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Hanns Zischler e Sandra Huller em cena de "A Terra do Meu Pai"- Divulgação Mostra SP
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘A Terra do Meu Pai’ é filme poético sobre identidade e pertencimento

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 19 de outubro de 2026
8 Min Leitura
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Hanns Zischler e Sandra Huller em cena de "A Terra do Meu Pai"- Divulgação Mostra SP
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Dirigido por Pawel Pawlikowski, A Terra do Meu Pai segue uma estrutura clássica que, ao mesmo tempo que torna evidente sua mensagem sobre identidade, encontra espaço para desenvolver suas ideias com sensibilidade.

A Terra do Meu Pai é direto na apresentação de seus temas. Pawel Pawlikowski apresenta rapidamente suas peças e as articula de maneira tão precisa que, após apenas 70 minutos de projeção, chegamos aos créditos finais em êxtase, emocionados ao som de “Jesus, Alegria dos Homens” e refletindo sobre tudo o que acabamos de testemunhar.

A Terra do Meu Pai é silencioso e claustrofóbico. A proporção quadrada da imagem amplia essa sensação de confinamento, acompanhando Thomas Mann, Hanns Zischler, e sua filha Erika, Sandra Hüller, no retorno a uma Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial, ainda marcada pelas cicatrizes de um regime brutal.

Em meio à destruição material e moral do continente, aqueles que estiveram alinhados às elites do regime nazista precisam encontrar um lugar em uma sociedade que já não os acolhe da mesma maneira. Para Mann, o retorno à terra natal não significa recuperar um lar, mas confrontar a incerteza de não saber mais a que lugar pertence.

Hanns Zischler e Sandra Huller em cena de "A Terra do Meu Pai"- Divulgação Mostra SP

Hanns Zischler e Sandra Huller em cena de “A Terra do Meu Pai”- Divulgação Mostra SP

Após Ida (2013) e Guerra Fria (2018), Pawlikowski conclui com A Terra do Meu Pai sua trilogia sobre as consequências da Segunda Guerra Mundial com a produção mais direta e, ao mesmo tempo, mais delicada desse conjunto. As discussões propostas pelo longa ultrapassam os limites da tela e permanecem conosco: o que acontece com os derrotados de um grande conflito? Se alguém abandona seu país para sobreviver, ainda pode reivindicar o pertencimento a ele? São questões que não se restringem ao campo político, pois também envolvem dilemas sociais, afetivos e morais.

Em uma escala maior, acompanhamos uma Europa destruída que exige de Mann um posicionamento público. Ele, porém, resiste a assumir o papel que os outros esperam dele, especialmente porque não se identifica com as decisões do regime nazifascista que devastou o continente.

Amigos, colegas e a própria sociedade parecem cobrar uma manifestação que corresponda às expectativas coletivas. Enquanto isso, em uma dimensão mais íntima, ele e Erika enfrentam a rejeição daqueles que os cercam e precisam lidar com um luto que não encontram espaço para expressar. Entre as exigências de um mundo em reconstrução e a dor particular de uma família, Pawlikowski constrói um retrato sobre o esgotamento de quem precisa justificar constantemente a própria existência.

Ao receber a biografia The Magician, de Colm Tóibín, dedicada à vida de Thomas Mann, Pawlikowski optou por se concentrar em um capítulo específico da trajetória do escritor. A escolha é fundamental para a força de A Terra do Meu Pai: em vez de percorrer uma vida inteira, o diretor utiliza um recorte histórico para alcançar questões universais.

Sandra Huller em cena de "A Terra do Meu Pai"- Divulgação Mostra SP

Sandra Huller em cena de “A Terra do Meu Pai”- Divulgação Mostra SP

Assim, mesmo quem desconhece a obra literária de Mann pode se conectar com os dilemas apresentados, que encontram ressonância tanto na experiência individual quanto nas contradições de uma sociedade politicamente dividida. Essa capacidade de transformar um episódio particular em uma reflexão abrangente ajuda a compreender a relevância da produção, escolhida oficialmente pela Polônia como candidata à categoria de Melhor Filme Internacional no 99º Oscar.

Em uma semana particularmente conturbada para o Brasil, com a democracia novamente no centro das preocupações, é difícil não perceber a atualidade de uma história ambientada na primeira metade do século XX. As divisões políticas, a sensação de impotência e o desgaste de tentar encontrar um lugar em meio ao conflito atravessam gerações.

Há momentos em que a relação com o próprio país se transforma em vergonha, frustração e desencanto; ainda assim, permanece a necessidade de resistir e preservar aquilo em que acreditamos. Por mais exaustivo que seja sentir o peso do mundo sobre os ombros, A Terra do Meu Pai sugere que talvez seja nos vínculos mais próximos que encontremos forças para continuar.

Visualmente, a fotografia em preto e branco reforça a atmosfera opressora da narrativa. Os contrastes entre luz e sombra, assim como a presença marcante das roupas escuras, contribuem para a sensação de rigidez e confinamento que atravessa os personagens. Entretanto, o grande destaque de A Terra do Meu Pai é Sandra Hüller, que entrega uma atuação magistral, sustentada por nuances e pela expressividade de uma personagem que precisa comunicar muito mesmo quando as palavras parecem insuficientes. Sua presença acrescenta densidade emocional à narrativa e torna ainda mais palpável a dor compartilhada entre pai e filha.

Hanns Zischler e Sandra Huller em cena de "A Terra do Meu Pai"- Divulgação Mostra SP

Hanns Zischler e Sandra Huller em cena de “A Terra do Meu Pai”- Divulgação Mostra SP

Quando Thomas e Erika se sentam na igreja para ouvir “Jesus, Alegria dos Homens”, de Johann Sebastian Bach, o filme finalmente permite que Mann abandone, ainda que por alguns instantes, a postura de resistência que manteve até então. Ele não cedeu diante das humilhações em entrevistas, tampouco deixou transparecer sua fragilidade diante da morte do filho. Naquele momento de intimidade, porém, vislumbramos o homem por trás da figura pública: alguém exausto de precisar ser forte o tempo todo, de suportar o julgamento alheio e de viver em um lugar que já não consegue reconhecer como casa.

A música transforma esse instante em uma espécie de confissão silenciosa, na qual toda a contenção acumulada encontra uma forma de expressão. É doloroso porque é humano; comovente porque dispensa explicações. E é justamente nessa capacidade de traduzir sentimentos tão complexos por meio de imagens, silêncios e música que Pawlikowski encontra o cinema em sua forma mais pura.

Distribuído pela Imovision, em parceria com a Mubi, A Terra do Meu Pai participa da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e terá sessões durante o evento, que acontece entre 15 e 29 de outubro de 2026.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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