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Lucas Drummond e Liev Carlos em cena de "Apenas Coisas Boas"- Divulgação GMFilms
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Apenas Coisas Boas’ aposta na ousadia dentro de questionável narrativa

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 14 de junho de 2026
6 Min Leitura
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Lucas Drummond e Liev Carlos em cena de "Apenas Coisas Boas"- Divulgação GMFilms
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Dirigido por Daniel Nolasco, Apenas Coisas Boas traz escolhas equivocadas e situações desnecessárias em um filme que deixa sua marca, porém, do modo errado.

As luzes se apagam, os créditos começam, e vemos um homem de jaqueta de couro andando de moto pelo Cerrado. Sua pose de bad boy remete à Marlon Brando em O Selvagem (1953, László Benedek). Porém, após sofrer um acidente, ele é resgatado por um fazendeiro estoico chamado Antônio. Este é o início de Apenas Coisas Boas.

Rapidamente, a produção se revela uma versão brasileira de O Segredo de Brokeback Mountain (2005, Ang Lee), ainda que apresente algumas particularidades próprias. A principal delas está na forma como retrata a intimidade entre seus protagonistas.

Embora a química entre Antônio e Marcelo seja evidente e o peso do preconceito ao seu redor seja constantemente sentido, o filme insiste em cenas sexuais excessivamente explícitas que pouco acrescentam ao desenvolvimento dramático da relação. Em diversos momentos, a impressão é de que essas sequências existem mais para provocar impacto do que para aprofundar os personagens ou a narrativa.

A obra se divide em dois núcleos bastante distintos. O primeiro retrata o amor intenso e proibido entre Antônio e Marcelo. Próximo ao cinema de arte em sua abordagem, o filme utiliza o silêncio com eficiência e aposta em uma fotografia limpa que valoriza tanto a paisagem do Cerrado quanto os momentos de intimidade dos protagonistas. A direção de arte também se destaca, preenchendo a tela com personalidade e sensibilidade visual. No entanto, é justamente na construção narrativa que a produção encontra suas maiores dificuldades.

Lucas Drummond e Liev Carlos em cena de "Apenas Coisas Boas"- Divulgação GMFilms

Lucas Drummond e Liev Carlos em cena de “Apenas Coisas Boas”- Divulgação GMFilms

A relação entre Antônio e seu pai, por exemplo, permanece superficial. Compreendemos que existe um afastamento motivado por questões ligadas à sexualidade do protagonista, mas o filme raramente vai além dessa informação básica. Como resultado, ambos acabam reduzidos a arquétipos: o filho reservado que busca viver em paz e o patriarca poderoso, marcado pela autoridade e pela intolerância.

Após cerca de cinquenta minutos acompanhando a trajetória de Antônio e Marcelo, a narrativa sofre uma ruptura radical. O filme avança quarenta anos no futuro e reencontra Antônio já idoso, um homem que aparentemente prosperou, mas continua preso ao passado. Nesse momento, a obra abandona o romance que guiava sua primeira metade e assume contornos de thriller investigativo ao levantar uma pergunta central: onde está Marcelo?

A mudança de direção poderia ser interessante, mas o grande salto temporal compromete o envolvimento do público. Faltam elementos que permitam compreender plenamente a transformação dos personagens ao longo dessas quatro décadas. Novas figuras, como a funcionária Helga e o atual amante de Antônio, surgem sem receber desenvolvimento suficiente, contribuindo mais para a sensação de dispersão do que para o enriquecimento da trama.

Fernando Libonati em cena de "Apenas Coisas Boas"- Divulgação GMFilms

Fernando Libonati em cena de “Apenas Coisas Boas”- Divulgação GMFilms

Essa ausência de construção enfraquece algumas das ideias mais importantes do filme. A percepção de que Antônio se tornou semelhante ao próprio pai carece de impacto porque a relação entre ambos nunca foi explorada com a profundidade necessária. Da mesma forma, a persistência do amor entre Antônio e Marcelo perde força dramática porque o espectador acompanha apenas um lado dessa história durante a segunda metade da narrativa. Marcelo permanece como uma presença constantemente evocada, mas raramente sentida.

O problema central de Apenas Coisas Boas não está em sua ambição, mas na incapacidade de organizar suas múltiplas ideias em uma narrativa coesa. Daniel Nolasco apresenta temas interessantes, imagens marcantes e conflitos potencialmente ricos, porém o filme parece constantemente dividido entre diferentes caminhos, sem desenvolver plenamente nenhum deles.

Diferentemente da narrativa coesa, direta e envolvente de Ato Noturno (2025, Filipe Matzembacher e Marcio Reolon), Apenas Coisas Boas se fragmenta à medida que tenta expandir seu alcance. O que começa como um romance de grande potencial termina como uma experiência irregular, marcada por boas intenções, mas prejudicada por escolhas estruturais que enfraquecem seu impacto emocional.

O sentimento final é de perda. Perda de um amor, perda da humanidade e, principalmente, perda de uma oportunidade. Apesar de algumas cenas visualmente memoráveis e de uma proposta que demonstra ambição artística, Apenas Coisas Boas não consegue sustentar o peso de suas próprias ideias. Ao final, permanece a sensação de que havia uma grande história a ser contada, mas que ela se perdeu no caminho.

Distribuído pela Olhar Filmes, Apenas Coisas Boas chega aos cinemas no dia 25 de junho.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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