotam dezenas de homens com um único soco, enfrentam tigres e realizam acrobacias dignas de super-heróis, a precisão histórica cede espaço ao espetáculo, enquanto o contexto político funciona como pano de fundo para a aventura.

Essa escolha, contudo, não está livre de controvérsias. Críticos e estudiosos indianos apontam problemas na representação dos protagonistas: Raju é associado a uma posição social superior e apresentado como mais racional e estoico, enquanto Bheem assume características próximas às do chamado “bom selvagem”, uma figura inocente que precisa ser guiada para compreender a sociedade.

Ram Charan em cena de 'RRR'- Divulgação Netflix

Ram Charan em cena de ‘RRR’- Divulgação Netflix

Essa dinâmica pode reproduzir uma visão paternalista, segundo a qual comunidades tradicionais dependeriam de uma figura externa para se organizar e enfrentar a opressão. É uma questão relevante, especialmente diante da luta contra o imperialismo britânico retratada pelo filme, ainda que a complexidade política não seja seu principal objetivo.

Não tenho conhecimento aprofundado o suficiente para situar RRR em toda a tradição cinematográfica indiana, mas, se a intenção de Rajamouli era provocar catarse, o resultado é inegável. O diretor constrói sequências progressivamente maiores, amplificadas por câmeras lentas, coreografias extravagantes e situações tão absurdas que parecem saídas de uma animação de Looney Tunes. A lógica convencional da ação dá lugar a uma sucessão de excessos que transforma o impossível em parte da diversão.

Enquanto algumas produções contemporâneas da Marvel e de Star Wars parecem confortáveis demais em narrativas previsíveis, sustentadas pela nostalgia e pela repetição de fórmulas, RRR pisa no acelerador sem receio do ridículo. Sua energia remete aos grandes blockbusters de ação dos anos 1980 e 1990, quando a prioridade era surpreender o público com cenas inventivas e personagens carismáticos. Mais do que recuperar essa ousadia, porém, Rajamouli entende que o espetáculo precisa de coração para funcionar.

N. T. Rama Rao Jr. e Ram Charan em cena de 'RRR'- Divulgação Netflix

N. T. Rama Rao Jr. e Ram Charan em cena de ‘RRR’- Divulgação Netflix

Comédia, romance, ação, dança e drama político convivem em uma mesma produção, sustentados por uma fotografia expressiva e efeitos visuais que ampliam a dimensão fantástica das sequências. Não se trata de buscar o realismo ou a seriedade de um Christopher Nolan, mas de ver um homem enfrentar um tigre e sair vitorioso. A lógica aqui é emocional: importa menos acreditar no que acontece do que sentir a força com que cada cena é construída.

No centro dessa experiência está a amizade entre Raju e Bheem. O vínculo entre os dois sustenta a narrativa desde o primeiro encontro, até que seus objetivos entram em conflito. Bheem quer resgatar sua irmã sequestrada pelos britânicos, enquanto Raju precisa se infiltrar no exército colonial para conseguir armas e libertar sua comunidade. O problema é que, para cumprir sua missão, ele precisa capturar o próprio amigo.

A partir daí, a relação entre os protagonistas ganha novas camadas, e a música ajuda a expressar a tensão entre lealdade e dever. A narrativa é simples de acompanhar, mas Rajamouli sabe transformar essa simplicidade em combustível para sequências cada vez mais grandiosas. E isso sem sequer entrar no mérito de Naacho Naacho, uma das demonstrações mais contagiantes da energia do filme.

É possível desejar maior complexidade na abordagem política ou um desenvolvimento mais cuidadoso do romance entre Jenny e Bheem. São elementos que poderiam enriquecer a produção, mas que permanecem em segundo plano diante da proposta central. RRR não pretende ser um retrato histórico definitivo nem um estudo aprofundado do imperialismo: sua essência está na amizade, no sacrifício e na capacidade de enfrentar qualquer obstáculo quando se tem alguém ao seu lado.

N. T. Rama Rao Jr. em cena de 'RRR'- Divulgação Netflix

N. T. Rama Rao Jr. em cena de ‘RRR’- Divulgação Netflix

Pode ser sentimental demais para o universo violento que apresenta, mas essa sinceridade é parte de seu encanto. Rajamouli conduz a narrativa com ritmo, humor e uma disposição admirável para ultrapassar os limites do absurdo. O resultado é um espetáculo que não apenas entretém, mas transforma a experiência coletiva do cinema em parte fundamental de sua força.

Disponível na Netflix, RRR foi exibido em uma sessão especial da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ocasião em que S. S. Rajamouli recebeu o Prêmio Leon Cakoff.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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