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Hannah Einbinder e Gillian Anderson em cena de "Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte"- Divulgação Retrato Filmes
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte’ é cavalo de Troia em sua essência mais pura

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 9 de agosto de 2026
8 Min Leitura
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Hannah Einbinder e Gillian Anderson em cena de "Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte"- Divulgação Retrato Filmes
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Dirigido por Jane Schoenbrun, Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte prometia uma revitalização do slasher, porém, o excesso de metalinguagem e os simbolismos herméticos demais retiram boa parte da força que o filme poderia alcançar

Todos conhecemos a história de como o cavalo de Troia permitiu que os gregos invadissem uma cidade considerada impenetrável e vencessem a guerra. Apresentado como uma oferenda, aquele “presente de grego” era tudo menos isso: uma grande enganação estética que, por bem ou por mal, tornou-se um símbolo. Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte se aproxima bastante dessa ideia.

Com uma potente introdução que já demonstra seu potencial metalínguístico, Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte se apropria do gênero slasher não para construir apenas mais um exemplar, mas para analisar o que o manteve tão presente na linguagem e na estética cinematográfica até os dias atuais. Afinal, estamos falando de um gênero que se tornou objeto de estudo nos mais diversos meios acadêmicos, mesmo partindo de produções que, em sua superfície, envolviam basicamente carne e fluidos, mas que, simbolicamente, podiam esconder muito mais.

Jane Schoenbrun utiliza uma tímida Hannah Einbinder e uma exuberante Gillian Anderson para discutir liberdade feminina, repressão sexual, orgasmo feminino e diversas outras questões. Algumas são bastante diretas, basta considerar que o monstro se chama “Little Death”, enquanto outras parecem exigir quase um doutorado em feminismo e sexualidade para serem plenamente compreendidas. Isso, entretanto, não impede que sua audiência tente decifrá-las e explore cada vez mais suas diferentes possibilidades de interpretação.

Cena de "Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte"- Divulgação Retrato Filmes

Cena de “Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte”- Divulgação Retrato Filmes

Acampamento Miasma se divide em blocos bastante distintos. De um lado, estão os diálogos e as interações entre Kris, uma jovem diretora queer, e Billy Preston, uma atriz reclusa que carrega os maiores traços possíveis de uma Norma Desmond contemporânea. Nessas conversas, surgem análises sobre o estado atual tanto do cinema de gênero quanto do cinema queer, especialmente sobre a necessidade de encontrar significados e interpretações complexas até mesmo onde talvez não existam.

Do outro lado, acompanhamos sequências dos próprios filmes da franquia fictícia Acampamento Miasma, reproduzindo a estética, a linguagem e a forma de filmagem dos slashers dos anos 1980. É justamente desse contraste entre passado e presente que Schoenbrun extrai alguns dos momentos mais interessantes da produção.

Entre diálogos tarantinescos e sequências de horror oitentistas, porém, o filme começa a se arrastar em simbolismos e situações que pouco acrescentam ao conjunto, funcionando mais como preenchimento para uma análise cool e groovy sobre sexo, repressão e cinema. Em determinados momentos, Schoenbrun parece mais preocupada em fortalecer suas ideias do que em estruturar uma narrativa coesa. Como consequência, a produção flerta com uma lógica próxima ao surrealismo de David Lynch, na qual o absurdo e a ausência de respostas deixam de ser obstáculos e passam a integrar o próprio discurso.

Curiosamente, praticamente todas as críticas que poderiam ser feitas ao filme parecem ter sido antecipadas pela própria Jane Schoenbrun. Isso aparece na conversa de Kris com sua agente e os produtores, mas também na análise semiótica criada pela comparação entre o slasher dos anos 1980, a contemporaneidade e a intimidade de Kris e Billy.

Cena de "Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte"- Divulgação Retrato Filmes

Cena de “Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte”- Divulgação Retrato Filmes

Orgasmo, sexo, repressão, imagem e violência passam a integrar uma enorme teia simbólica. Torna-se essencial prestar atenção em cada linha dos longos diálogos e refletir sistematicamente sobre eles. O problema é que chega um momento em que esse emaranhado se torna tão gigantesco que permanecer conectado à narrativa exige um esforço desproporcional, especialmente quando a própria diretora parece considerar a narrativa algo secundário diante de suas ideias.

Esteticamente, Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte é praticamente uma obra de arte. Existem planos mirabolantes e coloridos, uma direção de arte impecável tanto nas sequências de época quanto nas contemporâneas e um design de som genuinamente assustador. O que derruba o filme é justamente aquilo que existe por baixo dessa beleza: a dificuldade de transformar suas inúmeras ideias em substância dramática.

Sua análise pode parecer profundamente complexa, mas, ao final, revela muito mais sobre as inquietações de sua diretora do que sobre uma narrativa propriamente dita. O filme sabe que existe uma plateia disposta a dissecar cada enquadramento, fala e símbolo, e frequentemente parece alimentar essa necessidade deliberadamente, mesmo quando suas ideias não são tão profundas quanto a embalagem sugere.

Backrooms: Um Não-Lugar (2026, Kane Parsons) apresenta um problema semelhante ao tentar atribuir simbolismos e uma significância gigantesca a algo que, em sua essência, poderia funcionar justamente pela simplicidade: sustos e correria. No caso de Miasma, carne e fluidos.

Hannah Einbinder e Gillian Anderson em cena de "Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte"- Divulgação Retrato Filmes

Hannah Einbinder e Gillian Anderson em cena de “Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte”- Divulgação Retrato Filmes

Podemos passar horas debatendo como “Little Death” representa simbolicamente uma câmera cinematográfica; como abraçar um personagem finalmente permite a experiência do orgasmo feminino; como a indústria trata essas mulheres; ou como o cinema de terror mudou ao longo das décadas e passou a buscar reflexões sobre praticamente tudo. Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte é um prato cheio para essas discussões, e provavelmente será explorado durante anos por espectadores dispostos a destrinchar seus símbolos. Não seria surpreendente vê-lo rapidamente alcançar o status de cult.

Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte parece feito sob medida para um público LGBT que busca maior representação dentro do cinema de terror, incluindo questões que aparentam refletir inquietações pessoais da própria diretora, mas também para os amantes do slasher. Não exatamente como uma nova adição tradicional ao gênero, mas como uma homenagem às suas franquias e, principalmente, uma análise sobre aquilo que o tornou tão marcante.

É quase uma palestra sobre o slasher transformada em experiência cinematográfica.

O problema surge quando esperamos que, além da palestra, exista uma narrativa igualmente coesa e memorável. Nesse sentido, há produções que conseguem deixar marcas muito mais profundas por aquilo que contam, enquanto Acampamento Miasma corre o risco de permanecer na memória principalmente por sua estética impecável e pelas discussões que provoca, e não necessariamente pelo filme que existe por baixo delas.

Distribuído pela Retrato Filmes, em parceria com a Mubi, Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte estreia nos cinemas no dia 13 de agosto.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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