Após um começo inusitado, Ted Lasso retoma a forma em um episódio que, muito além de colocar as peças em campo, estrutura um possível rumo para a temporada
Na medida em que analiso cada episódio da quarta temporada de Ted Lasso, é importante manter uma questão em mente: o que torna a série realmente grandiosa vai muito além de sua narrativa. Está no otimismo que foge do cinismo predominante na televisão há mais de 20 anos e, principalmente, em seus personagens, dos menores coadjuvantes aos protagonistas.
Quando o episódio se inicia ao som de Honky Cat, é praticamente uma resposta direta ao estranho capítulo norte-americano que abriu a temporada. Nós estamos de volta em Londres. A paleta de cores mudou, Mae retornou como a carismática dona do mesmo bar e, apesar de algumas coisas estarem diferentes, a essência continua a mesma.
Infelizmente, além de alguns flashes que provavelmente serão explorados no futuro, ainda temos poucas respostas sobre como o Richmond seguiu sem Ted. Roy e Keeley aparentemente se mantiveram como colegas distantes, retornando a um ponto de partida que já deveria ter evoluído, enquanto Beard continua em seu eterno vai e vem com Jane. Essa aparente falta de evolução merece ser discutida, mas a ausência de tantos personagens queridos acaba falando ainda mais alto.

Jude Mack em cena de “Ted Lasso”- Divulgação Apple+
O time masculino agora se resume a nomes escritos em um vestiário e é treinado por Roy Kent. É uma ausência que machuca, afinal, foram três temporadas acompanhando Dani Rojas, Isaac McAdoo e Sam Obisanya. Vê-los reduzidos a nomes frios em uma parede, inevitavelmente provoca um sentimento de abandono. Resta, então, abraçar as novas jogadoras do time feminino.
Sabiamente, Jason Sudeikis, Brendan Hunt e Joe Kelly continuam demonstrando uma excelente capacidade de fazer com que, em pouco tempo, nos identifiquemos e torçamos por personagens que mal conhecemos. Isso acontece justamente porque a série segue um dos maiores ensinamentos de Ted: querer conhecer a história de cada pessoa e compreender exatamente o que a motiva. Afinal: “Be curious, not judgmental”.
É seguindo esse princípio que Ted consegue atravessar a fria camada construída pela treinadora Chilton. E é justamente nela que o episódio encontra o que pode se tornar um dos maiores acertos da temporada, respondendo diretamente a uma das principais críticas levantadas quando a mudança de foco para o futebol feminino foi anunciada.
É incontestável que o futebol feminino recebe menos atenção mundial, orçamento, destaque e investimento. No Brasil, por exemplo, Marta foi escolhida seis vezes como a melhor jogadora do mundo, estabelecendo uma marca histórica, e ainda assim dificilmente recebe o mesmo espaço midiático dedicado a grandes nomes masculinos do futebol brasileiro.

Aisling Sharkey e Rex Hayes em cena de “Ted Lasso”- Divulgação Apple+
A quarta temporada de Ted Lasso compreende essa desigualdade e, sim, abraça uma perspectiva mais feminista. Porém, não faz isso a partir de um simples embate entre gêneros, mas de uma discussão sobre igualdade de oportunidades. A luta central do episódio gira em torno da necessidade de um vestiário decente para as mulheres, enquanto Rebecca precisa lidar com a própria misoginia internalizada, enquanto Ted em nenhum momento rebaixa ou menospreza a força da treinadora Chilton, que merece um destaque à parte.
Facilmente, Chilton poderia ter sido apresentada apenas como uma personagem antipática para, somente mais adiante, revelar as razões por trás de seu comportamento, repetindo uma construção semelhante à utilizada com Jamie Tartt. Quebrando essa expectativa, Ted Lasso permite que Tanya Reynolds revele rapidamente as rachaduras dessa armadura por meio de pequenos sorrisos e gestos.
Chilton construiu uma persona rígida para conseguir sobreviver e crescer profissionalmente. Em sua perspectiva, demonstrar qualquer sinal de fraqueza sendo uma mulher em um ambiente historicamente masculino significaria comprometer a posição que conquistou. A conversa final entre ela e Rebecca sintetiza essa questão sem precisar transformá-la em um grande discurso expositivo.
Da mesma forma, a humildade de Ted diante da nova treinadora, lendo seus textos e reconhecendo abertamente suas ideias, evita um conflito artificial entre os dois. O episódio prefere concentrar sua discussão em uma questão social e estrutural muito mais interessante: se o futebol feminino é menos reconhecido, por que isso acontece e quais estruturas perpetuam essa diferença?

Jason Sudeikis e Tanya Reynolds em cena de “Ted Lasso”- Divulgação Apple+
Essa talvez seja uma das características mais importantes de Ted Lasso. A série retrata o mundo como ele é, mas, acima de tudo, imagina como ele poderia ser.
Dentro dessa perspectiva feminista, o episódio não precisa diminuir seus personagens masculinos para fortalecer as mulheres. Em vez disso, compreende que existem diferentes formas de força e que igualdade não significa substituir quem ocupa o topo, mas permitir que outras pessoas também tenham condições de chegar até lá.
É justamente aí que o segundo episódio encontra a identidade que parecia perdida na estreia. Ainda existem questões preocupantes, principalmente envolvendo a ausência e a estagnação de personagens que acompanhamos durante três temporadas, mas finalmente existe um caminho claro para essa nova fase.
As peças não foram apenas colocadas em campo: agora começamos a entender qual partida Ted Lasso pretende jogar.
E as promessas para os próximos capítulos são altas. Afinal, já no segundo episódio temos um daqueles famosos monólogos emocionantes de Ted, e mais uma vez, ele não decepciona.
Disponível na Apple TV+, a quarta temporada de Ted Lasso já conta com dois episódios na plataforma, com novos capítulos lançados semanalmente até o início de outubro.
Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!



