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Fernando Caruso em cena de "Cansei de ser Nerd"- Divulgação H2O Filmes
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Cansei de ser Nerd’ é uma caótica homenagem à cultura nerd brasileira

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 18 de maio de 2026
6 Min Leitura
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Fernando Caruso em cena de "Cansei de ser Nerd"- Divulgação H2O Filmes
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Dirigido por Gualter Pupo, Cansei de ser Nerd tenta ser de tudo um pouco

Com o passar dos anos, a figura do nerd deixou de carregar o estigma pejorativo de décadas atrás para se transformar em um nicho cultural consolidado. Hoje, eventos como a CCXP, encontros temáticos e até partidas de quadribol no Ibirapuera mostram como a cultura nerd se tornou ampla, popular e comercialmente poderosa. Ainda assim, existe um aspecto pouco explorado sobre esse universo: o ressentimento de quem passou anos sendo excluído e ridicularizado.

Produções como Christine, o Carro Assassino (1983, John Carpenter) trabalham justamente essa sensação de que todo nerd está a um dia ruim de reproduzir nos outros tudo aquilo que sofreu durante a vida. É uma discussão rica, humana e cheia de possibilidades dramáticas. Cansei de ser Nerd parecia caminhar nessa direção, mas escolhe outro caminho: uma mistura de comédia absurda e ficção científica que, embora divertida em momentos pontuais, enfraquece o impacto da própria proposta.

Estrelado por Fernando Caruso, o longa dirigido por Gualter Pupo começa com o áudio de um episódio do Choque de Cultura antes de apresentar Airton, um nerd construído a partir dos estereótipos mais clássicos possíveis. Aos poucos, a narrativa desenvolve um mistério envolvendo uma acusação recebida por ele duas décadas antes, após o desaparecimento de uma colega da escola.

Na tentativa de provar sua inocência, Airton participa de uma confraternização de antigos colegas da faculdade, reencontra o grande amor de sua vida e descobre uma seita de alienígenas veganos.

A premissa é propositalmente absurda, e o filme abraça isso sem qualquer vergonha. O problema é que, em menos de 90 minutos, Cansei de ser Nerd tenta conciliar comédia romântica, mistério investigativo, ficção científica, sátira social e homenagem à cultura pop. O resultado é uma narrativa dispersa, que constantemente abandona ideias promissoras para correr atrás de referências e situações caóticas.

As homenagens vão de monstros clássicos da Universal até franquias como Marvel, Star Wars e Star Trek. Entretanto, o excesso de estímulos faz com que o filme perca organicidade. Em vez de fortalecer a jornada emocional de Airton, as referências funcionam mais como distrações.

Existe, sim, um arco interessante no protagonista. Em determinado momento, Airton tenta abandonar sua personalidade nerd para se encaixar em outro ambiente e descobrir uma nova versão de si mesmo. É justamente aí que o longa parece encontrar sua discussão mais relevante: a ideia de que alguém cansado de ser rejeitado decide mudar completamente para finalmente ser aceito.

Infelizmente, esse desenvolvimento dura pouco. Entre a estética desconfortável da seita alienígena e uma invasão zumbi que surge sem muito impacto narrativo, a reflexão perde espaço para o espetáculo.

Fernando Caruso e Pedro Benevides em cena de "Cansei de ser Nerd"- Divulgação H2O Filmes

Fernando Caruso e Pedro Benevides em cena de “Cansei de ser Nerd”- Divulgação H2O Filmes

Nesse sentido, o filme lembra bastante Como falar com Garotas em Festas (2017, John Cameron Mitchell), adaptação da obra homônima de Neil Gaiman. Assim como naquela produção, alienígenas, bandas excêntricas e situações bizarras são usados como metáforas para amadurecimento e pertencimento. E, da mesma forma que o filme de Mitchell, Cansei de ser Nerd privilegia a excentricidade estética em detrimento de uma narrativa mais sólida.

Isso não significa que o filme não funcione em nenhum momento. Algumas cenas são genuinamente engraçadas, e certos flashbacks envolvendo a raiva internalizada de Airton revelam o potencial de uma obra mais íntima e emocional. Porém, toda vez que a história ameaça aprofundar seus personagens, ela rapidamente se distrai com mais uma referência, mais um exagero visual ou mais uma reviravolta aleatória.

Até mesmo como entretenimento descompromissado, o longa se torna excessivamente carregado. Ao final, permanecem na memória apenas imagens isoladas, cenários extravagantes e momentos específicos, nunca a trajetória emocional que conduziu os personagens até ali.

Cansei de ser Nerd tinha potencial para ser uma comédia nacional curiosa sobre identidade, pertencimento e frustração social dentro da cultura nerd. No entanto, ao tentar abraçar gêneros e ideias demais em tão pouco tempo, o filme termina desfocado em seus próprios objetivos.

Distribuído pela H2O Filmes, Cansei de ser Nerd estreia nos cinemas brasileiros em 28 de maio.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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