A falta de ônibus em cidades brasileiras durante o segundo turno das eleições deste domingo (25) provocou uma crise em torno do acesso dos eleitores às urnas. Na Bahia, denúncias de redução drástica da frota levaram a Justiça Eleitoral a determinar medidas emergenciais. Em meio aos relatos de dificuldades no transporte, pedidos de ampliação do horário de votação ganharam força e a votação foi estendida até as 19h, conforme decisão divulgada durante a tarde. Contudo, muitas zonas eleitorais já estavam fechadas quando a decisão saiu.
O episódio levanta questionamentos sobre o cumprimento das regras que obrigam o poder público a assegurar transporte coletivo gratuito e com oferta equivalente à de dias úteis no dia da eleição. A situação também gerou acusações políticas e medidas judiciais, diante do risco de que a falta de transporte impedisse parte do eleitorado de votar.
Bahia registra redução de ônibus e mobiliza a Justiça Eleitoral
O caso mais grave foi registrado em Salvador. Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil, diligências do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) constataram que menos de 50% da frota de ônibus prevista para dias úteis estava em circulação na capital baiana. A situação motivou uma ordem para restabelecer integralmente o serviço.
O presidente do TRE-BA, desembargador Maurício Kertzman Szporer, determinou a recomposição da frota e medidas contra o secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, por suposto descumprimento de decisão judicial. A ordem também estabeleceu a necessidade de manter frequência e itinerários equivalentes aos dos dias úteis.
A Prefeitura de Salvador afirmou que ônibus ficaram retidos em garagens para a retirada de adesivos políticos colados nos veículos na véspera. A administração municipal informou que a operação foi normalizada após a notificação das empresas responsáveis pelo serviço. A justificativa, porém, não eliminou os questionamentos sobre a disponibilidade dos ônibus no período em que os eleitores precisavam se deslocar para votar.
O problema também motivou pedidos de prorrogação do horário de votação em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas. A alegação era que a redução da frota, os pontos lotados e as longas esperas poderiam impedir eleitores de chegar às seções dentro do horário previsto.
Problemas em outros estados ampliaram a pressão
As denúncias não ficaram restritas à Bahia. Em São Paulo, a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que apenas 60% da frota prevista estava circulando e acionou a Justiça Eleitoral para exigir o cumprimento da determinação de manter os ônibus em operação.
Relatos de dificuldades também surgiram em outras localidades, incluindo Aracaju, João Pessoa e municípios de Alagoas. Chuvas e problemas de acesso, por sua vez, afetaram deslocamentos em diferentes regiões do país.
A campanha de Lula pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que a votação fosse estendida até as 19h em cidades baianas e paulistas. Posteriormente, também solicitou a ampliação do horário em outros estados, argumentando que problemas no transporte poderiam comprometer o direito de voto.
A discussão ganhou força porque a legislação eleitoral e as decisões da Justiça determinam que o poder público assegure transporte gratuito e oferta compatível com a operação de dias úteis. A redução ou interrupção do serviço no dia da votação pode, portanto, ter consequências que vão além de um problema de mobilidade urbana.
Rio de Janeiro adotou frota de dia útil e transporte gratuito
Enquanto denúncias de falta de ônibus mobilizavam a Justiça Eleitoral em outras cidades, o Rio de Janeiro anunciou uma operação especial para facilitar o deslocamento dos eleitores. A Prefeitura informou que os ônibus municipais circulariam com programação equivalente à de dias úteis, com uma frota de cerca de 4 mil veículos.
A gratuidade foi estabelecida das 6h às 20h e abrangeu ônibus municipais, BRT, VLT, cabritinhos e vans. Segundo a administração municipal, os operadores foram formalmente orientados a cumprir a programação de frota prevista em contrato para os dias úteis.
A medida foi prevista no Decreto Rio nº 58.518, publicado em agosto. O objetivo era reduzir as barreiras econômicas e operacionais para que os eleitores chegassem aos locais de votação.
O cenário carioca oferece um contraste com as denúncias registradas na Bahia e em São Paulo. No Rio, a prefeitura divulgou previamente a operação, estabeleceu gratuidade e anunciou a manutenção da frota de dia útil. A informação oficial, contudo, comprova o planejamento anunciado, não uma avaliação independente de todos os trajetos realizados ao longo do domingo.
Direito ao voto depende também do acesso às urnas
A crise do transporte durante o segundo turno reacendeu o debate sobre as condições práticas para exercer o direito ao voto. A gratuidade, por si só, não garante acesso quando há poucos veículos, intervalos longos ou interrupções no serviço.
Na Bahia, a determinação para recompor a frota e a discussão sobre a extensão do horário de votação evidenciaram a gravidade do problema. As denúncias também levantaram dúvidas sobre a responsabilidade dos gestores e das empresas de transporte diante das regras eleitorais.
A ampliação do horário buscou responder às dificuldades de deslocamento, mas não elimina a necessidade de apurar o que ocorreu em cada município. É importante distinguir as denúncias apresentadas por partidos e eleitores das conclusões que dependem de investigação das autoridades.
O episódio deixa uma questão central: em um dia decisivo para a democracia, a garantia do voto exige mais do que abrir as seções eleitorais. Também depende de transporte público funcionando, informação clara e condições para que a população chegue às urnas sem obstáculos evitáveis.
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