Dirigido por Milagros Mumenthaler, As Correntes transforma reflexão potente sobre identidade e opressão em uma experiência por vezes exaustiva.
Vivemos sob a lógica burocrática e coercitiva não apenas do capitalismo, mas também das normas sociais, explícitas e implícitas, que moldam nosso cotidiano. O psicólogo behaviorista B.F. Skinner defendia que a sensação de liberdade existe apenas na ausência de controle aversivo, isto é, quando não somos guiados pelo medo, pela punição ou pela coerção. Ainda assim, permanecemos condicionados pelo ambiente, pela cultura e pelas estruturas sociais. Essa perspectiva oferece uma chave de leitura interessante para compreender a protagonista de As Correntes.
Lina, Aimé González Sola, possui tudo aquilo que convencionalmente simboliza realização: uma carreira bem-sucedida, uma filha, um marido atencioso e amigas próximas. Ainda assim, vive em constante desconexão consigo mesma. O filme jamais verbaliza as correntes que a aprisionam, a maternidade, as expectativas sociais, a sexualidade, a vida profissional, mas elas permeiam cada cena. Mumenthaler confia na observação e no subtexto para revelar uma mulher incapaz de reconhecer sua própria identidade para além dos papéis que desempenha.
Desde os primeiros minutos, Lina surge dissociada de si mesma. Ela já não se enxerga como indivíduo, apenas como mãe, esposa e empresária. O longa acompanha essa erosão silenciosa sem recorrer a explicações fáceis ou diálogos expositivos. Em vez disso, constrói um retrato marcado pela tristeza, pelo vazio e por um trauma relacionado à água que paira sobre toda a narrativa.

Isabel Aimé Gonzalez Sola e Ernestina Gatti em cena de “As Correntes”- Divulgação Filmes do Estação
A diretora opta por um cinema de observação, mais próximo da experiência sensorial do que da narrativa clássica. Há momentos de grande força imagética, como a sequência em que Lina e a filha observam a cidade do alto de um farol enquanto a luz atravessa seus rostos ao som de uma trilha quase encantada. A cena sintetiza temas importantes, como o peso do olhar alheio e a distância emocional entre as personagens. Contudo, esse tipo de construção se repete ao longo do filme sem gerar novas camadas dramáticas. As imagens aprofundam o estado emocional de Lina, mas raramente impulsionam a narrativa para novos territórios.
Essa é justamente a principal fragilidade de As Correntes. O filme demonstra enorme sensibilidade ao retratar a exaustão feminina, mas insiste tanto nesse sentimento que acaba reproduzindo em parte o próprio esgotamento que pretende examinar. O espectador compreende a dor de Lina muito antes do desfecho, mas a obra continua retornando às mesmas emoções e conflitos sem oferecer uma progressão proporcional.
Ainda assim, a empatia construída pela protagonista é inegável. Quando ela finalmente tenta romper suas amarras, abandonando a filha em um momento de desespero, a reação provocada é complexa. Há indignação diante de sua atitude, mas também compreensão por alguém que parece incapaz de continuar sustentando uma vida que já não reconhece como sua. O mergulho psicológico é intenso e desconfortável, justamente porque evita julgamentos simplistas.

Isabel Aimé Gonzalez Sola em cena de “As Correntes”- Divulgação Filmes do Estação
Visualmente, o longa impressiona. A fotografia de caráter quase onírico transforma Buenos Aires em uma extensão do estado mental de Lina. A cidade deixa de ser apenas cenário para se tornar mais uma estrutura opressiva, mais uma corrente que restringe seus movimentos e sua capacidade de escapar do passado.
No fim, As Correntes funciona melhor como estudo de personagem do que como narrativa. É um recorte específico da vida de uma mulher em crise, rico em subjetividade e aberto a múltiplas interpretações. Entretanto, ao concentrar quase toda sua energia em uma única ideia, o filme limita o alcance de suas próprias reflexões. Com cerca de 100 minutos de duração, sua abordagem contemplativa faz com que a experiência pareça mais longa do que realmente é.
Delicado, sensível e visualmente sofisticado, As Correntes possui observações perspicazes sobre identidade, maternidade e aprisionamento social. Ainda assim, a insistência em uma mesma nota emocional impede que alcance a catarse que tanto promete. O resultado é menos um grito de libertação e mais o retrato melancólico de alguém que já não tem forças para gritar.
Distribuído pelo Filmes do Estação, As Correntes chega aos cinemas no dia 18 de Junho.
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