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Mai Davika Hoorne e Witsarut Himmarat em cena de "A Useful Ghost"- Divulgação Pandora
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘A Useful Ghost’ impressiona dentro de narrativa desfocada

Por
André Quental Sanchez
Última Atualização 29 de dezembro de 2025
6 Min Leitura
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Mai Davika Hoorne e Witsarut Himmarat em cena de "A Useful Ghost"- Divulgação Pandora
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Dirigido por Ratchapoom Boonbunchachoke, A Useful Ghost é uma produção original e, ao mesmo tempo, desfocada em seu retrato de humor, absurdos e drama histórico

O realismo mágico consegue transmitir, de forma alegórica e imagética, acontecimentos e situações que perderiam força caso fossem estruturados de maneira realista e pé no chão. Assim, o fantasma de uma mulher que retorna na forma de um aspirador de pó com o intuito de proteger o marido, sendo obrigada a exorcizar outros fantasmas apenas para provar seu amor, torna-se um prato cheio tanto para o humor absurdo quanto para um retrato dos acontecimentos políticos da Tailândia. É nesse universo que se encontra o interessante, o original e, ao mesmo tempo, o cansativo: A Useful Ghost.

Pré-indicado pela Tailândia ao Oscar de 2026, o filme se utiliza de uma narrativa-moldura, uma história dentro de outra, para contar a trajetória de Nat, Davika Hoorne, uma mulher que reencarna como um aspirador de pó para continuar sua vida ao lado do marido, March, Wisarut Himmarat. À medida que o relacionamento dos dois se fortalece, a família de March passa a questionar a relação sobrenatural, levando Nat a exorcizar a fábrica da família, repleta de fantasmas, como forma de se provar útil e digna do filho.

Cena de "A Useful Ghost"- Divulgação Pandora

Cena de “A Useful Ghost”- Divulgação Pandora Filmes

Sabiamente, em nenhum momento é explicitado o motivo pelo qual Nat possui essa habilidade tão inusitada de reencarnação, e afinal, este não é o foco da história. Dessa forma, A Useful Ghost segue duas vertentes principais. A primeira é humorística e romântica, ligada ao núcleo de Nat e March, que se adaptam a essa nova vida de casal. March enxerga o aspirador em toda a beleza e forma de sua esposa falecida, enquanto o restante do mundo vê apenas um eletrodoméstico, e estas situações geram tanto humor quanto desconforto.

A segunda vertente é dramática e se conecta a questões políticas e morais. Afinal, à medida que Nat exorciza outros fantasmas apenas para conquistar a admiração da família, não estaria traindo sua própria natureza? No fim, a resposta pouco importa, pois a produção de Boonbunchachoke, apesar de interessante e original em sua construção, parece desfocada quanto ao direcionamento narrativo que deseja seguir, apresentando uma multiplicidade de tons que ao final, faz com que o espectador perca o engajamento com a narrativa.

Tecnicamente, o filme surpreende em diversos momentos: o manuseio do aspirador, que anda, fala e parece realmente vivo; a composição de cores monocromáticas que salta da tela; a cuidadosa direção de arte; e o uso da trilha sonora como ferramenta de imersão nesse mundo fantástico. Ainda assim, o filme falha em sua narrativa engordurada que aborda alegoricamente momentos e discussões relevantes para a Tailândia, mas que sem uma pesquisa anterior, o público internacional não consegue compreender em sua plenitude.

Mai Davika Hoorne em cena de "A Useful Ghost"- Divulgação Pandora

Mai Davika Hoorne em cena de “A Useful Ghost”- Divulgação Pandora Filmes

Com duas horas e dez minutos de duração, A Useful Ghost apresenta momentos únicos dentro da cinematografia mundial, enquanto outros sofrem com uma grande “barriga”, em que o espectador aguarda por acontecimentos que nunca chegam. Nessa dupla jornada, uma de Nat e March, outra de Ladyboy e Krong, o eu-lírico da história, o filme tangencia temas diversos como crise da poluição, militarismo, relacionamentos queer e levantes populares. Todos deixam sua marca, mas parecem dispersos diante de uma pergunta simples: “Sobre o que é este filme, afinal?”

Cada espectador chegará a sua própria conclusão sobre A Useful Ghost. Para mim, a história de amor entre Nat e March é muito mais potente do que a alegoria LGBTQIA+ presente no arco de Krong e Ladyboy, ou do que os fantasmas que retornam para se vingar de patrões capitalistas após serem descartados e silenciados. Em um filme tão rico e, ao mesmo tempo, tão desfocado, uma certeza permanece: ele dificilmente será esquecido.

Distribuído pela Pandora Filmes, A Useful Ghost – Uma Ajuda do Além foi o grande vencedor do Grand Prix no Festival de Cannes de 2025 e estreia nos cinemas brasileiros em 8 de janeiro de 2026.

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Tags:A Useful GhostCinemacríticaCritica A Useful GhostIndicado Tailandia OscarOscar 2026oscar melhor filme internacionalpandora filmesRatchapoom Boonbunchachoke
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