Dirigido por Jonathan Stiasny, Bowie: O Ato Final se utiliza de imagens de arquivo e entrevistas para estruturar um retrato da força de David Bowie, mas, nos momentos em que deveria brilhar, o filme se contém.
Poucas estrelas deixaram sua marca e impactaram tantas áreas quanto Bowie. Compositor, músico, ator, ativista e verdadeiro “pó de estrela”, ele foi um ícone. Como dito por Amir Labaki na abertura do último Festival É Tudo Verdade: “Tudo começou a dar errado no mundo desde o seu falecimento em 2016”. Apesar da piada, há um fundo de verdade. A grandiosidade de Bowie é algo que faz falta, algo que ele próprio parece ter sentido ao longo da vida, e um documentário como Bowie: O Ato Final pode até tentar, mas jamais conseguirá capturar todas as suas nuances.
Uma das principais questões do documentário de Stiasny é a escolha por estruturá-lo como um produto convencional, algo que funcionaria com outras personalidades, mas não com Bowie. O filme se constrói por meio de imagens de arquivo, majoritariamente fotos e registros de bastidores, combinadas a entrevistas com amigos, colegas de profissão, críticos e jornalistas.

David Bowie em cena de “David Bowie: O Ato Final”- Divulgação oficial
A produção busca focar em como, em seus momentos finais, Bowie transformou a iminência da morte em arte por meio do álbum Blackstar. Iniciando e encerrando com uma explicação sobre buracos negros, evocando ideias de fim, mas também de potência, o filme mergulha nos anos 70 e passa a construir uma confusão cronológica: salta ao presente, retorna aos anos 50, avança para os 90, volta aos 60, e assim por diante. Sem uma coordenação clara, a narrativa se perde em si mesma.
Bowie: O Ato Final apresenta uma camada inicial sobre as questões psicológicas do artista, que lidou ao longo da vida com conflitos de identidade e um ego que, embora existente, parecia cuidadosamente ocultado. Há reflexões sobre arte, inserções de videoclipes icônicos, imagens do espaço como metáfora e paralelos que tentam dar conta das múltiplas fases desse verdadeiro camaleão humano.
Apesar de interessante em diversos momentos, a produção não é acessível para iniciantes, exige conhecimento prévio sobre Bowie para ser plenamente compreendida. O filme de Stiasny funciona mais como uma ode tardia do que como um esforço de dissecar a vida de seu retratado. E, dentro de uma estética tradicional, é curioso, e até contraditório, que o documentário de alguém que temia tanto a normalidade, acabe sendo tão convencional.

David Bowie em cena de “David Bowie: O Ato Final”- Divulgação oficial
A verborragia domina ao apresentar fragmentos isolados da vida do cantor, sem grande preocupação em contextualização, priorizando momentos marcantes em detrimento de uma construção mais coesa. Com 90 minutos de duração, o filme cai em uma repetição que prejudica tanto sua proposta quanto a experiência do espectador, entregando um documentário “comum” sobre alguém que jamais foi isso, algo que, como o próprio filme sugere, Bowie temia profundamente.
Bowie: O Ato Final acaba se tornando um teste de resistência. Até mesmo seu foco, o álbum Blackstar, se dilui em meio a uma retrospectiva dispersa de grandes momentos. Embora haja méritos pontuais, o filme falha ao não explorar com mais profundidade os impactos e as resoluções dessa trajetória. Retratar Bowie exige mais do que reverência: exige invenção, algo que, aqui, nunca chega a ser plenamente cogitado.
Exibido como filme de abertura da 31ª edição do Festival É Tudo Verdade, Bowie: O Ato Final terá sessões ao longo do evento, que ocorre entre os dias 9 e 19 de abril e reúne mais de 75 filmes em sua programação, com ingressos gratuitos.
A programação completa da 31ª edição do Festival É Tudo Verdade pode ser encontrada no site oficial.
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