All The Worlds (2024) , de Lee K-dance, é uma obra que impressiona, antes de tudo, pela construção visual. É uma peça fortemente atravessada pelas danças urbanas, especialmente pelo popping, e isso não aparece apenas como uma escolha estética, mas como parte fundamental da identidade da obra.
Visualmente, existe uma pesquisa bastante interessante. A trilha sonora, as projeções e os elementos audiovisuais constroem uma linguagem própria, em alguns momentos, produzem imagens realmente muito potentes. É justamente nessa relação entre corpo, tecnologia, luz, imagem e som que, para mim, está uma das maiores forças da peça.
Ao mesmo tempo, senti que algumas escolhas coreográficas poderiam explorar mais as possibilidades espaciais dos corpos. Em determinados momentos, a composição fica muito frontal, muito “chapada”, quase bidimensional. E isso me causou certo desconforto porque parece limitar justamente uma das maiores potências das danças urbanas: a capacidade de criar diferentes relações com o espaço, com o corpo e com o olhar do público.
Não vejo isso necessariamente como um problema de linguagem, mas como uma possibilidade que poderia ter sido mais explorada.
Também acho que existe uma potência dramatúrgica que poderia ir além. A obra apresenta conceitos e imagens que despertam curiosidade, mas senti que o storytelling poderia aprofundar mais essas relações. Existe um universo ali que parece maior do que aquilo que a dramaturgia efetivamente desenvolve. Talvez explorar mais as relações entre identidade, liberdade e transformação tornasse a experiência ainda mais potente.
E os intérpretes são um ponto importante. A presença das Influencias urbanas é muito evidente e, entre os dançarinos, existem alguns que realmente se destacam. Não apenas pela qualidade técnica, mas pela presença cênica e pela capacidade de sustentar a linguagem da obra.
No fim, All The Worlds me parece uma peça muito relevante principalmente pela sua pesquisa de linguagem. Talvez não seja uma obra que resolva todas as questões que apresenta (como a maioria das peças de dança contemporânea, não é mesmo?), mas é uma obra que experimenta e provoca sem medo.
E acho que é justamente por isso que o prêmio (Seul Arts Award) que recebeu faz sentido. Existe ali uma pesquisa visual e audiovisual muito consistente, uma escolha estética bastante definida e uma aproximação interessante entre as danças urbanas e outras possibilidades de construção cênica.
Parabéns a coreógrafa Kyun Eun Lee e a Cia Lee K-dance, Por trazer ao Brasil uma performance que confronta a delicadeza do contemporâneo com a potência das Danças Urbanas.
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