Friday, November 27, 2020

A Caminho da Lua | Animação da Netflix aborda luto de forma delicada e tocante

A Caminho da Lua (Over the Moon) conta a história da menina Fei Fei, que decide construir um foguete e ir ao lado escuro da Lua para provar à sua família que a lendária deusa chinesa Chang’e existe. Porém, descortinando uma inicial comprovação de um mito, encontramos uma profunda história de superação do luto da personagem.

Por trás dessa tocante animação está Glen Keane, animador, ilustrador e autor, que encabeçou grandes sucessos da Disney como Tarzan, A Bela e a Fera, A Pequena Sereia e muitos outros. Desde que saiu da gigante das animações, após quase 40 anos, Glen se envolveu em outros projetos, como o curta ganhador do Oscar, Dear Basketball.

Assim, em A Caminho da Lua, o animador trouxe outro traço gráfico à sua obra. Para isso, contou com uma equipe formada por designers experientes e mais jovens. Como resultado, trouxe um filme esteticamente diferente das suas famosas obras anteriores. Além disso, emprestam suas vozes à animação Sandra Oh (Mrs Zhong), John Cho (Ba Ba), Cathy Ang (Fei Fei), Phillipa Soo (Chang’e) e outros.

No Brasil, o longa tornou-se um sucesso e até a Turma da Mônica rendeu uma homenagem à Fei Fei.

monica

divulgação: Twitter

Ciência e tradição oral

No filme, encontramos o conhecimento científico mesclado à tradição oral. No caso, as fases da Lua e o universo são abordados pela mãe de Fei Fei através da história da deusa chinesa Chang’e que, após um feitiço, vai pro lado escuro da Lua e espera por seu amado, Houyi.

Chateada com a descrença da família na história da deusa, Fei Fei, com sua inteligência e conhecimento científico, constrói um foguete – que parece uma referência ao foguete usado em Viagem à Lua (Georges Méliès) – e viaja à Lua. A viagem da menina obtém sucesso através da engenharia emprestada do trem Maglev e de cães espaciais. Sincretismo na medida.

Desse modo, o longa aborda as duas temáticas de forma agregadora. Tanto a ciência quanto o conhecimento vindo da tradição oral, através da mitologia, fazem parte da nossa construção individual de visão de mundo e como lidamos com ele. Com isso, Fei Fei usa seu conhecimento científico para chegar à Chang’e e seu repertório cultural para lidar com seus sentimentos e também ajudar a deusa.

O luto e a barreira

Fei Fei demonstra muita resistência com a nova namorada de seu pai (Ba Ba), por cultivar a memória da mãe (Ma Ma). Um dos momentos felizes dela e Ma Ma era fazer bolinhos da Lua. Assim, quando a namorada do pai traz jujubas, seu ingrediente pessoal, Fei Fei é taxativa e recusa adicionar as jujubas à receita dos bolinhos. Esta situação demonstra a resistência da menina à nova integrante da família e à interferência que sua presença causa à memória da mãe.

Somado a isso, Chin, seu novo irmão, é um elemento que simboliza a coragem de ultrapassar a barreira do luto, vista como uma grande parede. Ele acredita que as moléculas de seu corpo estão se expandindo pra atravessar superfícies. A princípio, Fei Fei acha Chin esquisitão e se espanta com sua ideia maluca. Mas isso faz uma alusão à própria Fei Fei, que está envolta em sua tristeza e cria barreiras com quem está ao seu redor, não permitindo se abrir a outras formas de amor. Em entrevista cedida ao Splash (UOL), o diretor Glen Keane diz: “Nós atravessamos a câmara da tristeza nessa história e saímos curados do outro lado”.

Assim como protagonista, a deusa Chang’e também tenta lidar com uma perda. Porém, tornando-se uma pop star de humor instável e cercada de seres luminosos advindos de sua própria criação para não se sentir solitária em Lunária. As duas descobrem juntas que a chave para a superação da dor da ausência é valorizar as pessoas ao nosso redor e se abrir para o amor novamente. No mínimo, comovente.

Além do cuidado ao tratar do luto, o longa acerta ao não mostrar a morte de Ma Ma. Sem focar no sofrimento da personagem, sua passagem pro mundo dos mortos ocorre de maneira afetuosa, simbolizada por uma flor, com Fei Fei e Ba Ba à beira do rio. O atarzinho de Ma Ma na casa demonstra que sua presença ainda está viva na família.

 

Por fim, A Caminho da Lua dialoga com a saudade e o luto – temáticas delicadas de serem tratadas com crianças– utilizando como ferramenta personagens luminosos, vibrantes e fofinhos. Mesclados a um roteiro sério, o intuito é trazer leveza e aceitação desses sentimentos. Juntamente com um ambiente familiar aconchegante e uma personagem cativante, atravessar a barreira da dor da perda é mostrada de maneira lúdica para os olhos infantis – e adultos.

A Caminho da Lua estreou no catálogo da Netflix dia 23 de outubro.

Enfim, confira o trailer do filme:

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