Dirigido por Pedro Antônio, Um Tio Quase Perfeito 3 encontra uma maneira genuína de emocionar, alcançando uma catarse que poucas produções da franquia pareciam capazes de oferecer.
Confesso que, assim como muitos espectadores, estava desacreditado quanto à possibilidade de Um Tio Quase Perfeito 3 realmente justificar sua existência. Cinco anos após seu antecessor, o filme chega em um cenário cinematográfico bastante diferente daquele que acompanhou o início da franquia.
Em um mercado no qual a comédia frequentemente é tratada como um gênero menor, e a comédia popular brasileira, muitas vezes, recebe ainda menos reconhecimento, a produção de Pedro Antônio surpreende ao demonstrar que entretenimento acessível não precisa significar pobreza narrativa. Quebrando minhas expectativas, o longa não apenas encontra razões para continuar essa história, como entrega o melhor filme da trilogia.
O segredo está em compreender aquilo que tornou o primeiro capítulo especial: sua capacidade de falar sobre família para além dos laços de sangue. Ao recuperar essa essência e abandonar boa parte dos caminhos equivocados que marcaram o segundo filme, Um Tio Quase Perfeito 3 se inspira no livro infantojuvenil Alice no País das Famílias (2024, Adeilson Salles), e assim, retoma uma discussão que deveria estar no centro da franquia desde o início: afinal, o que realmente faz de alguém parte de uma família?
Se esse tema já estava presente no primeiro filme, acabou relegado a segundo plano no capítulo anterior, que preferiu recorrer a conflitos mais convencionais. Agora, a retomada das raízes não representa simplesmente uma tentativa de repetir uma fórmula conhecida, mas uma evolução natural de personagens que cresceram, mudaram e carregam consigo as marcas do tempo. As crianças já não são as mesmas, suas vidas seguiram em frente e Tony volta a se encontrar sozinho. Até que um bebê chamado Alice aparece misteriosamente à sua porta, dando início a uma aventura que, à primeira vista, parece caminhar por um terreno bastante familiar.

Marcus Majella e Danton Mello em cena de “Um Tio Quase Perfeito 3”- Foto por Daniel Chiacos- Divulgação H2o Filmes
Afinal, quantas vezes já vimos histórias sobre homens inesperadamente encarregados de cuidar de bebês? De Jackie Chan a Vin Diesel, passando pelos Trapalhões e até mesmo por Charlie Chaplin, o cinema e a comédia exploraram essa dinâmica de inúmeras maneiras. A diferença está na maneira como Pedro Antônio organiza o humor e transforma uma situação conhecida em uma experiência visualmente mais inventiva. Um inteligente trabalho de câmera, as diferentes perspectivas da pequena Alice e as possibilidades cômicas dos espaços ao ar livre conferem frescor a situações que poderiam facilmente se tornar repetitivas.
Há, ainda, uma identidade estética que merece destaque. Desde o início, Um Tio Quase Perfeito 3 se aproxima do universo dos contos de fadas, incorporando uma atmosfera lúdica que dialoga com a perspectiva infantil e ganha força ao longo da narrativa. Essa escolha não funciona apenas como um adorno visual: ela estabelece o tom da aventura e encontra sua expressão mais significativa na sequência final, quando a fantasia e os sentimentos construídos até ali finalmente se encontram.
Mas nada disso teria o mesmo impacto sem a relação entre Tony e Alice. Um Tio Quase Perfeito 3 permite que esse vínculo se desenvolva gradualmente, respeitando o tempo necessário para que o carinho deixe de ser apenas uma consequência previsível da situação e se transforme em algo genuíno.
Nós acompanhamos essa aproximação, compreendemos o que cada um passa a representar na vida do outro e, pouco a pouco, nos envolvemos emocionalmente com os dois. Mesmo quando os rumos da história parecem previsíveis, existe algo mais importante em jogo: não queremos apenas descobrir como tudo terminará, mas testemunhar o caminho que os levará até lá. Entre as gargalhadas e os momentos de fragilidade, o filme constrói uma relação que conquista justamente por não ter pressa de nos convencer de sua importância.
A familiaridade com esses personagens também permite que a narrativa alcance uma maturidade inédita dentro da franquia. Tony e as crianças já possuem uma história compartilhada, e o longa não precisa desperdiçar tempo reapresentando relações que o público conhece. Pode, assim, explorar sentimentos mais complexos e discutir temas como cuidado, aceitação, amizade, autoestima e pertencimento sem abandonar sua vocação para o entretenimento familiar.
O humor continua presente, mas deixa de ser o único objetivo de Um Tio Quase Perfeito 3. Existe uma preocupação em fazer com que as risadas convivam com reflexões que ultrapassam a sessão de cinema, sem transformar a mensagem em um discurso artificial ou excessivamente didático.

Marcus Majella, Letícia Isnard, João Kalume, Soffia Monteiro, Julia Svacinna e Danton Mello em cena de “Um Tio Quase Perfeito 3”- Foto por Daniel Chiacos- Divulgação H2o Filmes
Essa evolução também se manifesta na construção visual. Desde os primeiros minutos, é perceptível uma mudança significativa na identidade da franquia, especialmente no trabalho do diretor de fotografia Felipe Reinheimer. A imagem ganha uma maturidade que amplia as possibilidades expressivas da história, valoriza os cenários e fortalece a atmosfera de conto de fadas.
Mais importante, porém, é perceber como essa evolução técnica acompanha o amadurecimento do roteiro e da própria encenação. A fotografia não existe isoladamente para embelezar Um Tio Quase Perfeito 3: ela participa da construção desse universo e ajuda a dar forma aos sentimentos que seus personagens carregam, tornando até mesmo as atuações exageradas de Majella, algo mais orgânico e extremamente natural.
É, contudo, na maneira como aborda a ausência que Um Tio Quase Perfeito 3 encontra uma de suas dimensões mais comoventes. Ao homenagear Paulo Gustavo, a produção faz mais do que inserir uma referência reconhecível ou provocar a nostalgia do público. Sua homenagem encontra espaço dentro da própria narrativa, dialogando com a saudade, a permanência dos afetos e a necessidade de continuar vivendo mesmo quando alguém que amamos já não está presente. É um momento em que o filme compreende que algumas ausências não precisam ser preenchidas para que a vida siga em frente: elas precisam ser reconhecidas, acolhidas e transformadas em parte daquilo que somos.
E é justamente por isso que a homenagem emociona tanto. Não se trata apenas de lembrar alguém que marcou a comédia brasileira, mas de reconhecer o que permanece depois da partida: as lembranças, os vínculos e tudo aquilo que essa pessoa ajudou a construir em nós. Quando Um Tio Quase Perfeito 3 encontra essa verdade emocional, a comédia abre espaço para algo maior. As lágrimas não surgem de uma tentativa desesperada de manipular o espectador, mas do acúmulo de sentimentos que a história desenvolve e, finalmente, permite transbordar.
Ao final, Um Tio Quase Perfeito 3 pode continuar sendo classificado como uma comédia popular brasileira, mas essa definição está longe de dar conta de tudo o que o filme representa. Pedro Antônio demonstra que uma produção familiar pode ser divertida sem ser superficial, sentimental sem ser açucarada e visualmente inventiva sem perder de vista aquilo que realmente importa. Ao recuperar a essência da franquia e permitir que seus personagens amadureçam, o longa encontra não apenas uma razão para existir, mas algo genuíno a dizer.
Distribuído pela H2O Films, Um Tio Quase Perfeito 3 chega aos cinemas em 8 de outubro de 2026.
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