Dirigido por Marcelo Galvão, Colegas e o Herdeiro entrega divertida aventura familiar, simples e despretensiosa, mas simplista demais em alguns momentos.
Colegas e o Herdeiro funciona tanto como uma sequência direta de Colegas (2012, Marcelo Galvão) quanto como um filme independente. Embora siga uma premissa muito semelhante à do longa original, ainda preserva o espírito leve, acolhedor e despretensioso que conquistou o público há mais de uma década.
Logo na abertura, a produção presta uma emocionante homenagem a Marçal Souza, produtor executivo que faleceu antes de ver o projeto concluído. Como Marçal era cego, a sequência apresenta apenas uma tela preta enquanto uma narração em off, carregada de ironia e sagacidade, estabelece imediatamente o tom da obra.
Desde seus primeiros minutos, Marcelo Galvão deixa claro que não busca um realismo absoluto, mas sim uma espécie de fábula contemporânea, um conto de costumes que, ao mesmo tempo, presta um belo tributo a alguém tão importante para a realização do filme.

Cena de “Colegas e o Herdeiro”- Distribuído por H2O Filmes
Acompanhando o trio original após 10 anos, ao mesmo tempo que foca em um novo grupo de crianças que foge do instituto e explora amores, risos e união, Colegas e o Herdeiro apresenta uma narrativa menos consistente do que poderia. Em diversos momentos, o roteiro parece depender excessivamente de gags, cortes constantes para o preto, narração excessivamente expositiva e pequenas barrigas narrativas que alongam desnecessariamente seus modestos 85 minutos de duração. Ainda assim, o humor permanece constante graças ao carisma do elenco e à forma direta e espontânea com que as piadas são construídas.
A sequência em que Esmeralda entrevista os garotos do instituto sobre o paradeiro das crianças desaparecidas é facilmente um dos grandes destaques do filme. O humor nasce das interações naturais entre os personagens e jamais transforma a síndrome de Down em objeto da piada. Pelo contrário, ela faz parte da construção das situações cômicas com respeito, empatia e representatividade, alcançando um equilíbrio raro entre inclusão e leveza, sem recorrer ao discurso panfletário nem ao sentimentalismo.
A presença de Fafá Siqueira como Mamacita, líder de uma família de criminosos que passa a perseguir as crianças, também se mostra um acerto. Em contrapartida, o retorno dos detetives Souza e Tilápia parece pouco justificado. Se no primeiro filme eles desempenhavam um papel importante na narrativa, aqui surgem mais como uma obrigação de roteiro do que por uma necessidade dramática, funcionando quase como um deus ex machina em determinados momentos.
Os conflitos surgem e são resolvidos com enorme facilidade, recurso que conversa diretamente com a proposta de um filme voltado para toda a família, mas que poderia ousar mais em certos momentos. Mesmo quando o ritmo desacelera, o humor dificilmente perde força, seja pelos absurdos protagonizados pelos personagens, seja por momentos tão inesperados quanto uma cantoria de “Atirei o Pau no Gato”.

Cena de “Colegas e o Herdeiro”- Distribuído por H2O Filmes
Marcelo Galvão constrói esse universo fabulesco de maneira tão consistente que até os efeitos especiais propositalmente artificiais encontram espaço dentro da lógica da narrativa, algo anunciado desde sua sequência de abertura.
Ao final, Colegas e o Herdeiro é uma produção pequena em escala e ambição, mas que encontra justamente na sua simplicidade o seu maior encanto. Mesmo sem alcançar a força do filme original e tropeçando em uma narrativa excessivamente simplificada, permanece como uma opção divertida para reunir toda a família no cinema.
Distribuído pela H2O Filmes, Colegas e o Herdeiro chega aos cinemas no dia 13 de agosto.
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