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Brasileirão 2026: Flamengo, Palmeiras e Cruzeiro lideram favoritismo; veja chances do Vasco
EsportesCrítica

Flamengo x Vasco – A hipocrisia do fair play e por que um Gigante forte faz bem ao futebol

Movimento para questionar os gastos do Vasco durante a recuperação judicial levanta uma discussão que vai além das finanças: até onde vai a preocupação com o futebol brasileiro e onde começa o interesse esportivo do próprio Flamengo?

Por Alvaro Tallarico
Última Atualização 18 de agosto de 2026
16 Min Leitura
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Tópicos
  • Flamengo e Vasco não precisam de um dos dois em crise para que a rivalidade exista.
  • E aqui entra a curiosa memória seletiva do futebol
  • A posição de Venê transforma uma disputa regulatória em narrativa moral
  • Leia mais

O Flamengo decidiu acionar a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF) para pedir uma análise sobre a situação financeira do Vasco. A justificativa é conhecida: o clube cruz-maltino está em recuperação judicial, busca um empréstimo emergencial de R$ 150 milhões e, ao mesmo tempo, tenta se movimentar no mercado para reforçar o elenco. O jornalista Venê Casagrande classificou o movimento como uma “contribuição para o bem do futebol brasileiro”. É justamente essa conclusão que merece ser discutida.

Não porque o Vasco deva ficar acima das regras. Muito pelo contrário. Um clube em recuperação judicial precisa ter responsabilidade, transparência e capacidade de demonstrar que seus compromissos podem ser honrados. Se houver irregularidade, que seja investigada. Se houver descumprimento das regras, que exista punição. O que não parece razoável é transformar uma iniciativa de um concorrente direto em uma espécie de ato altruísta em defesa do futebol nacional.

Chama atenção o papel de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, presidente do Flamengo, nessa discussão. Ao levar o caso do Vasco à ANRESF, o dirigente coloca o clube rubro-negro como fiscal de uma situação financeira que envolve diretamente um de seus principais rivais.

Movimento do Flamengo ao notificar agência de fair play sobre gastos do Vasco é uma contribuição para o bem do futebol brasileiro >>> https://t.co/aqNtEnHt7q

Foto: Flamengo pic.twitter.com/3zo2TMCJ73

— Venê Casagrande (@venecasagrande) August 18, 2026

Mas existe uma pergunta bastante simples nessa história: o que seria melhor para o futebol brasileiro e, principalmente, para o próprio Flamengo? Um Vasco quebrado e incapaz de competir ou um Vasco forte, organizado e novamente disputando títulos?

A resposta, para mim, é bastante óbvia.

O Vasco não é simplesmente mais um clube brasileiro. É uma das instituições mais importantes da história do futebol nacional. Sua trajetória está ligada à luta contra o racismo e à democratização do esporte, sua torcida ultrapassa as fronteiras do Brasil e seus grandes jogadores ajudaram a construir a memória do futebol brasileiro.

Roberto Dinamite, Romário, Edmundo, Juninho Pernambucano, Bebeto e tantos outros passaram por São Januário. O clube revelou talentos, ganhou títulos nacionais e internacionais e protagonizou durante décadas uma das maiores rivalidades do país.

O próprio nome “Clássico dos Milhões” explica parte dessa dimensão.

Flamengo e Vasco não precisam de um dos dois em crise para que a rivalidade exista.

Flamengo
Foto: Gilvan de Souza/CRF

Na verdade, acontece justamente o contrário. Quando os dois estão fortes, o clássico ganha importância, audiência, público e repercussão. Quando os dois disputam títulos, o futebol carioca ganha força.

E isso interessa ao Flamengo. Ou deveria interessar.

Um Flamengo forte contra um Vasco forte é muito mais interessante do que um Flamengo forte contra um Vasco que passa anos tentando simplesmente sobreviver.

O Vasco está em recuperação judicial e pretende contratar. É uma situação que naturalmente exige atenção.

O clube pediu autorização para um novo empréstimo de R$ 150 milhões, que seria utilizado para manter o fluxo de caixa até o final do ano e permitir a contratação de jogadores. A Justiça, porém, determinou diligências antes de analisar o pedido, incluindo uma auditoria.

Portanto, não existe simplesmente um cenário em que o Vasco recebeu R$ 150 milhões e saiu às compras.

Existe um processo judicial em andamento.

O clube também avalia recorrer da decisão e, diante da demora, já considera alternativas no mercado. Jogadores livres e empréstimos podem ganhar prioridade, enquanto contratações mais caras, como as de Brian Rodríguez e John Mercado, podem ficar em segundo plano.

É uma situação delicada, mas que faz parte da tentativa de reconstrução de uma instituição que passou por anos de problemas financeiros e administrativos.

E aqui aparece uma diferença importante: questionar o Vasco é legítimo; tratar sua reconstrução como uma ameaça ao futebol brasileiro é outra coisa.

A gestão de Pedrinho já gastou perto de R$ 200 milhões em atacantes, segundo os números divulgados. Entre as contratações estão Emerson Rodríguez, Maxime Domínguez, Jean David, Garré, Nuno Moreira, Loide Augusto, Andrés Gómez, Hinestroza, Spinelli, Brenner e Facundo Colidio, além de Alex Teixeira, contratado sem custos, e outros movimentos por empréstimo.

O investimento não resolveu todos os problemas. O Vasco continua procurando um meio-campista e atravessa uma sequência de três partidas sem marcar gols.

Mas existe uma diferença fundamental entre isso e simplesmente jogar dinheiro fora.

O clube está tentando reconstruir um elenco competitivo enquanto reorganiza suas finanças. Pode errar em contratações, pode acertar, pode precisar mudar sua estratégia. Isso faz parte do futebol.

Encontro da SAF com o Pedrinho novo presidente do Club de Regatas Vasco da Gama em 12 de Novembro de 2023. Foto: Matheus Lima/Vasco.
Foto: Matheus Lima/Vasco.

O que não se pode fazer é pressupor que um clube em recuperação judicial deva permanecer eternamente condenado à mediocridade esportiva.

A recuperação judicial deveria servir justamente para que o Vasco possa reorganizar suas obrigações e voltar a funcionar de maneira saudável.

E aqui entra a curiosa memória seletiva do futebol

A discussão sobre fair play financeiro seria muito mais convincente se fosse tratada sempre da mesma maneira, independentemente do tamanho do clube.

O Flamengo de hoje é uma potência financeira. Isso é inegável e precisa ser reconhecido. O clube aumentou receitas, profissionalizou sua administração e construiu uma estrutura econômica muito superior àquela que possuía em períodos anteriores.

Mas também é importante lembrar que o Flamengo não nasceu como a potência financeira atual.

Houve um longo processo de reorganização das contas rubro-negras até que o clube chegasse ao patamar de hoje. E isso deveria servir de argumento a favor da recuperação de outros gigantes, não contra ela.

Mais do que isso: o Flamengo também fez investimentos gigantescos no mercado.

Somente na gestão atual, os gastos com contratações ultrapassaram R$ 900 milhões, considerando direitos econômicos, luvas e comissões. Lucas Paquetá sozinho representou uma operação que chegou a mais de R$ 315 milhões.

Novamente: isso não significa que o Flamengo tenha feito algo errado.

Se está dentro das regras, deve contratar.

Mas exatamente a mesma lógica precisa valer para o Vasco.

O valor de uma contratação não determina sozinho se existe fair play ou não. O contexto financeiro, a origem dos recursos, as garantias e o cumprimento das regras é que precisam ser analisados.

Existe ainda outra ironia nessa discussão…

O Flamengo possui uma capacidade financeira muito maior que a do Vasco, mas dinheiro não elimina todos os problemas. O clube também fechou o primeiro semestre de 2026 com déficit, enquanto os custos relacionados aos contratos de jogadores cresceram.

Isso não coloca Flamengo e Vasco no mesmo patamar. Seria absurdo fazer essa comparação.

O Flamengo tem uma estrutura financeira muito mais sólida e não está vivendo a mesma situação jurídica complicada do Vasco.

Mas serve para lembrar que o futebol não funciona apenas com grandes receitas e grandes contratações. Até os clubes mais ricos precisam controlar fluxo de caixa, salários, amortizações, luvas, comissões e compromissos futuros.

Por isso, se a discussão é realmente sobre responsabilidade financeira, ela precisa ser técnica.

Não deveria ser uma arma utilizada contra um adversário.

Talvez esse seja o ponto que mais incomode na atual discussão.

Um Vasco forte não representa necessariamente um problema para o Flamengo. Representa uma oportunidade.

Um Vasco competitivo significa clássicos mais importantes. Significa mais audiência. Significa mais interesse nacional. Significa estádios cheios. Significa maior valor comercial para o futebol carioca.

vasco coutinho
Fotos: Matheus Lima/Vasco

Imagine Flamengo e Vasco disputando um jogo de Libertadores.

Imagine os dois brigando pelo título do Campeonato Brasileiro.

Imagine outra final de Copa do Brasil entre os dois.

Isso não diminui o Flamengo.

Pelo contrário.

Vencer um Vasco forte vale mais esportivamente do que vencer um rival enfraquecido por anos de crise.

Um gigante não fica menor porque outro gigante volta a crescer.

A história do Vasco deveria ser tratada como patrimônio do futebol brasileiro

Há uma razão para o Vasco despertar tanta paixão mesmo depois de tantos anos difíceis.

Não é apenas futebol. É história. É identidade. É uma torcida espalhada pelo Brasil. É a camisa que carrega a cruz de malta. É São Januário. É a memória de Dinamite. É a Resposta Histórica.

É a luta contra o racismo no futebol.

É uma instituição que ajudou a transformar o esporte brasileiro.

Por isso, a recuperação do Vasco interessa ao próprio futebol brasileiro.

O país não ganha nada quando seus grandes clubes desaparecem da disputa. O que o futebol brasileiro precisa é de mais clubes fortes, profissionalizados e financeiramente responsáveis.

O Vasco precisa voltar a ser um deles.

Existe uma preocupação legítima com a possibilidade de clubes gastarem dinheiro que não possuem. Se isso acontecer, as regras precisam ser aplicadas.

O problema surge quando o discurso de responsabilidade financeira começa a produzir outro efeito: impedir que clubes tradicionais recuperem sua capacidade competitiva enquanto aqueles que já possuem enormes receitas continuam ampliando sua vantagem.

Isso seria péssimo para o Brasil.

O fair play financeiro deveria criar equilíbrio e sustentabilidade, não congelar a hierarquia atual do futebol.

Se o Vasco encontrar financiamento legal, aumentar suas receitas, cumprir seu plano de recuperação, pagar suas dívidas e respeitar as regras para contratar, não há razão para que seja impedido de voltar a disputar títulos.

É justamente esse o objetivo de uma reconstrução.

O Flamengo não precisa defender o Vasco.

Não precisa emprestar dinheiro ao Vasco.

Não precisa ajudar a contratar jogadores.

Não precisa abrir mão de nenhuma vantagem competitiva.

Mas deveria entender uma coisa que parece bastante simples: o futebol brasileiro fica melhor quando seus gigantes estão fortes.

O Flamengo já provou que é possível sair de uma situação financeira complicada, reorganizar a administração e transformar o clube em uma potência.

O Vasco está tentando fazer algo semelhante, embora parta de uma situação muito mais complicada.

É natural que existam críticas. É necessário fiscalizar. É fundamental cobrar responsabilidade.

Mas torcer é, pior que isso, se esforçar para que o Vasco não consiga se reconstruir é outra história.

E é aí que a tese de que o movimento do Flamengo seria automaticamente “pelo bem do futebol brasileiro” fica difícil de sustentar.

O Vasco não precisa de privilégio. Precisa de oportunidade para se reconstruir dentro das regras.

Precisa pagar suas dívidas, organizar suas contas, aumentar receitas, profissionalizar processos e montar um elenco que caiba no orçamento.

Mas também precisa voltar a competir.

Porque o futebol brasileiro já tem clubes demais vivendo crises intermináveis. O que falta não é mais um gigante enfraquecido. Falta justamente recuperar aqueles que deveriam estar brigando na parte de cima da tabela.

O Vasco tem torcida, história, marca, estádio, tradição e um dos maiores patrimônios culturais do futebol brasileiro. Tem tudo para voltar a ser o Gigante que disputa e vence vários títulos.

E, quando isso acontecer, o Flamengo continuará sendo Flamengo.

Só que terá novamente um adversário à altura.

No fim das contas, talvez essa seja a maior ironia de toda a história: um Vasco forte não é uma ameaça ao Flamengo. É uma das melhores coisas que poderiam acontecer ao próprio Flamengo e ao futebol brasileiro.

O fair play deve ser respeitado por todos. As regras precisam valer para todos. Mas a grandeza do futebol brasileiro também depende de permitir que seus grandes clubes voltem a ser grandes.

Marino - Vasco da Gama x Olimpia pela Copa Sudamericana realizado no Estádio de São Januário em 30 de Abril de 2026. Fotos: Matheus Lima/Vasco.
Vasco da Gama x Olimpia pela Copa Sudamericana realizado no Estádio de São Januário em 30 de Abril de 2026. Fotos: Matheus Lima/Vasco.

E o Vasco, gostem ou não seus adversários, é grande demais para ser tratado apenas como um problema financeiro.

A posição de Venê transforma uma disputa regulatória em narrativa moral

É justamente nesse ponto que a declaração de Venê Casagrande merece ser contestada.

Dizer que a iniciativa é uma “contribuição para o bem do futebol brasileiro” pressupõe que o Flamengo esteja agindo principalmente em defesa do coletivo.

Os fatos permitem uma interpretação mais simples: o Flamengo está defendendo uma posição regulatória que considera correta e que também protege seus interesses competitivos.

Não há nada de errado nisso.

Clubes defendem seus interesses.

O Vasco faz isso.

O Flamengo faz isso.

O Palmeiras faz isso.

O Corinthians faz isso.

O Botafogo faz isso.

O que não parece razoável é exigir que o público aceite uma ação de um dos concorrentes como se ela fosse equivalente à atuação de um órgão regulador independente.

A ANRESF existe justamente para isso.

A questão decisiva do fair play brasileiro não será saber se o Vasco poderá contratar.

Será descobrir se o sistema terá coragem de impor limites também aos clubes mais poderosos.

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PorAlvaro Tallarico
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Jornalista especializado em Jornalismo Cultural pela UERJ.

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