Dirigido por André Sturm, A Conspiração Condor se propõe a construir um thriller político ancorado em um dos períodos mais revisitados do cinema nacional: a Ditadura Militar.
Em certos momentos, o vídeo do Porta dos Fundos que ironicamente alimenta a história que os militares são os maiores responsáveis pelo cinema nacional, é cada vez mais perto da realidade. O contexto da Ditadura Militar segue fértil, e ainda relevante, como já demonstraram recentemente Ainda Estou Aqui (2024, Walter Salles), e O Agente Secreto (2025, Kleber Mendonça FIlho). Ainda assim, A Conspiração Condor busca um caminho próprio ao mergulhar na homônima: Operação Condor e suas possíveis ramificações não somente dentro do Brasil, mas em todo o mundo.
A narrativa acompanha Silvana, uma jornalista que investiga as mortes de Juscelino Kubitschek e João Goulart em 1976, suspeitando de uma conspiração internacional envolvendo regimes militares sul-americanos. A proposta remete diretamente ao clássico Todos os Homens do Presidente (1976, Alan J. Pakula), evocando o jornalismo investigativo como motor dramático.

Mel Lisboa em cena de “A Conspiração Condor”- Divulgação Pandora Filmes
No entanto, é justamente na execução desse thriller que A Operação Condor encontra suas maiores fragilidades.
Embora o contexto seja naturalmente tenso, A Conspiração Condor raramente transmite um senso real de perigo. Silvana conduz sua investigação de maneira excessivamente segura para uma jornalista inserida em um regime repressivo: discute teorias em espaços públicos, confia em personagens pouco confiáveis e, apesar de todos ao seu redor estarem sujeitos à violência do Estado, permanece praticamente intocável. A ausência de consequências enfraquece não apenas a personagem, mas toda a narrativa.
Esse problema se reflete também na construção dramática. Em vez de uma protagonista que impulsiona a história, vemos alguém que reage passivamente aos acontecimentos. O perigo não é construído, ele é apenas sugerido. E, sem urgência ou risco palpável, o filme perde o elemento essencial de qualquer thriller.
Tecnicamente, a produção apresenta ambições claras. A fotografia aposta em planos-sequência e câmera em movimento, buscando tensão através da encenação, enquanto a trilha sonora, baseada em piano e cordas, tenta reforçar um clima de melancolia e apreensão. Em alguns momentos, a paleta de cores dessaturada contribui para essa atmosfera. Ainda assim, esses recursos raramente se convertem em impacto emocional.
O orçamento modesto, cerca de 6 milhões de reais, também se faz notar. Apesar de um esforço competente na recriação de época, certas limitações comprometem a verossimilhança: ruas vazias demais, cenários pouco povoados e quedas pontuais na qualidade de áudio quebram a imersão.

Dan Stulbach, Mel Lisboa e Maria Manoella em cena de “A Conspiração Condor”- Divulgação Pandora Filmes
Há também escolhas que destoam do tom proposto. Sequências que retratam a idealização da operação por agentes norte americanos flertam demais com o exagero, evocando uma estética quase caricatural, próxima de filmes de espionagem mais estilizados, o que enfraquece a seriedade do tema. Enquanto participações especiais, como Pedro Bial interpretando Carlos Lacerda, e o próprio Sturm em cena, acabam chamando mais atenção para si do que contribuindo para a narrativa.
Ainda assim, o filme tem seus méritos. Ao abordar a Frente Ampla e outros aspectos menos explorados da ditadura, amplia o repertório histórico do cinema nacional recente e reforça a importância do jornalismo investigativo como ferramenta de memória e resistência.
Entre o didatismo e o exagero, A Conspiração Condor resgata um recorte histórico relevante, mas falha onde mais importa: na construção de tensão. Sem perigo real, não há thriller, apenas encenação.
Distribuído pela Pandora Filmes, A Conspiração Condor estreia nos cinemas no dia 09 de Abril.
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