Dirigido por James Watkins, Cara-de-Barro representa um caminho interessante para o novo DCU, trazendo um frescor bem-vindo ao gênero de super-heróis, mas também levantando dúvidas sobre a identidade desse universo compartilhado.
Sendo o terceiro filme da fase “Deuses e Monstros” anunciada por James Gunn, Cara-de-Barro se distancia radicalmente de Superman (2025, James Gunn), e Supergirl (2026, Craig Gillespie). Com classificação indicativa para maiores de 18 anos, violência gráfica e o terror como gênero central, a produção acompanha a ruína de um homem que se transforma em monstro. É uma aposta ousada para um universo que ainda busca definir sua própria identidade.
Inicialmente fora dos planos de Gunn, o projeto ganhou espaço após o diretor se impressionar com o roteiro de Mike Flanagan. Inspirado no episódio “Feat of Clay”, de Batman: A Série Animada (1992), o filme constrói uma tragédia de contornos shakespearianos em torno de um dos vilões mais conhecidos do Batman, sem precisar sequer mostrar o herói. Ainda assim, fica a dúvida: como integrar uma produção tão particular a um universo que pretende comportar desde aventuras espaciais até dramas mais tradicionais de super-heróis?
A crise de identidade do DCU merece uma análise à parte, mas é admirável que Gunn permita tamanha liberdade criativa tão cedo. Custando uma fração do orçamento de Supergirl, Cara-de-Barro tem potencial para conquistar o público pelo boca a boca, justamente por oferecer algo que o gênero raramente explora com tanta liberdade: o terror corporal como eixo de uma história trágica.

Tom Rhys Harries em cena de “Cara-de-Barro”- Divulgação Warner Bros Pictures
Cara-de-Barro acompanha Matt Hagen, um ator egocêntrico que, após se envolver com a máfia de Gotham, tem o rosto desfigurado. Desesperado para recuperar o estrelato, ele se submete a um tratamento experimental que lhe concede poderes meta-humanos, mas também ameaça destruir o pouco que resta de sua identidade.
A Gotham de Watkins é suja, corrupta e perigosa. A máfia domina as ruas, a polícia é comprada, a violência faz parte do cotidiano e a atmosfera de tensão combina perfeitamente com a proposta de terror. É uma identidade visual e narrativa que dificilmente funcionaria da mesma maneira em um filme do Superman, mas que encontra aqui o ambiente ideal.
Gunn já defendeu a diversidade de tons do DCU usando os quadrinhos como exemplo, nos quais histórias como O Longo Dia das Bruxas (1996, Jeph Loeb e Tim Sale), coexistem com obras como All-Star Superman (2005, Grant Morrison e Frank Quitely). A diferença é que grande parte do público de cinema nem sempre conhece essas referências ou está disposto a acompanhar propostas tão distintas sem um eixo narrativo que as conecte. A liberdade criativa é um trunfo, mas a construção de uma identidade comum continua sendo um desafio.

Tom Rhys Harries em cena de “Cara-de-Barro”- Divulgação Warner Bros Pictures
Como tragédia individual, a jornada de Hagen funciona. A relação com Caitlyn Corr, uma cientista envolvida no tratamento experimental, oferece um contraponto emocional à degradação física do protagonista. O filme explora a relação entre aparência e identidade, usando a transformação do corpo como expressão da perda de si mesmo. O romance, porém, acaba conduzindo a um desfecho trágico que, apesar de coerente com a proposta, é resolvido depressa demais após quase duas horas de desenvolvimento.
É no terror corporal que Watkins encontra sua maior força. Mutilações, sangue, mordidas e deformações são apresentados sem suavizar a violência. Os efeitos práticos, aliados a um trabalho de câmera que acompanha as constantes mudanças faciais de Hagen, tornam essas sequências particularmente eficazes.
A fotografia também contribui para essa dualidade. Enquanto o neon e o brilho alimentam o ego e a busca por reconhecimento de Hagen, a iluminação mantém uma sensação constante de perigo, juntamente com espelhos e vidros que retratam este olhar do protagonista sempre para si mesmo, afinal, por trás da promessa de glória, existe sempre a possibilidade de tudo desmoronar.

Tom Rhys Harries em cena de “Cara-de-Barro”- Divulgação Warner Bros Pictures
Cara-de-Barro talvez encontre sua melhor recepção no streaming e pelo boca a boca. Não possui a mesma ambição de prestígio de Coringa (2019, Todd Phillips), mas sua proposta apresenta uma âncora desde o começo: o filme precisa operar dentro das limitações de um universo compartilhado. Um projeto completamente independente talvez permitisse a Watkins explorar ainda mais suas possibilidades, sem a necessidade de considerar o futuro da franquia.
No fim, o que permanece é a sensação de ter assistido a um filme corajoso, centrado em um personagem trágico que talvez nunca volte a ocupar esse espaço dentro do DCU. E esse é justamente o paradoxo da produção: Gunn demonstra que seu universo pode abrigar histórias radicalmente diferentes, mas também corre o risco de transformar essa liberdade em uma experiência isolada, sem consequências para o conjunto. E isto é um perigo.
Distribuído pela Warner Bros. Pictures, Cara-de-Barro chega aos cinemas em 22 de outubro.
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