Dirigido por José Eduardo Belmonte, Assalto à Brasileira usa humor e situações absurdas, para retratar um Brasil muito mais atual do que parece.
Baseado em um caso real ocorrido em 1987, quando sete homens armados invadiram uma agência do Banestado, em Londrina (PR), e fizeram mais de 300 reféns, Assalto à Brasileira parte de um acontecimento com potencial para um drama intenso. Entretanto, ao abraçar a sátira, Belmonte constrói uma produção mais interessante em sua abordagem, mas também limitada pelas próprias escolhas narrativas.
Assalto à Brasileira venceu três categorias no 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro: Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Ator, para Murilo Benício, e Melhor Ator Coadjuvante, para Christian Malheiros. Os reconhecimentos são merecidos, especialmente porque o embate entre os dois atores sustenta boa parte da narrativa. Benício interpreta Paulo, um jornalista inteligente e um tanto vigarista, que acaba atuando como intermediário entre os assaltantes e a polícia. Já Malheiros vive Moreno, um criminoso de bom coração, mas que não deixa de ser um bandido. A dinâmica entre os personagens é um dos principais motores do longa, sobretudo pela maneira como suas personalidades contrastantes alimentam as situações cômicas.

Christian Malheiros em cena de “Assalto à Brasileira”- Divulgação Galeria Filmes
Os absurdos vão se acumulando, e é justamente nessa sucessão de acontecimentos improváveis que reside boa parte da graça do filme. A produção apresenta algumas semelhanças com La Casa de Papel (2017, Álex Pina), na medida em que o assalto representa algo maior do que a simples obtenção de dinheiro: uma mensagem contra um sistema corrupto que prejudica o trabalhador comum.
O problema é que essa discussão é retomada tantas vezes, e de maneira tão verborrágica, que acaba se tornando cansativa. Em determinados momentos, a sensação é de que o filme precisa lembrar constantemente o espectador de sua própria crítica social, quando as situações apresentadas já seriam suficientes para transmitir boa parte dessa insatisfação.
Em termos de brasilidade, Assalto à Brasileira encontra na música e nos regionalismos elementos fundamentais para sua identidade. As canções quase funcionam como personagens, enquanto as expressões e os comportamentos ajudam a construir a sensação de que essa loucura só poderia acontecer no Brasil.

Murilo Benício em cena de “Assalto à Brasileira”- Divulgação Galeria Filmes
Dentro desse universo satírico, cômico e quase fantástico, no qual criminosos e reféns compartilham momentos de confraternização e até dinheiro como forma de afrontar o sistema, o longa mantém um ritmo ágil. Contudo, evita aprofundar tanto suas dimensões dramáticas quanto as verdadeiramente políticas, preferindo deixar essas questões na superfície e no subtexto.
Um dos aspectos mais interessantes da produção está no aproveitamento dos personagens secundários, que conseguem conquistar o público com frases pontuais e bastante carisma, mesmo com pouco tempo de tela. Seja Augusto Madeira, em uma participação breve, ou Paulo Miklos como Fonseca, o agente responsável por conduzir a operação policial, há figuras que acrescentam personalidade à narrativa.
No caso de Fonseca, porém, sua relação anterior com Paulo nunca é devidamente esclarecida. Essa é uma das limitações centrais do filme: ao priorizar o humor e a sátira, Belmonte acaba recorrendo a tipos e arquétipos conhecidos, sem oferecer a eles camadas suficientes para escapar de construções já bastante familiares.
A própria trajetória de Paulo, relacionada à recuperação de seu entusiasmo pelo jornalismo, acaba se perdendo ao longo da narrativa. Embora essa transformação permaneça presente na maneira como ele se torna uma espécie de herói para a população reunida diante do banco, suas motivações e os conflitos com a esposa grávida e com Fonseca recebem menos atenção do que poderiam.

Paulo Miklos em cena de “Assalto à Brasileira”- Divulgação Galeria Filmes
Faltam nuances para que essas relações tenham um peso real na história. No fim, o filme parece dividido entre dois caminhos: poderia ter enxugado parte de seu humor para investir mais no drama ou, em uma direção oposta, abraçado completamente o exagero e levado sua sátira às últimas consequências. Particularmente, acredito que a segunda possibilidade teria rendido uma produção ainda mais interessante.
Ao final, são justamente os paralelos com o Brasil contemporâneo que fazem Assalto à Brasileira encontrar sua maior força. A história é tão particular em suas contradições, comportamentos e absurdos que dificilmente poderia acontecer da mesma maneira em outro país. Essa é também a principal graça do longa: apresentar um retrato de uma sociedade que, mesmo diante de uma situação extrema, encontra motivos para transformar criminosos em símbolos de resistência e o caos em espetáculo.
É um filme que não se leva muito a sério, mas sabe equilibrar ação, tensão e humor para construir uma representação de um país que continua muito mais parecido com aquele de 1987 do que gostaríamos de admitir.
Uma realização da Galeria Distribuidora, Assalto à Brasileira estreia nos cinemas em 5 de novembro.
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