Dirigido por David Robert Mitchell, O Fim da Rua entrega diversão despretensiosa em blockbuster que apresenta um sabor único que já não vemos com tanta frequência no cinema
Quando o Doutor Alan Grant olhou boquiaberto para os brontossauros na icônica cena do primeiro Jurassic Park (1993, Steven Spielberg), não era somente o personagem que estava surpreso, mas toda a audiência, que experienciava aqueles dinossauros pela primeira vez e os enxergava como algo real e, acima de tudo, perigoso. Desde então, a própria franquia Jurassic Park tentou recapturar esse sentimento com os animais pré-históricos, sem muito sucesso. Faltavam um verdadeiro senso de perigo e um arco dramático potente, elementos que somente com O Fim da Rua parecem ser retomados.
Tirando logo o band-aid, é importante destacar que, apesar de o filme ser produzido por J.J. Abrams, ele não faz parte da franquia Cloverfield. Por consequência, dentro deste universo inédito e autoral, as possibilidades unem ficção científica a um filme de aventura no qual não importa o porquê de a rua ter desaparecido e viajado milhões de anos para o passado. O que importa é que aconteceu e, agora, uma tradicional família suburbana precisa lidar com esse fato.
Centralizar o drama em um pequeno núcleo familiar foi a melhor escolha de David Robert Mitchell. A adição do cachorro foi uma jogada de mestre à parte, porém, discutiremos isso mais à frente. A ideia de acompanhar uma família em crise e à beira do divórcio, na qual os filhos, ainda inocentes tanto em relação ao mundo quanto aos problemas dos próprios pais, precisam, de uma hora para outra, amadurecer e enfrentar forças que podem literalmente matá-los, traz um sentimento extremamente oitentista, digno das grandes aventuras de diretores como Steven Spielberg e Richard Donner.

Cena de “O Fim da Rua”- Divulgação Warner Bros Pictures
É incrível como O Fim da Rua segue uma estrutura que ironicamente deveria ter sido o direcionamento primordial de Jurassic World: Domínio (2022, Colin Trevorrow). Uma família, normal, tendo que sobreviver à dinossauros, porém, o fato de não ser uma franquia e sim um projeto autoral, inclusive dedicado ao pai do diretor, lhe deu liberdades que a franquia iniciada por Spielberg jamais conseguiria alcançar, o que é uma pena, pois no começo, era esta emoção que ditava as grandes produções.
Logo no início, a trilha sonora de Michael Giacchino nos transporta novamente para esse tipo de cinema e estabelece a atmosfera leve e despretensiosa que marcou tantas produções de um período no qual o blockbuster parecia menos preso às tendências mercadológicas atuais. Presente e constante durante todo o filme, Giacchino também conduz a narrativa por caminhos que, em determinados momentos, mal nos deixam respirar, principalmente pela tensão construída em torno de uma família completamente despreparada para aquela situação. Ainda assim, a narrativa nunca abandona o amor e a união como seus principais guias.
Ewan McGregor foi um acerto de escalação, principalmente pelo charme e pela humanidade que traz ao personagem. Porém, o maior destaque de O Fim da Rua é Anne Hathaway, que imprime brilho e controle à situação enquanto abraça não somente a figura materna, mas também funciona como alívio cômico e ponte dramática. Os personagens secundários, incluindo os filhos e os vizinhos, acabam orbitando esses dois astros. E, por último, temos o cachorro.
O Fim da Rua apresenta uma história original e transcendental? Não. Porém, dentro daquilo que se propõe, sabe preparar muito bem seu arroz com feijão, e a maior prova disso é Starbucks, o cachorro da família Platt. Ausente durante boa parte da produção, é ele quem conduz as buscas e consegue transmitir mais empatia à plateia do que até mesmo as crianças, que, por conta da idade, passam grande parte do filme gritando, correndo e chorando. Elas tentam proteger a família, mas frequentemente falham, como demonstra o próprio arco de Brian.
Quando Starbucks retorna no momento em que é mais necessário, nós, como audiência, já estamos tão imersos naquele perigo e na possibilidade de qualquer membro da família morrer a qualquer instante que simplesmente comemoramos ao descobrir que o cachorro está bem. O Fim da Rua se fortalece justamente nesse sentimento catártico, sabendo unir humor, leveza, tensão e drama. Não cria nada espetacular com nenhum desses elementos isoladamente, mas entrega uma produção que cumpre muito bem aquilo a que se propõe: entreter.

Cena de “O Fim da Rua”- Divulgação Warner Bros Pictures
Esteticamente, a reconstrução de época é muito bem realizada, trazendo uma atmosfera dos anos 80 tanto para a câmera, permitindo planos sequências e aproximações com seus personagens, quanto para a direção de arte e abraçando sem medo o espírito de Os Goonies (1985, Richard Donner). A comparação é inevitável, então O Fim da Rua sabiamente não tenta fugir dela.
Por consequência, os efeitos visuais variam entre o extremamente competente, principalmente nos dinossauros, que apresentam um realismo digno da tela grande, e alguns momentos pontuais em que tudo fica escrachado e artificial demais para passar despercebido. Sabiamente, David Robert Mitchell corta rapidamente essas sequências, evitando que elas nos retirem completamente da experiência.
É difícil refletir sobre o que poderia ser melhorado em O Fim da Rua, pois até mesmo a necessidade de abstrair certos aspectos científicos para embarcar plenamente na jornada parece fazer parte da proposta. Existem paradoxos metafísicos, principalmente no terceiro ato, e explicações que simplesmente nunca chegam, como exatamente por que aquela rua foi transportada para o passado. Mas, no fim das contas, isso pouco importa.
Audrey cantando Valerie no carro, o amor de Brian por Starbucks, os perigos representados pelos dinossauros e uma simples fotografia que Denise tira de Glen são os momentos que realmente permanecem conosco. São eles que fazem com que, ao final, reste uma constatação extremamente simples: “Nossa, que filme divertido”.
E, neste momento, precisamos de mais filmes assim.
Distribuído pela Warner Bros Pictures, O Fim da Rua chega aos cinemas no dia 13 de agosto.
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