Dirigido por Boots Riley, I Love Boosters aposta no caos, no absurdo e no espetáculo visual para construir uma jornada surrealista que se consolida como um dos filmes mais divertidos do ano.
Em uma indústria audiovisual cada vez mais inclinada ao naturalismo na representação da sociedade, Boots Riley aposta em um universo que remete diretamente ao cinema de animação, no qual a estranheza, o caos e os estímulos visuais conduzem a experiência. Tudo faz sentido? Longe disso. Situações absurdas se acumulam e expandem um universo que só poderia existir em I Love Boosters. Por trás dessa aparente falta de lógica, porém, há uma crítica bastante clara.
O próprio conceito de boosters sintetiza essa proposta. Inventadas por Riley, essas personagens roubam roupas de grife para revendê-las a preços populares. Afinal, se as classes mais pobres participam da produção de peças comercializadas por valores exorbitantes, por que não poderiam comprá-las e usufruir delas? A premissa coloca em xeque a estrutura capitalista da indústria da moda e as contradições de um sistema que transforma o consumo em símbolo de status, enquanto restringe o acesso aos produtos que fabrica.
I Love Boosters se destaca principalmente pelo trabalho de figurino e direção de arte. As roupas transitam entre o realismo e o ridículo, enquanto perucas, maquiagens, brincos e outros adereços transformam a composição visual em um espetáculo quase onírico. Tudo parece calculado para romper com qualquer expectativa de naturalidade, sem perder a unidade estética que sustenta o filme.

Keke Palmer em cena de “I Love Boosters”- Divulgação Universal Pictures
De Keke Palmer e Naomi Ackie a um inusitado Lakeith Stanfield e uma excelente Demi Moore, o elenco abraça essa proposta com notável sintonia. Existe um arco narrativo bem definido para Corvette, que precisa abandonar o individualismo e compreender sua participação em algo maior. Ainda assim, o desenvolvimento dessa transformação acaba sendo secundário diante da energia com que Riley encadeia uma bizarrice após a outra.
A escalada do absurdo é um dos maiores trunfos da produção. Inicialmente, Corvette consegue sair de uma loja carregando roupas escondidas em um enorme casaco de neve, sem que ninguém a impeça. Em seguida, depara-se com uma bola gigantesca que materializa cobranças, dívidas e outros problemas de seu inconsciente. Quando teletransportes, aceleradores moleculares e alienígenas entram em cena, o espectador já está tão imerso na lógica particular do filme que a diversão se sobrepõe à necessidade de encontrar explicações para tudo.
Essa liberdade criativa é justamente o que diferencia I Love Boosters de produções mais convencionais. Enquanto muitos filmes parecem receosos de abandonar estruturas narrativas tradicionais, Riley incorpora o simbólico e o non-sense como elementos orgânicos de seu universo. Um apartamento completamente inclinado? Por que não? Sequências em stop-motion? Claro. O filme não pede licença para romper com a realidade, tampouco tenta justificar cada escolha estética. Simplesmente estabelece suas próprias regras e segue em frente.

Demi Moore em cena de “I Love Boosters”- Divulgação Universal Pictures
A trilha sonora do grupo Tune-Yards reforça a dimensão cartunesca da obra, enquanto as cores, as atuações e os enquadramentos ampliam a sensação de artificialidade. O exagero não é um fim em si mesmo, mas uma maneira de traduzir um sistema burocrático, capitalista e sufocante. O mundo apresentado por Riley parece absurdo justamente porque distorce, até o limite, mecanismos de exploração que já fazem parte do cotidiano.
Entretanto, essa aposta também impõe obstáculos. Ao privilegiar alegorias e simbolismos, o diretor exige uma capacidade de abstração que pode afastar o público. Quando Eiza González explica conceitos complexos com uma precisão pouco compatível com sua personagem, resta aceitar que, naquele universo, a lógica funciona de maneira diferente. Essa ruptura pode ser divertida, mas também evidencia como o filme depende da disposição do espectador para embarcar em suas convenções.
Ao dissecar a indústria da moda, Riley recorre à comédia como instrumento de inversão de poder. Os oprimidos confrontam seus opressores, enquanto as contradições e os defeitos daqueles que ocupam posições privilegiadas são expostos ao ridículo, como acontece com os personagens de Demi Moore e Will Poulter. O riso, nesse contexto, não enfraquece a crítica: torna-se uma ferramenta para desestabilizar autoridades e estimular reflexões sobre as estruturas sociais. Uma abordagem dramática e excessivamente solene dificilmente produziria o mesmo efeito.

Keke Palmer em cena de “I Love Boosters”- Divulgação Universal Pictures
Assim como Digger (2026, Alejandro González Iñárritu), I Love Boosters desafia convenções narrativas e aposta em uma mistura de realidade e fantasia tratada com absoluta naturalidade. Essa escolha, contudo, também representa um desafio para sua divulgação, já que uma proposta tão particular pode ser difícil de traduzir em uma campanha de marketing convencional. O personagem de Lakeith Stanfield, um demônio sugador de almas cuja presença distorce a própria estética ao redor, exemplifica bem essa lógica: por mais extraordinário que seja, ele é tratado como parte corriqueira daquele mundo.
I Love Boosters é ágil, visualmente inventivo e sustentado por uma crítica social que encontra na leveza da comédia sua maior força. O trabalho de figurino e direção de arte merece reconhecimento, assim como a disposição de Riley para arriscar em uma indústria cada vez mais confortável com fórmulas conhecidas. Embora sua dependência de alegorias possa dificultar o envolvimento de parte do público, o filme transforma o exagero em linguagem e o absurdo em ferramenta de contestação. É justamente por não temer o ridículo que se torna uma experiência tão singular e divertida.
Distribuído pela Universal Pictures, I Love Boosters foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e tem estreia nos cinemas brasileiros prevista para 19 de novembro de 2026.
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