Dirigido por Alexe Poukine, A Vida Secreta de Kika é uma lenta, porém interessante, descida ao submundo do BDSM e, sobretudo, à coragem e vulnerabilidade do ser humano.
Ao analisarmos a cinematografia francesa, percebemos a recorrência de protagonistas envolvidas com o trabalho sexual de alguma forma. Desde as produções grandiosas de Jean-Luc Godard até fábulas antológicas como O Amor Através dos Séculos (1967, Franco Indovina, Michael Pfleghar, Claude Autant-Lara, Mauro Bolognini, Philippe de Broca e Godard), passando por retratos íntimos como A Bela da Tarde (1967, Luis Buñuel), o cinema francês tem dado voz a personagens marginalizadas enquanto enfrenta tabus da sexualidade, trazendo mulheres complexas e fortes para o centro da narrativa, sendo dentro desta tradição que se insere A Vida Secreta de Kika.
A trama acompanha Kika, uma assistente social recém-viúva que, para sustentar a filha e o bebê que está por nascer, adentra o universo do BDSM como forma de garantir o sustento. À medida que aprende as práticas desse mundo, faz amizades e descobre uma nova autoestima, um processo de redescoberta pessoal mais do que uma simples necessidade econômica.

Manon Clavel em cena de “A Vida Secreta de Kika”- Divulgação Festival do Rio
A promessa inicial de A Vida Secreta de Kika girava em torno de um relacionamento extraconjugal entre Kika e David, um mecânico de bicicletas que ela conhece por acaso. Contudo, ao longo da narrativa, tanto David quanto o marido de Kika falecem, e o filme revela-se uma jornada profundamente interna, uma travessia emocional e simbólica que culmina na bela cena final, em que Kika se expõe e se abre para novos caminhos, livre de julgamentos.
As experiências de Kika são bem menos eróticas ou transcendentes do que as de Catherine Deneuve em A Bela da Tarde. Diferente da personagem de Buñuel, Kika não busca prazer, mas sobrevivência. É um percurso mais terreno e realista, porém, até o filme encontrar esse tom, o ritmo pode parecer lento: a narrativa não poupa o espectador de observar cada detalhe e cada simbolismo, reforçando o arco de transformação da protagonista.
As interações de Kika com as demais trabalhadoras do sexo são o ponto alto da produção, apresentando diálogos repletos de ironia e humor que humanizam o tema, tratando-o com naturalidade, sem o peso do tabu. O mesmo vale para os clientes, como o homem com uma doença genética que o faz sentir dor constante e busca o BDSM como forma de controlar essa dor, ou o senhor idoso que encontra conforto ao se vestir e agir como um bebê, em momentos que equilibram empatia e estranhamento, provocando o espectador a repensar seus próprios preconceitos.
Com uma fotografia em tons sépia e uma iluminação que oscila entre o realismo e o onírico, especialmente em uma cena final de coloração vermelha intensa, A Vida Secreta de Kika conduz a uma jornada de amadurecimento da protagonista, que juntamente com a audiência, se permite rir, refletir e, sobretudo, compreender a coragem envolvida na aceitação dos próprios desejos.

Manon Clavel em cena de “A Vida Secreta de Kika”- Divulgação Festival do Rio
Em contrapartida, os personagens que cercam Kika fora do ambiente de trabalho poderiam ser mais bem desenvolvidos. A relação com a filha, em especial, carece de uma catarse mais forte para que o desfecho tenha impacto emocional total, porém, na medida que o foco de Poukine seja a trajetória de amadurecimento pessoal da protagonista, é nítido que o filme conclui sua jornada de maneira coerente e sensível.
A Vida Secreta de Kika foi assistido no 27º Festival do Rio.
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