Amores à Parte (Splitsville) chega aos cinemas brasileiros cercado de elogios da crítica internacional após sua estreia no Festival de Cannes 2025. Dirigido por Michael Angelo Covino e estrelado por Dakota Johnson e Adria Arjona, o longa se apresenta como uma comédia sobre relacionamentos modernos, infidelidade e experimentações afetivas.
O protagonista Carey (Kyle Marvin) é um homem calmo que vê sua vida virar do avesso quando sua esposa, Ashley (Adria Arjona), pede o divórcio repentinamente e revela uma traição. Buscando apoio, ele recorre aos amigos Julie (Dakota Johnson) e Paul (Michael Angelo Covino), apenas para descobrir que o casamento deles é aberto. Motivado pela curiosidade, Carey se lança em novas experiências, testando limites e sentimentos — os seus e os dos outros.
Covino e Marvin, que já trabalharam juntos em A Subida (2019), entregam aqui um roteiro que busca equilíbrio entre humor e observações sobre o amor contemporâneo. Porém, parece não se decidir entre abraçar o non-sense ou lidar com a realidade e a profundidade dos seus temas. A crítica internacional destacou o protagonismo feminino: Johnson e Arjona têm mais controle sobre suas trajetórias do que os homens à sua volta, e isso rende bons momentos cômicos e dramáticos.
Desde o início de Amores à Parte há momentos divertidos, como se espera de um filme vendido como comédia, mas, no conjunto, a obra não impressiona nem provoca reflexões mais profundas.
Durante a cabine de imprensa, percebi que ri mais do que a maioria dos presentes. Enquanto assistia, lembrava (e sentia falta) do excelente Closer (2004), de Mike Nichols, baseado na peça de Patrick Marber. Na época, o filme estrelado por Julia Roberts, Jude Law, Natalie Portman e Clive Owen foi celebrado por seu texto afiado e crueza emocional, rendendo indicações ao Oscar e vitórias no BAFTA e Globo de Ouro. Closer mergulha com intensidade no desejo, na mentira e na fragilidade das relações, é um dos melhores filmes que vi sobre essa temática. Entretanto, onde Closer mergulha Amores à Parte apenas toca de leve, como um rascunho.
Aliás, siga-nos e confira mais sobre Cinema em @viventeandante e no nosso canal de whatsapp !
Outra lembrança é Vicky Cristina Barcelona (2008), de Woody Allen, que explorou o triângulo amoroso e a liberdade afetiva com charme, ritmo e química explosiva entre Javier Bardem, Scarlett Johansson, Rebecca Hall e Penélope Cruz (esta última ganhadora do Oscar pela performance). Lá, as ambiguidades emocionais e os dilemas entre estabilidade e paixão são apresentados com naturalidade e humor, enquanto Amores à Parte aposta em situações curiosas, mas sem a mesma densidade. E sem a mesma graça.
Entre acertos e ausências
O filme ao menos não se alonga em demasia, os 100 minutos passam, mas antes do fim, sentia certa exaustão. Falta a coragem de mergulhar mais fundo nas contradições e vulnerabilidades dos personagens. As relações são tratadas de forma mais anedótica que reveladora.
Se em Closer a dor e a verdade cortante se impõem, e em Vicky Cristina Barcelona o calor e a confusão do desejo contagiam, aqui prevalece um tom seguro demais, quase tímido diante do potencial dramático. Amores à Parte fica, de fato, “à parte” de filmes que marcaram a abordagem da sexualidade, infidelidade e amor no cinema.
Amores à Parte é agradável, rende risadas e tem alguma química entre o elenco, mas não alcança o patamar das referências que evoca, voluntária ou involuntariamente. Quem busca um olhar mais profundo e provocador sobre as relações humanas talvez saia da sala com a sensação de que o filme preferiu flertar ao invés de transar com vontade.



