Dirigido por Miguel Ángel Vivas Moreno, A Trégua tenta construir uma narrativa sobre união em meio aos horrores da guerra, mas acaba preso em um ciclo repetitivo que enfraquece o impacto de sua proposta.
Existem boas intenções espalhadas por toda a produção de Miguel Ángel Vivas Moreno, especialmente na tentativa de transformar o longa em um retrato político e humano da sobrevivência em tempos extremos. No entanto, escolhas de roteiro e problemas de execução fazem com que A Trégua nunca alcance plenamente o potencial dramático que possui.
A trama acompanha dois soldados inimigos da Guerra Civil Espanhola que acabam presos no mesmo Gulag soviético durante a Segunda Guerra Mundial. A partir dessa premissa, o filme opta por uma abordagem visual fria e sufocante. O sol raramente aparece, o campo de concentração é retratado de forma constantemente cinzenta e decadente, e a fotografia mergulha seus personagens na escuridão como reflexo da ausência de esperança. Embora a intenção estética seja clara, o resultado perde força pela insistência excessiva nesses elementos, tornando a experiência visual cansativa em vez de imersiva.

Cena de “A Trégua”- Divulgação Synapse Distribution
O principal problema de A Trégua está em sua estrutura narrativa. Com 151 minutos de duração, o longa exige um nível de envolvimento emocional que nunca consegue sustentar. Poucas produções contemporâneas justificam ultrapassar duas horas e meia de duração, e aqui o excesso de tempo apenas evidencia a repetição de situações. O roteiro insiste nos mesmos ciclos: os personagens comem, trabalham, brigam, dormem e recomeçam. Em vez de aprofundar os conflitos internos ou fortalecer os laços entre os protagonistas, a narrativa parece girar em círculos.
O foco em Salgado e Telmo Reyes frequentemente se dissolve em meio à grande quantidade de personagens do campo de concentração. Existe uma clara tentativa de mostrar o coletivo acima do indivíduo, reforçando a ideia de que aqueles homens estão presos não apenas fisicamente, mas também ideologicamente, divididos entre si em vez de unidos contra o verdadeiro inimigo. Ainda assim, essa escolha reduz o impacto emocional da história, já que poucos personagens conseguem desenvolver carisma ou presença suficiente para sustentar o interesse do espectador.
Existem momentos pontuais de força dramática. As sequências nas minas carregam uma sensação genuína de desgaste físico, enquanto a cena envolvendo a apresentação de violino surge como um raro instante de humanidade em meio à brutalidade do ambiente. O longa também acerta ao abordar simbolismos políticos, especialmente na representação opressiva do stalinismo e na presença marcante da imagem de Joseph Stalin dominando o cenário. Há ainda certa poesia na forma como o filme retrata a decadência da Alemanha nazista ao longo da narrativa.

Cena de “A Trégua”- Divulgação Synapse Distribution
Apesar disso, esses momentos acabam diluídos dentro de uma condução excessivamente contemplativa. A sensação constante é de que o filme funcionaria melhor com cerca de 100 minutos, concentrando seus esforços nos conflitos centrais e nas passagens mais impactantes da trama. Nem mesmo o epílogo, que aposta em uma conclusão sentimental envolvendo personagens mais velhos se reencontrando após a guerra, consegue evitar a sensação de vazio deixada pelo desfecho.
Baseado em uma história real, A Trégua possui uma premissa poderosa e relevantes discussões históricas, mas falha em transformar seus elementos em uma experiência verdadeiramente memorável. Fica a impressão de que, com um direcionamento mais objetivo e uma narrativa menos repetitiva, o longa poderia ter alcançado muito mais força emocional e política do que efetivamente entrega.
Distribuído pela Synapse Distribution, A Trégua chega no streaming da Adrenalina+ no dia 21 de Maio.
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