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John Malkovich e Sam Rockwell em cena de "Cavalo Selvagem Nove"- Divulgação Disney / 20th Century Studios
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Cavalo Selvagem Nove’ transforma amizade e violência em uma crítica política contundente

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 5 de novembro de 2026
10 Min Leitura
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John Malkovich e Sam Rockwell em cena de "Cavalo Selvagem Nove"- Divulgação Disney / 20th Century Studios
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Dirigido por Martin McDonagh, Cavalo Selvagem Nove é um dos trabalhos mais íntimos do diretor, mas preserva a acidez e os simbolismos políticos que aprendemos a reconhecer em sua filmografia

Meu primeiro contato com Martin McDonagh foi Três Anúncios para um Crime (2017), produção que me recordo de ter assistido três vezes no cinema e cujos detalhes ainda hoje revisito com um prazer que me deixa sorrindo de ponta a ponta. Quando assisti a Os Banshees de Inisherin (2022), entretanto, essa sensação foi diferente. Saí do cinema com a certeza de ter visto um grande filme, mas sem compreender completamente suas intenções. Somente com o passar do tempo consegui assimilar seus simbolismos e entender como aquela dinâmica aparentemente simples dialogava com a violência, o isolamento e os horrores da guerra civil.

Com Cavalo Selvagem Nove, já estava preparado para que essa experiência se repetisse, especialmente por se tratar de um projeto mais intimista, mas também bastante direto em suas implicações políticas. Seus protagonistas, Chris e Lee, são agentes da CIA estabelecidos em Santiago, em 1973. Quando MJ, chefe do escritório da agência, envia ambos para a Ilha de Páscoa, Chris acaba se aproximando de duas estudantes chilenas. Aos poucos, porém, a aparente tranquilidade daquele lugar começa a dar espaço à tensão de um cenário político prestes a desmoronar.

Martin McDonagh demonstra novamente seu domínio da verborragia, especialmente nos monólogos e nas reflexões de Chris, interpretado com maestria por John Malkovich. Existe um contraste muito bem construído entre a tensão de Santiago, com o Palácio de La Moneda constantemente presente no segundo plano, e o paraíso aparentemente intocado da Ilha de Páscoa, com sua beleza natural e tranquilidade. Essa oposição ganha ainda mais força quando os dois agentes chegam ao local, carregando consigo a consciência de que aquela crença juvenil em um mundo onde tudo é justo e correto está prestes a desaparecer.

John Malkovich e Mariana di Girolamo em cena de "Cavalo Selvagem Nove"- Divulgação Disney / 20th Century Studios

John Malkovich e Mariana di Girolamo em cena de “Cavalo Selvagem Nove”- Divulgação Disney / 20th Century Studios

Malkovich representa o homem direto, experiente e sem filtros, enquanto Sam Rockwell funciona como uma espécie de contraponto, tentando amenizar as situações e preservar alguma normalidade. A dupla sustenta o filme com muita competência, embora nossa simpatia naturalmente se aproxime mais de Chris. Sabemos que ele é um agente com mais de 60 mortes no currículo, algumas delas diretamente relacionadas a acontecimentos importantes da história mundial na década de 1960, mas é justamente sua relação com Monica, uma jovem estudante chilena idealista, que proporciona alguns dos melhores momentos da produção.

Quando Chris explica à jovem por que ela não deveria retornar ao país e apresenta os possíveis desdobramentos do golpe, sentimos o peso de uma democracia prestes a ser destruída. Entretanto, a conversa vai além de uma simples tentativa de proteção. Ao sugerir que a sobrevivência e a resistência podem exigir o abandono de antigos princípios, Chris confronta Monica com uma realidade na qual a violência deixa de ser uma abstração política e passa a representar uma possibilidade concreta. É um momento importante para a personagem, mas também para Cavalo Selvagem Nove como um todo, que questiona até que ponto é possível preservar a inocência quando as estruturas de poder já decidiram o destino de uma população.

Cavalo Selvagem Nove é mais lento e contemplativo do que outros trabalhos do diretor, com destaque especial para a cinematografia de Ben Davis que se utiliza até mesmo de Super Oito em certos momentos. Os monólogos alternam entre reflexões bastante potentes e divagações aparentemente aleatórias, que funcionam como alívio cômico e ajudam a desenvolver a intimidade entre os personagens.

Tom Waits em cena de "Cavalo Selvagem Nove"- Divulgação Disney / 20th Century Studios

Tom Waits em cena de “Cavalo Selvagem Nove”- Divulgação Disney / 20th Century Studios

Apesar de toda a beleza da Ilha de Páscoa, a realidade particular daqueles homens está longe de ser um paraíso. Enquanto Chris enfrenta um câncer que o consome lentamente, Lee precisa lidar com uma esposa distante, um casamento fragilizado e a possibilidade de ter de proporcionar um fim digno ao amigo. Ambos também começam a perceber que o sistema ao qual dedicaram suas vidas não oferece a proteção que imaginavam.

A violência, elemento recorrente na filmografia de McDonagh, continua presente em Cavalo Selvagem Nove, mas assume uma forma consideravelmente diferente. Se em Três Anúncios para um Crime ela aparece tanto nas relações pessoais quanto nas instituições incapazes de oferecer justiça, aqui o diretor amplia essa discussão para o próprio funcionamento do poder político.

Existem confrontos e trocas de tiros, mas o aspecto mais perturbador está na violência institucional: na capacidade de uma organização de manipular acontecimentos, determinar destinos e, posteriormente, descartar aqueles que serviram aos seus interesses. Chris e Lee são homens que passaram a vida trabalhando para uma estrutura de poder, mas descobrem que sua lealdade não significa absolutamente nada quando deixam de ser convenientes.

É justamente nesse ponto que Cavalo Selvagem Nove encontra uma de suas expressões mais interessantes. A Ilha de Páscoa representa uma espécie de refúgio, mas sua tranquilidade é ilusória. A violência não precisa necessariamente invadir aquele espaço fisicamente para estar presente, pois seus efeitos já chegaram antes dos próprios acontecimentos. O diretor constrói, assim, uma oposição entre a beleza de um mundo que parece preservado e a brutalidade de um sistema que não reconhece limites morais para alcançar seus objetivos.

John Malkovich e Sam Rockwell em cena de "Cavalo Selvagem Nove"- Divulgação Disney / 20th Century Studios

John Malkovich e Sam Rockwell em cena de “Cavalo Selvagem Nove”- Divulgação Disney / 20th Century Studios

Cavalo Selvagem Nove é mais direto em sua crítica do que Os Banshees de Inisherin e talvez por isso não apresente a mesma poesia ou complexidade simbólica. Com quase duas horas de duração, o ritmo funciona, mas seus melhores momentos são justamente os mais íntimos: os diálogos entre um agente da CIA cansado e moribundo e uma jovem que ainda representa a possibilidade de futuro; a conversa de Lee com a esposa que ainda ama, apesar de já não conseguir confiar nela; e, principalmente, a relação de fraternidade e camaradagem entre dois amigos que, apesar de suas diferenças, encontram um no outro aquilo que o restante do mundo não consegue oferecer.

Existe uma ironia dramática muito particular em Cavalo Selvagem Nove, afinal, na medida que acompanhamos as previsões de Chris, sabemos que o golpe aconteceu exatamente como ele anunciou. Essa consciência torna a narrativa ainda mais angustiante, pois não estamos diante de uma tragédia construída a partir de um acontecimento imprevisível, mas de uma catástrofe que poderia ser antecipada e que, ainda assim, não pode ser impedida por aqueles que a testemunham.

É essa sensação de impotência diante do mundo que torna Cavalo Selvagem Nove tão interessante. McDonagh não apresenta seus protagonistas como heróis capazes de transformar a realidade, tampouco oferece uma solução confortável para as contradições que expõe. Pelo contrário, mostra como até mesmo aqueles que participam das engrenagens do poder podem ser vítimas de suas próprias estruturas.

No fim, talvez a verdadeira resistência não esteja em acreditar que podemos consertar tudo, mas em reconhecer aquilo que ainda vale a pena preservar: nossas relações, nossos princípios e as pessoas que escolhemos ter ao nosso lado.

Distribuído pela Disney / 20th Century Studios, Cavalo Selvagem Nove chega aos cinemas em 5 de novembro.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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