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Sandrine Kiberlain em cena de "A Divina Sarah Bernhardt"- Divulgação Imovision
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘A Divina Sarah Bernhardt’ entrega humanidade demais para alguém que deveria ser sagrada

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 6 de julho de 2026
6 Min Leitura
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Sandrine Kiberlain em cena de "A Divina Sarah Bernhardt"- Divulgação Imovision
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Dirigido por Guillaume Nicloux, A Divina Sarah Bernhardt tropeça em estabelecer um fio condutor sólido para sua narrativa, transformando a história em uma sucessão de cenas isoladas que evidenciam a principal fragilidade do filme.

A regra do show, don’t tell é um dos princípios fundamentais da narrativa. Mostrar personagens vivenciando acontecimentos marcantes, em vez de apenas informar que eles aconteceram, é o que pode elevar ou comprometer qualquer obra. Em A Divina Sarah Bernhardt, as boas intenções estão presentes desde o início, mas rapidamente fica evidente que essa lógica é invertida. O filme prefere contar quem Sarah foi a demonstrar por que ela se tornou uma figura tão extraordinária, e é justamente aí que sua narrativa desmorona.

A cinebiografia acompanha a trajetória de Sarah Bernhardt, considerada uma das primeiras celebridades da história. Logo nos primeiros minutos, há uma cena em que um grupo de admiradores lhe pede autógrafos, evidenciando sua fama. Entretanto, justamente quando o público deveria criar empatia pela protagonista, o roteiro de Nathalie Leuthreau fracassa em aproximá-la do espectador. Como consequência, resta apenas uma alternativa: construir sua imagem por meio dos discursos de todos que a cercam.

O círculo social de Sarah reunia colegas de profissão e figuras históricas como Sigmund Freud, Victor Hugo e Alexandre Dumas. Em uma espécie de desfile de personalidades ilustres, o longa espera que o espectador aceite sem questionamentos que está diante da “divina Sarah Bernhardt”. Afinal, ela foi revolucionária, rompeu barreiras, influenciou gerações de atrizes, defendia o amor livre em uma época de fortes convenções sociais e desafiava os costumes de seu tempo. O problema é que quase nada disso é efetivamente mostrado.

Laurent Lafitte e Sandrine Kiberlain em cena de "A Divina Sarah Bernhardt"- Divulgação Imovision

Laurent Lafitte e Sandrine Kiberlain em cena de “A Divina Sarah Bernhardt”- Divulgação Imovision

Alternando entre diferentes períodos, que transitam de 1896, quando Sarah já era mundialmente reconhecida, até sua quase morte, em 1923, a produção dedica menos atenção à sua carreira artística e concentra seus esforços no relacionamento com o ator Lucien Guitry, apresentado como o grande amor de sua vida. No entanto, essa linha narrativa se desenvolve de maneira tão dispersa quanto o restante do filme.

Decisões questionáveis, acontecimentos que o roteiro simplesmente espera que o espectador aceite e situações sem relevância dramática fazem de A Divina Sarah Bernhardt uma cinebiografia cansativa, incapaz de funcionar tanto como homenagem quanto como uma obra que se sustente por seus próprios méritos.

Tecnicamente, o elemento que mais compromete a experiência é a montagem. As cenas parecem não estabelecer continuidade entre si, as constantes mudanças temporais tornam a narrativa confusa e a jornada da protagonista jamais se desenha com clareza. Como consequência, surge uma pergunta inevitável: o que, afinal, fazia de Sarah Bernhardt uma figura tão extraordinária?

Sandrine Kiberlain em cena de "A Divina Sarah Bernhardt"- Divulgação Imovision

Sandrine Kiberlain em cena de “A Divina Sarah Bernhardt”- Divulgação Imovision

Seria apenas seu talento como atriz? O filme nunca consegue transmitir essa sensação. Em vez disso, apresenta uma mulher movida pelo ego, por impulsos juvenis e por decisões frequentemente motivadas por ciúmes e vaidade, enquanto personagens ao seu redor insistem em exaltar sua genialidade. O problema é que repetir sua grandeza não basta. Sem demonstrá-la em cena, torna-se difícil para o público torcer por Sarah ou sequer desenvolver empatia por ela.

A reconstituição de época impressiona pela riqueza dos detalhes e pela direção de arte refinada. Ainda assim, o aspecto narrativo permanece aquém do esperado. O roteiro prefere dedicar tempo a discussões sobre antigos amantes de Sarah em vez de explorar esses relacionamentos na prática, menciona repetidamente seu joelho debilitado sem contextualizar a origem do problema e deixa escapar inúmeras oportunidades de revelar a humanidade da mulher por trás do mito.

Ao final, o sentimento predominante é de exaustão. A Divina Sarah Bernhardt não entrega uma narrativa coesa, tampouco constrói uma homenagem à altura de sua protagonista. Guillaume Nicloux busca realizar um épico sobre uma das maiores atrizes da história da França, mas a estrutura fragmentada e a incapacidade de demonstrar a grandeza de Sarah fazem com que o filme se aproxime muito mais de uma conturbada história de amor do que da celebração de um verdadeiro ícone.

Distribuído pela Imovision, A Divina Sarah Bernhardt estreia nos cinemas brasileiros em 16 de julho de 2026.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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